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O leite materno muda de composição ao longo do tempo, não precisa ser complementado com água nos primeiros seis meses e o chamado “leite fraco” é um mito. Ao mesmo tempo, dor, dificuldades na pega, retorno ao trabalho e falta de uma rede de apoio estão entre os fatores que podem tornar a amamentação desafiadora para muitas mulheres.
Aleitamento materno exclusivo é recomendado até os seis meses, mas menos da metade das crianças brasileiras nessa faixa etária recebe somente leite materno, segundo dados nacionais.
Foto: Reprodução / Agência Brasil.
Essas questões ganham destaque durante o Agosto Dourado, mês dedicado à promoção do aleitamento materno no Brasil. A campanha foi instituída pela Lei Federal nº 13.435/2017 e recebe a cor dourada em referência ao chamado “padrão ouro” do leite materno.
Para esclarecer dúvidas comuns sobre o assunto, o Plox conversou com a pediatra Dra. Ana Luisa Barcelos, que destacou que a amamentação deve ser incentivada, mas também acompanhada de informação e suporte às mães.
Dra. Ana Luisa Barcelos - Pediatra.
Menos da metade dos bebês recebe aleitamento exclusivo até os seis meses
O Ministério da Saúde recomenda que o bebê receba exclusivamente leite materno até os seis meses de idade, sem necessidade de água, chás, sucos ou outros alimentos. Depois desse período começa a alimentação complementar, mas a orientação é manter a amamentação até os dois anos ou mais.
Apesar do avanço registrado nas últimas décadas, os dados nacionais mostram que a recomendação ainda não é alcançada por grande parte das famílias.
O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019) apontou prevalência de aproximadamente 45,8% de aleitamento materno exclusivo entre crianças brasileiras menores de seis meses. Em 1986, esse percentual era de apenas 3%, mostrando uma evolução significativa, embora ainda haja espaço para ampliar a prática.
Ana Luisa explica que o leite materno fornece nutrientes e fatores de proteção importantes para o desenvolvimento da criança.
Dra. Ana Luisa Barcelos - Pediatra.
Segundo o Ministério da Saúde, além da nutrição, a amamentação repercute na proteção contra infecções e no desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. Para a mulher, também está associada a benefícios como redução do risco de câncer de mama e de ovário.
Uma das dúvidas que ainda chegam aos consultórios é se determinadas mulheres produzem um leite considerado “fraco”.
Segundo a pediatra, a aparência do leite não determina sua qualidade. O aspecto e a composição mudam durante o período de amamentação e podem variar inclusive ao longo do dia.
Nos primeiros dias após o nascimento, por exemplo, é produzido o colostro, que possui características diferentes do leite observado posteriormente.
Tem mulher que tem leite muito denso, muito gorduroso, tem mulher que tem leite mais líquido, e isso não quer dizer que um é melhor do que o outro. O leite sempre vai ser produzido individualmente para o seu bebê afirma a Dra. Ana Luisa.
O Ministério da Saúde também classifica como mito a ideia de que o leite perde os benefícios depois dos seis meses. A partir dessa idade, outros alimentos devem ser introduzidos, mas o leite materno continua sendo fonte de nutrientes e fatores de proteção.
Embora seja um processo natural, amamentar também envolve aprendizado. Entre as dificuldades relatadas pelas mães estão dor, fissuras nas mamas e problemas relacionados à pega do bebê.
Ana Luisa explica que posicionamento e pega adequados são importantes para prevenir complicações.
Dra. Ana Luisa Barcelos - Pediatra.
Quando houver dor persistente, ferimentos ou outras dificuldades, a orientação é procurar um profissional capacitado para avaliar a amamentação e identificar o problema.
Outro desafio aparece quando termina a licença e a mulher retorna ao trabalho. A recomendação de aleitamento exclusivo até os seis meses pode esbarrar justamente na rotina profissional. Para a Dra. Ana Luisa, planejamento e apoio podem permitir que o bebê continue recebendo leite materno mesmo durante os períodos em que a mãe estiver ausente.
Dra. Ana Luisa Barcelos - Pediatra.
Durante a entrevista, a pediatra mostrou recipientes próprios para armazenamento e explicou que a retirada pode ser realizada manualmente ou com auxílio de bombas.
Dra. Ana Luisa Barcelos - Pediatra.
Para a pediatra, um dos principais recados do Agosto Dourado é justamente que o sucesso da amamentação não pode ser colocado exclusivamente sobre os ombros da mulher.
Família, companheiro, profissionais de saúde, empresas, creches e outros espaços frequentados pela mãe e pelo bebê podem influenciar na continuidade do aleitamento.
O papel na amamentação é da sociedade. É dessa empresa que precisa ter um local apropriado para essa mulher fazer a ordenha, ter um local para poder armazenar o leite. A rede de apoio precisa entender a importância de ofertar o leite destaca.
O próprio Ministério da Saúde reconhece que a continuidade da amamentação depende também do suporte oferecido pela família, pelos serviços de saúde e pelo ambiente de trabalho.
Por isso, além de divulgar os benefícios do leite materno, o Agosto Dourado coloca em discussão as condições necessárias para que as mulheres que desejam amamentar consigam fazê-lo com informação, assistência profissional e uma rede de apoio adequada.