Um mês após chuvas na Zona da Mata, famílias ainda sofrem com perdas e aguardam apoio
Enchentes, enxurradas e deslizamentos deixaram 73 mortos; Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa relatam desalojamento, danos e medidas de assistência
21/03/2026 às 17:08por Redação Plox
21/03/2026 às 17:08
— por Redação Plox
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Um mês após as enxurradas, deslizamentos de terra e enchentes que atingiram a Zona da Mata Mineira, milhares de famílias ainda convivem com perdas, desalojamento e incerteza. As chuvas fortes, concentradas principalmente na noite de 23 de fevereiro, provocaram 73 mortes: 65 em Juiz de Fora e 8 em Ubá.
Além das duas cidades, a destruição também alcançou Matias Barbosa e municípios próximos, deixando um rastro de danos em bairros e comunidades vulneráveis.
Luto e medo no Parque Jardim Burnier
Entre os relatos que emergiram da tragédia, a história de Claudia da Silva, de 71 anos, chamou atenção. Moradora do Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, ela afirmou ter perdido 20 pessoas da família. A comunidade, formada majoritariamente por moradores de baixa renda, fica em uma encosta e registrou o maior número de mortes na cidade, com 22 vítimas.
Moradora do Jardim Burnier, Cláudia da Silva conta que mesmo em meio ao luto e a dor de ter perdido 20 pessoas da família, ela ainda teve forças para ajudar na busca por desaparecidos.
Foto: Divulgação/ Agência Brasil
Eu tive que procurar tratamento psicológico por conta própria. É muita coisa para a minha cabeça. Um sobrinho que sobreviveu está no CTI [centro de terapia intensiva]. Ele só tem 16 anos e teve que amputar uma perna. Estou só chorando, desesperada, sem conseguir comer direito
Claudia da Silva
A casa onde Claudia vive com a mãe, de 85 anos, foi interditada pela Defesa Civil, mas ela disse que não quis deixar o local. O medo, segundo a moradora, segue presente na rotina.
“Temos medo, não dormimos direito e nos sentimos abandonadas. Ninguém dos órgãos competentes veio aqui dar apoio, oferecer uma casa, pelo menos. Não significamos nada para eles, só durante as eleições”, lamenta.
Idas e vindas e a tentativa de manter a casa de pé
No mesmo bairro, a aposentada Maria da Conceição Couto Almeida, de 62 anos, descreveu uma rotina marcada por deslocamentos. À noite, ela se abriga na casa da filha; durante o dia, retorna ao imóvel interditado para limpeza e manutenção.
“Você leva uma vida inteira para construir uma casa e, de repente, tem que sair assim, na correria, só com a roupa do corpo. Suspendemos tudo da nossa vida, mas não podemos abandonar a casa assim”, conta.
Maria afirmou que a situação tem afetado diretamente a saúde da família: o marido faz tratamento cardíaco, enquanto ela relata aumento da ansiedade e dificuldades para manter o cuidado com a diabetes. Apesar de equipes da prefeitura terem iniciado cadastros, ela disse que ainda não recebeu apoio financeiro ou habitacional.
“Recebemos apenas cesta básica de doações voluntárias. Veio pessoal da prefeitura, cadastrou todo mundo e mandaram ir no Diga [centro municipal de atendimento], mas não fui ainda. Tem lugar que as pessoas demoram 10 horas na fila. Assim, é muito difícil”, reclama.
Maria da Conceição Couto Almeida, moradora do Parque Jardim Burnier, teve a sua casa interditada pela Defesa Civil.
Foto: Divulgação / Agência Brasil
Trabalho interrompido e contas acumuladas
Morador do Parque Jardim Burnier há mais de quatro décadas, o serralheiro Nilton Angelo de Gusmão, de 60 anos, relatou que ficou semanas sem trabalhar, perdeu contratos e passou a enfrentar dificuldades para manter as contas em dia.
“Eu perdi dois serviços que iam me dar R$ 4 mil em duas semanas. Chegaram as contas de luz, de água, de telefone, e eu tenho que pagar. Precisamos de ajuda, de algum auxílio financeiro para conseguir tocar a vida”, diz Nilton.
Nilton Gusmão morador da localidade há mais de quatro décadas, relata dificuldades para pagar as contas.
Foto: Divulgação/ Agência Brasil
Juiz de Fora anuncia crédito do auxílio calamidade
A Prefeitura de Juiz de Fora informou que o auxílio calamidade municipal será creditado na próxima segunda-feira (23) nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas.
Em levantamento divulgado pela administração municipal, a Defesa Civil registrou 6.690 ocorrências desde 23 de fevereiro. A prefeitura também informou que fevereiro de 2026 foi o mês mais chuvoso da história do município, com 763,8 mm. Entre 22 e 28 de fevereiro, foram 316,6 mm. O recorde anterior era de 1988, com 456 mm, e a média histórica de fevereiro é de 173 mm.
Segundo o balanço, mais de 8,5 mil pessoas ficaram desabrigadas, com 1.008 moradias completamente destruídas e oito imóveis demolidos. Até 19 de março, 170 famílias estavam hospedadas em hotéis e 36 já haviam deixado a rede hoteleira. A prefeitura afirmou que o acesso aos hotéis foi destinado a famílias que inicialmente haviam sido encaminhadas a abrigos temporários.
Na educação, a rede municipal retomou atividades em 101 unidades, enquanto cinco escolas permaneciam sem retorno: EM Adenilde Bispo, EM Clotilde Hargreaves, EM Antônio Faustino, EM Santa Catarina Labouré e EM Murilo Mendes.
A prefeitura informou ainda que, entre 2021 e 2025, investiu R$ 26 milhões em obras de contenções, R$ 62 milhões em 16 quilômetros de redes de drenagem e R$ 230,6 milhões em manutenção preventiva.
Bairro Três Moinhos, dezenas de casas foram engolidas pelas fortes chuvas e pela lama que devastou tudo.
Foto: Divulgação/ Agência Brasil
Ubá diz manter assistência e priorizar vistorias
A Prefeitura de Ubá declarou, em nota, que tem prestado assistência integral aos moradores mais impactados, com oferta de abrigo, alimentação e acompanhamento psicológico. Informou também que as pessoas afetadas por inundação e deslizamentos estão sendo cadastradas para acesso a auxílios e benefícios dos governos federal e estadual.
De acordo com o município, as vistorias nos imóveis atingidos foram tratadas como prioridade: edificações consideradas seguras estão sendo liberadas para reocupação, enquanto imóveis com riscos estruturais permanecem interditados.
Os dados municipais apontam que a inundação atingiu uma área de aproximadamente 47,4 km², o equivalente a 11,6% do território. O número total de imóveis afetados ainda estava em consolidação.
Desde fevereiro, foram registradas cerca de 1.188 famílias desalojadas e 4.790 pessoas diretamente atingidas. No momento do balanço, havia duas famílias desabrigadas em abrigo mantido pelo município. Ubá também informou ter solicitado mais de R$ 55 milhões ao governo federal para recuperação e restabelecimento das áreas atingidas.
Matias Barbosa prepara auxílio e aponta impacto no comércio
A Prefeitura de Matias Barbosa afirmou que, apesar dos transtornos, não houve registro de perdas estruturais graves, como queda de pontes, desabamento de residências ou paralisação de serviços essenciais.
Segundo a administração municipal, foi elaborado um projeto de lei para instituir auxílio financeiro municipal a moradores e comerciantes atingidos. Os valores e critérios, de acordo com a prefeitura, estão sendo definidos em conjunto entre os poderes Executivo e Legislativo. O município estimou que mais de 300 famílias foram impactadas, além de cerca de 80% do comércio local.
Em visitas técnicas com representantes do Ministério das Cidades, foram identificadas necessidades de obras de contenção de encostas e medidas para prevenção de alagamentos.
Houve danos estruturais em uma Unidade Básica de Saúde no bairro Nossa Senhora da Penha. Uma unidade móvel foi montada na praça do bairro para atendimento, e outra unidade móvel do município passou a focar na vacinação de pessoas que tiveram contato com as águas das enchentes.
Três Moinhos, mais de dez casas foram destruídas, uma criança de seis anos morreu. Ela foi resgatada sem vida.
Foto: Divulgação / Agência Brasil
Governo federal prevê quase R$ 2 bilhões e detalha medidas
O governo federal informou ter mobilizado ações para atendimento à população e início da reconstrução, com recursos destinados e previstos que chegam a quase R$ 2 bilhões, somando investimentos diretos, crédito e programas habitacionais.
Entre as principais medidas está o Auxílio Reconstrução, de R$ 7,3 mil por família, ainda em fase de cadastro e validação pelas prefeituras. Outra frente é a modalidade Compra Assistida do Minha Casa Minha Vida, destinada a famílias que perderam completamente as casas, com subsídio integral para aquisição de imóveis e valor que pode chegar a R$ 200 mil por unidade.
O pacote inclui ações emergenciais voltadas a trabalhadores, como a antecipação do abono salarial para 92,2 mil pessoas e pagamento de parcelas extras do seguro-desemprego, além do saque calamidade do FGTS. Até 19 de março, os saques somavam mais de R$ 165 milhões em Juiz de Fora e R$ 38 milhões em Ubá.
Por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, foram aprovados mais de R$ 55 milhões para ações emergenciais e de reconstrução, incluindo limpeza urbana, recuperação de vias, contenção de encostas e restabelecimento de serviços essenciais.
Na saúde, foram destinados R$ 14,9 milhões para reforço do atendimento, com envio de medicamentos, unidades móveis e apoio psicossocial. Para educação e assistência social, houve repasses de R$ 4,56 milhões para recuperação emergencial de 126 escolas atingidas e R$ 770 mil para manutenção de abrigos e apoio direto às famílias.
Também foram abertas linhas de crédito com condições facilitadas. Uma medida provisória liberou R$ 1,3 bilhão em crédito extraordinário, além de até R$ 500 milhões em financiamentos com recursos do Fundo Social. Segundo o governo federal, as próximas etapas incluem a aprovação de novos planos pela Defesa Civil, execução de obras de infraestrutura e ampliação de políticas de habitação e assistência social.