Terapia hormonal na menopausa não previne demência, aponta revisão com 1 milhão de mulheres
Análise publicada na The Lancet Healthy Longevity indica que reposição hormonal não altera de forma comprovada o risco de demência em mulheres na pós-menopausa e não deve ser usada com esse objetivo
21/01/2026 às 08:44por Redação Plox
21/01/2026 às 08:44
— por Redação Plox
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Apesar de estudos anteriores apontarem uma possível relação entre menopausa, declínio cognitivo e maior risco de demência, uma ampla revisão científica indica que a terapia de reposição hormonal não altera o risco de demência em mulheres.
A conclusão vem de uma análise de dez estudos, envolvendo mais de 1 milhão de participantes, publicada na revista científica The Lancet Healthy Longevity. Os autores avaliaram o impacto da terapia hormonal da menopausa (THM) sobre o risco de demência e de comprometimento cognitivo leve.
Terapia hormonal na menopausa não altera risco de demência.
Foto: Freepik
“A revisão não encontrou evidências de que o uso de THM [terapia hormonal da menopausa] aumenta ou reduza o risco de demência em mulheres na pós-menopausa”, analisam os pesquisadores.
A revisão lembra que estudos observacionais iniciais sugeriam um possível efeito protetor da terapia hormonal, especialmente quando iniciada precocemente e mantida por longos períodos. Em 2021, por exemplo, um estudo publicado na revista científica da Alzheimer's Association, Alzheimer's & Dementia, havia indicado que a terapia hormonal estaria associada à redução do risco de doenças neurodegenerativas, incluindo demência.
O novo trabalho, porém, destaca as limitações desses estudos observacionais e ressalta que os supostos efeitos cognitivos benéficos da reposição hormonal não foram reproduzidos em ensaios clínicos randomizados. De acordo com a análise, as evidências disponíveis até agora não permitem afirmar se a terapia hormonal na menopausa tem efeito positivo, negativo ou neutro sobre o risco de demência ou de comprometimento cognitivo leve.
Os autores reforçam que, com base no que se sabe até o momento, as evidências não sustentam o uso da terapia hormonal exclusivamente para reduzir o risco de demência. Ainda assim, defendem que mais pesquisas são necessárias para esclarecer o papel da reposição hormonal em relação à saúde cognitiva.
OMS deve atualizar diretrizes sobre risco de demência
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não traz recomendações específicas sobre o uso de terapia hormonal na menopausa e seus impactos cognitivos. A revisão publicada na Lancet deve servir de base para a atualização das diretrizes da OMS voltadas à redução do risco de declínio cognitivo e demência.
Os pesquisadores indicam que o tema ainda carece de estudos mais robustos e de longo prazo, capazes de detalhar melhor a relação entre reposição hormonal, idade de início da terapia, duração do uso e possíveis efeitos na saúde cerebral.
Revisão analisou mais de 1 milhão de mulheres
Para realizar a revisão, os cientistas identificaram quase seis mil registros científicos e selecionaram dez estudos para análise detalhada: um ensaio clínico randomizado e nove estudos observacionais. No total, foram incluídas 1.016.055 participantes.
Foram considerados trabalhos publicados entre 1º de janeiro de 2000 e 20 de outubro de 2025. Nenhum dos estudos avaliados investigou o uso de testosterona ou o uso de terapia hormonal em casos de insuficiência ovariana prematura.
Como a menopausa se relaciona ao cérebro e à demência
A menopausa integra o climatério, fase de transição da vida reprodutiva para a não reprodutiva. Nesse período, ocorre a queda e posterior interrupção da produção de hormônios como estrogênio e progesterona, que têm papel relevante em diferentes sistemas do organismo.
Além de sintomas físicos – como ondas de calor, secura vaginal, piora da qualidade do sono e diminuição da libido –, há também efeitos sobre a cognição. Entre os principais sintomas cognitivos associados à menopausa estão:
• Perda de memória
• Dificuldade de concentração
• Problemas com foco
Esses efeitos ocorrem porque os receptores dos hormônios femininos atuam no sistema nervoso central, e a redução dessas substâncias altera a dinâmica dos neurotransmissores. Nesse contexto, pesquisas vêm associando a intensidade dos sintomas da menopausa ao risco futuro de demência.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica PLOS One mostrou que uma maior carga de sintomas da menopausa está relacionada a uma função cognitiva mais prejudicada e, por consequência, a uma maior tendência de desenvolver demência ao longo do envelhecimento.
Outra pesquisa, publicada em 2024 na revista Age and Ageing, da Oxford Academic, concluiu que mulheres que entram na menopausa antes dos 40 anos apresentam maior risco de demência, indicando que a menopausa precoce pode ser um fator adicional para o desenvolvimento dessa condição cognitiva.
Reposição hormonal melhora sintomas, mas não previne demência
Mesmo sem evidências de que a reposição hormonal na menopausa reduza o risco de demência, a terapia continua sendo indicada para aliviar sintomas do climatério e melhorar a qualidade de vida de muitas mulheres.
A recomendação é que a decisão sobre o uso de terapia hormonal seja individualizada, levando em conta sintomas, histórico de saúde, contraindicações e objetivos do tratamento – e não a expectativa de proteção contra demência, que segue sem comprovação científica consistente.