Chefe da Corregedoria da Polícia Civil de SP pede afastamento após parente ser preso por ligação com o PCC

Rosemeire Monteiro de Francisco Ibañez deixa o cargo após a prisão de seu sobrinho, Eduardo Monteiro, suspeito de integrar esquema de extorsão e lavagem de dinheiro ligado ao PCC

Por Plox

20/12/2024 14h23 - Atualizado há 8 meses

A chefe da Corregedoria Geral da Polícia Civil de São Paulo, Rosemeire Monteiro de Francisco Ibañez, pediu afastamento do cargo após a prisão de seu sobrinho, Eduardo Lopes Monteiro, de 47 anos. Ele é investigado por suspeita de envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e foi detido na última terça-feira (17) em Bragança Paulista, interior de São Paulo.

Foto: Reprodução

Fontes ouvidas pela TV Globo informaram que Rosemeire justificou seu pedido de afastamento afirmando estar desgastada com a situação, já que Eduardo, chefe de investigações da Polícia Civil, usaria a relação familiar para se proteger de apurações. Com sua saída, o cargo permanece vago e sem nomeação de substituto até o momento.

A Corregedoria é o órgão responsável por investigar eventuais desvios de conduta de policiais civis.

Acusações contra Eduardo Monteiro
As acusações contra Eduardo Monteiro vão além do parentesco com a chefe da Corregedoria. De acordo com a investigação da Polícia Federal (PF), o investigador teria se apropriado de bens do delator Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, morto no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, no dia 8 de novembro, durante o processo de delação premiada.

Relatórios da PF apontam que Gritzbach possuía uma gravação na qual Eduardo afirmava não temer a Corregedoria, pois tinha uma tia no comando do órgão. Além disso, Eduardo é acusado de extorquir bens de Gritzbach, como relógios, computadores e dinheiro em espécie, enquanto o delator estava preso.

Movimentações financeiras suspeitas
A investigação revelou indícios de que Eduardo realizava operações financeiras incompatíveis com seu patrimônio e ocupação profissional. As movimentações foram detectadas pelo Relatório de Inteligência Financeira (RIF) e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF). As irregularidades identificadas incluem:

  • Uso de contas bancárias com pouca movimentação para depósito de grandes quantias de dinheiro.
  • Realização de transações imobiliárias cujos valores declarados estavam muito abaixo do valor de mercado.

Além disso, ele é sócio das empresas MD Construções e Baronesa Motors Ltda., que, segundo os investigadores, podem ter sido usadas para ocultar a origem ilícita de bens e valores.

Operação policial e prisão de envolvidos
A operação, batizada de Tacitus (termo em latim que significa "silencioso" ou "não dito"), foi deflagrada pela Polícia Federal em parceria com o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), com apoio da Corregedoria da Polícia Civil. A ação mobilizou 130 policiais federais e promotores, com o objetivo de cumprir 8 mandados de prisão e 13 de busca e apreensão.

Os mandados foram cumpridos em São Paulo e nas cidades de Bragança Paulista, Igaratá e Ubatuba. Entre os detidos, além de Eduardo Monteiro, estão o delegado Fábio Baena e os policiais civis Marcelo Ruggeri, Marcelo Marques de Souza (conhecido como "Marcelo Bombom") e Ademir Pereira Andrade.

Outro nome de destaque é o policial civil Rogério de Almeida Felício, que, segundo apuração, também trabalha como segurança do cantor Gusttavo Lima. Rogério está foragido, e sua defesa afirma aguardar acesso ao processo para tomar as medidas judiciais cabíveis.

Apreensões e destino dos presos
Durante as buscas, a Polícia Federal apreendeu uma grande quantidade de dinheiro na casa de um dos policiais investigados, incluindo R$ 620 mil, US$ 1 mil e 1,5 mil euros. Os detidos foram levados para a carceragem da PF na capital paulista e, nesta quarta-feira (18), passarão por audiência de custódia. Caso a prisão seja mantida, os policiais civis seguirão para o presídio da Polícia Civil, enquanto os demais presos irão para uma unidade prisional comum.

Crimes investigados e penas
Os suspeitos devem responder pelos crimes de:

  • Organização criminosa;
  • Corrupção ativa e passiva;
  • Ocultação de capitais (lavagem de dinheiro).

Somadas, as penas podem chegar a 30 anos de reclusão.

Esquema criminoso
O esquema investigado envolve a participação de policiais, delegados e empresários que teriam colaborado com o PCC em práticas ilícitas, como:

  • Manipulação e vazamento de informações de investigações policiais;
  • Venda de proteção a criminosos;
  • Benefício a um esquema de lavagem de dinheiro do PCC.

As autoridades também apuram a relação do grupo com o assassinato de Antônio Vinicius Lopes Gritzbach, ocorrido no Aeroporto Internacional de Guarulhos. As investigações sugerem que o assassinato do delator teria sido uma forma de silenciá-lo.

Defesa dos investigados
O advogado Daniel Bialski, que representa Fábio Baena e Eduardo Monteiro, classificou a prisão dos dois como "arbitrariedade flagrante" e afirmou que "os fatos que embasaram a prisão já foram investigados e arquivados pela Justiça, por recomendação do próprio Ministério Público". Segundo ele, ambos os acusados se apresentaram voluntariamente para prestar depoimento e não causaram qualquer impedimento às investigações.

A defesa de Marcelo Ruggeri afirmou que ainda não teve acesso aos autos, mas considera a prisão prematura. Já os advogados de Rogério de Almeida Felício disseram que ele sempre desempenhou suas funções com "zelo, responsabilidade e respeito à lei" e nunca esteve envolvido com o crime organizado.

Até o momento, a defesa dos demais presos não foi localizada.

Posicionamento da Secretaria de Segurança Pública
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) declarou que a instituição "não compactua com desvio de conduta" e que "comprovada qualquer irregularidade, as medidas serão adotadas". Além disso, afirmou que a Corregedoria da Polícia Civil está acompanhando os desdobramentos da operação e está à disposição para colaborar com as investigações.

A operação Tacitus expõe mais um capítulo da luta contra a corrupção policial e a influência do PCC em órgãos de segurança pública, com potencial de gerar novas prisões e revelações nos próximos dias.

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