A Beleza da Sustentabilidade: o movimento da 'Lavagem Mínima' ganha força

A resistência à lavagem pode não ser uma tendência passageira, mas sim um indicativo de uma mudança maior em direção a uma moda mais consciente e sustentável.

Por Plox

21/06/2023 09h15 - Atualizado há 11 meses

Pode ser surpreendente para alguns, mas um movimento crescente está repensando a frequência com que as roupas são lavadas. Este novo grupo, muitos deles sendo membros ativos na comunidade de moda, estão abraçando a ideia de lavar suas roupas o mínimo possível.

 

(crédito: Getty Images)

Bryan Szabo é um dos expoentes desse movimento. Ele e sua equipe passam horas analisando imagens de jeans desgastados. Este grupo, composto pelos principais "desbotadores" de jeans do mundo, participa de uma competição global, o Indigo Invitational, que desafia os participantes a usar o mesmo par de jeans crus - não lavados - por um ano inteiro.

No entanto, não é apenas a aparência de desbotamento que esse grupo valoriza, mas o mínimo de lavagens que suas calças recebem. Szabo iniciou esse hábito quando adquiriu seu primeiro par de jeans crus em 2010 e, desde então, ele e outros seguidores dessa tendência têm optado por lavar suas peças de roupa o menos possível.

Embora este possa parecer um hábito um tanto peculiar, é uma prática que também tem sido adotada por grandes nomes da moda. A estilista britânica Stella McCartney, por exemplo, tem sido bastante vocal sobre seus hábitos de lavagem mínima de roupas. Em 2019, ela compartilhou com o jornal The Guardian que evita lavar suas roupas a menos que seja absolutamente necessário.

 

jeans surrados
(crédito: Getty Images)

Mas por que essa tendência está ganhando força? Para muitos, a motivação é o impacto ambiental. A lavagem de roupas requer água e energia, e as máquinas de lavar roupa frequentemente liberam microfibras que podem acabar prejudicando o meio ambiente. Além disso, os custos da eletricidade têm aumentado, o que levou muitos a reconsiderar seus hábitos de lavagem.

Essa tendência também está se espalhando para outros setores da indústria da moda. Mac Bishop, fundador da companhia de roupas Wool & Prince, tem promovido a lavagem mínima como parte de sua marca, especialmente com a introdução de sua marca feminina, Wool&.

A marca lançou um "desafio" para que os clientes usem o mesmo vestido de lã merino todos os dias por 100 dias, promovendo a ideia de lavagem mínima. Para Rebecca Eby, da Wool&, uma das consequências mais comuns deste desafio é uma mudança nos hábitos de lavagem dos participantes.

Chelsea Harry, uma cliente da Wool&, testemunhou a mudança nos próprios hábitos de lavagem depois de aceitar o desafio. Crescendo em um ambiente onde a lavagem diária de roupas era a norma, Harry começou a abraçar a ideia de lavagem mínima depois de um verão com O rigoroso regime do jeans cru

Bryan Szabo, acompanhado de sua equipe, analisou meticulosamente várias imagens de jeans desgastados com a passagem do tempo. Observaram padrões de desgaste com variados graus de desbotamento, desde os com padrões de favo de mel atrás dos joelhos até aqueles com áreas desgastadas na região da virilha. Esses "desbotadores" dedicados de jeans são frequentemente elogiados online por suas habilidades em produzir efeitos únicos e atraentes.

Essas análises foram parte de uma competição internacional chamada Indigo Invitational. A competição desafia os participantes a vestir jeans crus - aqueles que nunca foram lavados - por um ano inteiro. Além de se tornarem mestres na criação de desbotamentos estilizados, esses competidores também se destacam por lavar muito pouco suas calças.

Evitar lavar jeans é uma técnica empregada por muitos, desde membros de clubes de não lavagem até executivos-chefes de empresas como a Levi's. O objetivo é evitar que o denim amoleça com o uso de sabão, uma estratégia que permite a criação de padrões de desbotamento de alto contraste.

Desgaste e aroma dos jeans ao longo do tempo

Para Bryan Szabo, o costume de lavar roupas com menos frequência começou em 2010, quando ele adquiriu seu primeiro par de jeans cru. Ele recorda que o odor desses jeans se tornou uma peculiaridade sua, uma característica que até se tornou parte do relacionamento com sua futura esposa em Budapeste, Hungria.

O Indigo Invitational agora entra em seu quinto ano, e Szabo observa que a maioria dos competidores lava seus jeans somente após usá-los por 150 a 200 vezes. Ele confessa que algumas dessas peças, após um ano de uso, adquirem um cheiro intenso. Alguns dos amigos de Szabo que usam jeans cru adotam uma "filosofia de nunca lavar" levando o desgaste e o aroma a um extremo.

Alternativas à lavagem convencional

Em vez de recorrer à máquina de lavar, os entusiastas do jeans cru têm aprendido outras maneiras de cuidar de suas roupas, como expô-las aos raios ultravioleta ou simplesmente deixá-las ao ar livre durante a noite. No entanto, quando o jeans de Szabo se torna notável pelo odor, ele recorre à lavagem.

Minimalismo e sustentabilidade na moda

Não são apenas os amantes de jeans que estão aderindo a hábitos de lavagem mais escassos. Em 2019, a estilista britânica Stella McCartney divulgou seus hábitos de lavar roupas com menos frequência, aconselhando a só lavar as peças quando estritamente necessário.

Outros estão reavaliando seus hábitos de lavagem devido a preocupações ambientais ou pelo crescente custo da eletricidade. De acordo com Szabo, muitos na comunidade de jeans estão motivados por preocupações estéticas que "acidentalmente são sustentáveis".

Mac Bishop, fundador da Wool&Prince, uma empresa que fabrica roupas de lã merino duráveis e de baixa manutenção, ecoa esse sentimento. Em 2013, ele vestiu a mesma camisa de lã merino durante 100 dias consecutivos para provar que poderia ser usada muitas vezes sem precisar ser lavada. Desde então, a empresa tem encorajado práticas de lavagem mais raras, em nome da conveniência e da sustentabilidade.

Mudança de perspectiva

A mudança para lavagens menos frequentes de roupas pode ser vista como um afastamento dos padrões atuais de limpeza, mas alguns argumentam que é uma revisão necessária. Richard Hobbs, um historiador e escritor especializado em vida doméstica, lembra que a lavagem de roupas foi uma vez uma tarefa laboriosa e demorada. Foi somente com a popularização das máquinas de lavar na década de 1950 que lavar roupas se tornou um ato rotineiro.

A atitude de lavar menos pode não apenas ser mais sustentável, mas também pode ajudar a prolongar a vida útil das roupas. De acordo com um relatório da Patagonia, lavar roupas com menos frequência pode reduzir a energia e a água usadas no processo de lavagem em até 50%. E além disso, também pode reduzir o dano causado às roupas pelo processo de lavagem, aumentando sua durabilidade.

Lavagem consciente

Apesar dos benefícios, há barreiras a serem vencidas. Os hábitos de lavagem são profundamente arraigados na sociedade e, para muitos, a ideia de usar roupas várias vezes sem lavá-las pode ser desconfortável. Por outro lado, com o aumento das preocupações ambientais e uma mudança para um estilo de vida mais consciente e sustentável, essas práticas podem se tornar mais populares.

Vale a pena observar, no entanto, que a lavagem consciente não significa abandonar completamente a limpeza das roupas. Trata-se de uma escolha intencional para lavar menos, pensando na sustentabilidade e na durabilidade das roupas.

A resistência à lavagem pode não ser uma tendência passageira, mas sim um indicativo de uma mudança maior em direção a uma moda mais consciente e sustentável. À medida que a sociedade se torna mais ciente do impacto de suas ações no meio ambiente, o uso consciente e a manutenção das roupas podem se tornar a norma, e não a exceção.

 


 

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