Energia solar em Itaipu tem potencial para dobrar capacidade da usina, aponta estudo

Itaipu Binacional testa painéis solares flutuantes no reservatório e avalia expansão futura, além de projetos com hidrogênio verde, baterias e biogás

21/04/2026 às 20:27 por Redação Plox

O reservatório da usina de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, na Região Sul, pode se tornar também um grande campo de geração de energia solar. Com cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados (km²) de perímetro, quase 170 km de extensão e largura média de 7 km entre as margens direita e esquerda, o lago que hoje sustenta a produção hidrelétrica também é visto como espaço estratégico para novas fontes renováveis.

Usina de Itaipu na divisa com o Paraguai tem capacidade para dobrar produção de energia solar.

Usina de Itaipu na divisa com o Paraguai tem capacidade para dobrar produção de energia solar.

Foto: Tânia Rêgo /Agência Brasil

O potencial está em aproveitar o espelho d’água para instalar painéis fotovoltaicos, em um projeto experimental estudado por técnicos brasileiros e paraguaios desde o fim do ano passado. Na prática, a iniciativa busca abrir caminho para aplicações comerciais no futuro, além de ampliar a diversificação energética da binacional.

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 - Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação da Itaipu Binacional.

Foz do Iguaçu (PR), 14/04/2026 - Itaipu Parquetec, centro tecnológico de inovação da Itaipu Binacional.

Foto: Tânia Rêgo /Agência Brasil

“Ilha solar” funciona como laboratório sobre o lago

Na etapa atual, Itaipu instalou 1.584 painéis fotovoltaicos em uma área de menos de 10 mil metros quadrados (m²), sobre o lago, a 15 metros de um trecho da margem no lado paraguaio, em um ponto com profundidade aproximada de 7 metros.

A planta solar tem capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), medida que indica a capacidade máxima de geração. Segundo a usina, esse volume é equivalente ao consumo de 650 casas. A energia produzida é usada apenas para consumo interno, sem comercialização e sem ligação direta com a rede de geração hidrelétrica.

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2026 - Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustíveis da Usina Itaipu Binacional.

Foz do Iguaçu (PR), 13/04/2026 - Unidade de Produção de Hidrocarbonetos Renováveis e de Demonstração de Biocombustíveis da Usina Itaipu Binacional.

Foto: Tânia Rêgo /Agência Brasil

O papel central do projeto, por enquanto, é servir como um laboratório de pesquisa. Engenheiros avaliam a interação das placas com o ambiente e observam possíveis impactos no comportamento de peixes e algas, na temperatura da água, na influência dos ventos sobre o desempenho dos painéis e na estabilidade de toda a estrutura — incluindo flutuadores e sistemas de ancoragem.

Expansão depende de estudos e de atualização do Tratado de Itaipu

A ideia de ampliar a geração solar no futuro exigirá atualização no próprio Tratado de Itaipu, firmado em 1973 entre Brasil e Paraguai e que viabilizou o empreendimento binacional.

Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa. Rogério Meneghetti

Estimativas preliminares indicam que, para alcançar uma geração solar de 3 mil megawatts — cerca de 20% da capacidade instalada da hidrelétrica atualmente — seriam necessários pelo menos quatro anos de tempo de instalação.

O investimento informado é de US$ 854,5 mil (cerca de R$ 4,3 milhões na cotação atual). As obras foram executadas por um consórcio binacional formado pelas empresas Sunlution (brasileira) e Luxacril (paraguaia), vencedor da licitação.

Parquetec reúne projetos com hidrogênio verde e baterias

A diversificação de fontes em Itaipu também inclui projetos com hidrogênio verde e pesquisas com baterias, em desenvolvimento no Itaipu Parquetec, ecossistema de inovação e tecnologia criado em 2003 pela Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu (PR). O espaço conta com parceria de universidades e empresas públicas e privadas e, segundo a usina, já formou mais de 550 doutores e mestres em diferentes áreas.

No local, funciona o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, dedicado ao desenvolvimento do hidrogênio verde — classificado como sustentável por poder ser obtido sem emissão de gás carbônico (CO₂), associado ao efeito estufa e ao aquecimento global.

A técnica utilizada no Itaipu Parquetec é a eletrólise da água, processo que separa elementos químicos a partir de moléculas como a da água (H₂O), por meio do uso de equipamentos em processos químicos automatizados em laboratório.

O hidrogênio verde pode atuar como insumo sustentável para cadeias industriais — como siderúrgica, química, petroquímica, agrícola e alimentícia — e também como combustível para o mercado de energia e transporte. Em Itaipu, uma planta de produção funciona como plataforma para o desenvolvimento de projetos-piloto.

Entre as iniciativas mencionadas, está a entrega, durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, de um barco movido a hidrogênio, resultado de pesquisa no Itaipu Parquetec, destinado a atuar na coleta seletiva de comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense.

Outro foco do Parquetec é um centro de gestão energética voltado a pesquisas para desenvolvimento de células e protótipos para fabricação e reaproveitamento de baterias, com atenção ao armazenamento de energia em sistemas estacionários voltados a empresas e outras instalações fixas que demandam reserva energética.

Resíduos orgânicos viram biogás, biometano e insumos para SAF

A Itaipu também investe na geração de biogás a partir de resíduos orgânicos produzidos por restaurantes em diferentes áreas da usina e de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA-Vigiagro) em ações de fiscalização de fronteira.

Em vez de serem descartados em aterro, esses materiais são transformados em biogás e biometano. A Agência Brasil acompanhou, no dia 13 de abril, a reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis no complexo da usina, gerida pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa fundada por Itaipu e voltada a soluções em combustível limpo.

Por meio de biodigestão em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos são convertidos em combustível limpo, capaz de abastecer carros que circulam dentro de Itaipu, por cilindros de gás instalados nos veículos.

Em quase nove anos de operação, segundo a usina, foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, resultando na geração de biometano suficiente para percorrer cerca de 480 mil quilômetros — o equivalente a 12 voltas ao redor da Terra.

A unidade também desenvolve, de forma experimental, o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser usado na produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação, na sigla em inglês).

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