Integrante do PCC que denunciou ligação com a Rota revelou plano para assassinar Moro

Depoimento de Lincoln Gakyia à Corregedoria da PM cita relatos de informante ligado ao PCC, possível envolvimento de policiais da Inteligência e menção a plano para assassiná-lo e a Sergio Moro

21/04/2026 às 09:32 por Redação Plox

O integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC) que denunciou o envolvimento de policiais militares da Rota, tropa de elite da PM paulista, com a facção também teria sido o responsável por revelar, em 2023, a existência de um plano para matar o senador Sergio Moro (PL-PR) e o promotor de Justiça Lincoln Gakyia.

Integrante da facção repassou a Lincoln Gakyia informações sobre plano da sintonia restrita do PCC, em 2023.

Integrante da facção repassou a Lincoln Gakyia informações sobre plano da sintonia restrita do PCC, em 2023.

Foto: Reprodução / Agência Brasil.


A informação está no depoimento prestado à Corregedoria da Polícia Militar pelo próprio Gakyia, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), que investiga a atuação do PCC no estado há mais de 20 anos.


O então comandante-geral da PM, José Augusto Coutinho, deixou o cargo após ser citado pelo promotor em um inquérito policial militar.

Depoimento descreve vazamentos e suposta falta de providências

No depoimento Gakyia afirmou que, depois de tomar conhecimento de que PMs do Setor de Inteligência da Rota estariam vazando informações para proteger lideranças do PCC, levou o caso a Coutinho, que na época chefiava o batalhão. Segundo o promotor, porém, não há registro de que o oficial tenha tomado providências.


À Corregedoria, Gakyia relatou que o envolvimento de policiais da elite da PM paulista com o PCC foi descoberto em outubro de 2021. O integrante da facção que denunciou o esquema, hoje testemunha protegida, teria sido recebido na sede da Rota e conversado por cerca de quatro horas.


Na ocasião, o informante teria dito que o então líder do PCC nas ruas, Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, escapou da Operação Sharks, no ano anterior, por causa de informações vazadas por policiais do Setor de Inteligência, conforme publicação do Metrópoles no ano passado.

Reunião em 2023 teria exposto plano contra Moro e o promotor

Gakyia também detalhou à Corregedoria outra reunião com o informante, em fevereiro de 2023. O encontro, segundo o relato, ocorreu após a testemunha protegida enviar informação sobre um novo plano do PCC para assassinar o promotor e outras autoridades, incluindo o senador Sergio Moro, que foi ministro da Justiça durante o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Quero deixar registrado que, em fevereiro de 2023, fizemos nova oitiva da testemunha protegida porque ela nos mandou uma informação de que soube de um plano para me assassinar e também assassinar o senador Sergio Moro. Durante essa oitiva, a referida testemunha narrou que o responsável pelo setor da sintonia restrita 05 do PCC, conhecido pela alcunha de Nefo, seria o responsável por esses atentados

Lincoln Gakyia

De acordo com o depoimento, a denúncia foi o ponto de partida para a Polícia Federal (PF) deflagrar, no mês seguinte, a Operação Sequaz, que prendeu Janeferson Aparecido Mariano, o Nefo, apontado como um dos líderes da chamada sintonia restrita e responsável por arquitetar o plano. Sintonia restrita é um dos grupos que integram a cúpula da facção.


Gakyia acrescentou ainda que tomou conhecimento, por meio de informantes na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, de um relato segundo o qual um informante teria presenciado Nefo dizer que recebeu um “pipa” da sintonia de rua do PCC pedindo informações sobre o pagamento de R$ 500 mil para policiais militares da Rota.

Inquérito cita Transwolff e leva a prisões e apreensões

O depoimento de Gakyia à Corregedoria ocorreu após Coutinho ser citado por um PM preso, acusado de atuar como segurança privado de empresários supostamente ligados a outra célula do PCC, na empresa de ônibus Transwolff, que operava linhas na zona sul de São Paulo e teve o contrato rompido pela prefeitura.


O sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário afirmou que o ex-comandante teria sido informado sobre o bico ilegal de policiais para o grupo ligado à facção, mas não teria tomado providências.


O inquérito policial militar em que Coutinho foi citado resultou na prisão de três policiais e em buscas em endereços ligados a 16 alvos. Na casa de um deles, foi apreendido R$ 1 milhão em espécie.


Entre os dirigentes da Transwolff citados como beneficiados pelo esquema de escolta ilegal estariam Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, e Cícero de Oliveira, o Té, apontados como elo entre o PCC e os ônibus da zona sul da capital.

Morte no Aeroporto de Guarulhos entrou no contexto das apurações

Segundo relato atribuído ao promotor, ele teria dito a interlocutores que Coutinho

“não fez porra nenhuma”

ao tomar conhecimento do envolvimento de PMs da Rota com o PCC, em reunião com autoridades da Polícia Civil no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no âmbito das investigações sobre o assassinato de Vinícius Gritzbach.


Jurado de morte pelo PCC, Gritzbach foi morto a tiros de fuzil no Aeroporto de Guarulhos, em 8 de novembro do ano passado. Dias antes, ele havia prestado depoimento no qual detalhou como PMs da Rota estariam atuando como seguranças de integrantes da facção na zona leste da capital.


A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que não comenta investigações em curso conduzidas por sua Corregedoria. O ex-comandante não se manifestou, e o espaço segue aberto.

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