Falta de quimioterapia essencial leva hospitais a adaptar tratamentos e deixa pacientes sem opção ideal
Desabastecimento do medicamento endovenoso afeta protocolos de oncologia e reumatologia; sociedades médicas publicaram recomendações emergenciais e governo anunciou compra e medidas para normalizar o fornecimento.
20/04/2026 às 07:02por Redação Plox
20/04/2026 às 07:02
— por Redação Plox
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Um medicamento antigo, barato e central em protocolos de câncer e doenças autoimunes graves começou a faltar no Brasil e obrigou médicos a reescrever tratamentos em tempo real.
A ciclofosfamida endovenosa, usada há décadas na oncologia e na reumatologia, está em desabastecimento no país. A falta atinge desde esquemas clássicos de quimioterapia, como os utilizados no câncer de mama, até terapias para lúpus, vasculites e transplantes de medula óssea.
Enquanto o Ministério da Saúde tenta recompor estoques com compras emergenciais, sociedades médicas alertam que existem alternativas, mas elas nem sempre são equivalentes e, em alguns casos, simplesmente não há substituto ideal.
A ciclofosfamida endovenosa, usada há décadas na oncologia e na reumatologia, está em desabastecimento no Brasil.
Foto: Reprodução/Baxter
Um remédio antigo, mas ainda central no tratamento
A ciclofosfamida pertence ao grupo de quimioterápicos chamados agentes alquilantes. De forma simplificada, atua danificando o DNA das células, especialmente as que se multiplicam rapidamente, como células tumorais e células do sistema imune em doenças autoimunes.
Mesmo tendo sido desenvolvida há décadas, segue presente em protocolos considerados padrão. Na oncologia, integra esquemas amplamente usados no câncer de mama, além de tumores pediátricos e doenças hematológicas. Na reumatologia, é considerada fundamental em quadros graves, como lúpus com comprometimento renal ou neurológico, vasculites sistêmicas e doenças com risco de falência de órgãos.
Por isso, sua ausência não é facilmente contornável.
Impacto direto: de ajustes de protocolo a risco de interrupção
Com a falta da formulação intravenosa, médicos têm recorrido a adaptações quando elas existem. Um dos caminhos é substituir a versão endovenosa pela forma oral, que ainda está disponível no país. Essa estratégia já foi usada em estudos clínicos e pode funcionar em alguns cenários, mas não resolve todos os casos.
Também há protocolos alternativos que dispensam a droga, especialmente em alguns tipos de câncer. Ainda assim, esses esquemas não são universais e podem apresentar diferenças de eficácia, toxicidade ou indicação clínica.
Na prática, a escassez levou sociedades médicas a elaborar recomendações emergenciais para orientar oncologistas sobre como reorganizar tratamentos durante o período de falta.
Na reumatologia, o cenário é descrito como mais delicado: há situações em que a ciclofosfamida é parte essencial da indução de remissão da doença, e qualquer troca exige avaliação caso a caso, com risco de piora clínica se não for bem indicada.
Como médicos estão reorganizando tratamentos durante a escassez
Para lidar com a falta da ciclofosfamida endovenosa, sociedades médicas passaram a orientar adaptações formais nos esquemas terapêuticos, com base em evidências já existentes.
No câncer de mama, uma das estratégias é inverter a ordem das etapas quando possível. Em esquemas que combinam diferentes drogas, a recomendação é iniciar pela fase que não depende da ciclofosfamida e adiar o uso da medicação até a normalização do estoque.
Outra alternativa é substituir a formulação intravenosa pela versão oral em protocolos já conhecidos, como o CMF (ciclofosfamida, metotrexato e fluorouracil) ou o CAF (ciclofosfamida, doxorrubicina e fluorouracil), que utilizam a droga por via oral e têm respaldo em estudos clínicos.
Há ainda situações em que o esquema pode ser trocado por outras combinações de quimioterapia que não incluem a ciclofosfamida, com o uso de medicamentos que atuam por outros mecanismos para destruir as células tumorais.
Em casos específicos, como um tipo mais agressivo de câncer de mama chamado triplo-negativo, pode entrar como alternativa a carboplatina, quando a droga principal não está disponível. As orientações, porém, reforçam que as adaptações exigem critério, porque nem todos os esquemas são equivalentes em todos os contextos clínicos.
Nos casos mais sensíveis, como alguns tumores pediátricos, transplantes de medula óssea ou determinadas doenças hematológicas, a recomendação é priorizar o uso dos estoques disponíveis, já que não há substitutos considerados plenamente equivalentes.
Em doenças autoimunes, as orientações incluem alternativas, mas com maior grau de incerteza. No lúpus com comprometimento dos rins, por exemplo, pode ser usado o micofenolato mofetil, que ajuda a controlar a inflamação e, em alguns casos, tem eficácia semelhante à ciclofosfamida.
Já nas vasculites —grupo de doenças em que o sistema imunológico ataca os vasos sanguíneos— uma opção é o rituximabe, que atua reduzindo a atividade de células de defesa envolvidas na doença. Outras possibilidades citadas são azatioprina, tacrolimo e ciclosporina, com escolha condicionada ao tipo de doença, à gravidade e às condições do paciente.
A Sociedade Brasileira de Reumatologia ressalta que as substituições não são universalmente equivalentes e devem ser avaliadas individualmente, considerando riscos, benefícios e a disponibilidade no sistema de saúde.
Escassez de medicamentos antigos e cadeia vulnerável
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a falta da ciclofosfamida não é um evento isolado. Ela faz parte de um movimento mais amplo: a escassez de medicamentos antigos, fora de patente e com menor interesse comercial.
A oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), aponta que esse tipo de desabastecimento tem ocorrido também com outros quimioterápicos clássicos, no Brasil e no exterior. De acordo com ela, são medicamentos de baixo custo, com poucos fabricantes no mundo, o que torna a cadeia mais vulnerável a interrupções, como problemas na produção ou na obtenção de matéria-prima.
A farmacêutica Baxter, responsável pelo medicamento no Brasil, afirmou ao g1 que a restrição atual está ligada a uma interrupção técnica em uma fábrica parceira, o que afetou a produção e a liberação do produto. Segundo a empresa, a fabricação já foi retomada, mas ainda opera com capacidade reduzida, insuficiente para atender à demanda global.
A companhia diz que trabalha com autoridades brasileiras, como o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para normalizar o fornecimento, com expectativa de melhora gradual ao longo de 2026.
Especialistas veem vulnerabilidade estrutural no tratamento
Para o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, o problema vai além de um medicamento específico e revela uma vulnerabilidade estrutural.
Essas drogas são a espinha dorsal de muitos tratamentos. Quando faltam, você não está apenas substituindo um remédio —está alterando toda a lógica terapêutica, com possíveis efeitos em eficácia, toxicidade e custo Stephen Stefani, da Americas Health Foundation
Ele também ressalta que, em muitos casos, as alternativas disponíveis são mais caras ou menos estudadas naquele contexto específico, o que pode ampliar desigualdades de acesso, especialmente no sistema público.
Ministério da Saúde anuncia compra emergencial e tentativa de acelerar importação
Diante do cenário, o Ministério da Saúde afirma ter realizado uma aquisição emergencial de 140 mil comprimidos e 80 mil frascos-ampola do medicamento, com distribuição prevista para centros de referência em todo o país.
A pasta também solicitou à Anvisa a priorização de processos para ampliar a oferta, incluindo importação excepcional e liberação mais rápida de lotes.
A expectativa oficial é de normalização do abastecimento a partir de junho, após a retomada da produção pela fabricante.