Mesmo proibida, caneta Lipoless usada por mulher internada gravemente em MG segue sendo divulgada online
Paciente está internada em Belo Horizonte depois de utilizar a Lipoless, caneta injetável trazida ilegalmente do Paraguai e proibida pela Anvisa, vendida em anúncios nas redes sem receita e sem registro sanitário no Brasil.
22/01/2026 às 06:56por Redação Plox
22/01/2026 às 06:56
— por Redação Plox
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A caneta usada pela paciente internada em estado grave em Minas Gerais é a Lipoless. O produto, conhecido informalmente como “Mounjaro do Paraguai” — apelido usado por vendedores para associá-lo a um medicamento regularizado — é trazido ilegalmente do Paraguai para o Brasil. Desde o ano passado, o uso e a circulação da Lipoless são proibidos pela Anvisa, mas o produto continua sendo anunciado nas redes sociais.
Segundo a família, Kellen Oliveira Bretas Antunes vinha aplicando injeções de Lipoless, vendida a ela como se fosse tirzepatida — a mesma molécula usada no Mounjaro, medicamento indicado para o tratamento de diabetes tipo 2 e também utilizado para emagrecimento. Após o início do uso, ela apresentou complicações e precisou ser internada.
A Lipoless não tem registro na Anvisa, o que significa que não pode circular legalmente no país e não há garantia sobre sua composição, concentração ou condições adequadas de armazenamento e transporte.
Kellen Oliveira Bretas Antunes está internada desde dezembro após complicações por uso de caneta emagrecedora
Foto: Arquivo pessoal
Produto proibido continua à venda em anúncios nas redes
Apesar da proibição, uma busca na ferramenta de anúncios da Meta encontrou, nesta quarta-feira (21), mais de 300 publicações sobre a venda da Lipoless.
Nas redes sociais, as canetas proibidas no Brasil são oferecidas com “cardápios” de opções e sem exigência de prescrição médica, em publicações que destacam fotos do produto e condições de venda.
No ano passado, reportagem do Jornal Nacional mostrou como funciona a negociação dessas canetas vindas do Paraguai. Segundo a apuração, os produtos eram transportados por motoboys na região de fronteira e repassados a outros responsáveis pela distribuição, numa tentativa de driblar a fiscalização sanitária.
Em outras situações, a Polícia Federal flagrou pessoas tentando entrar no país com a substância amarrada ao corpo ou escondida em caixas e porta-malas de veículos.
Especialistas alertam que esse tipo de transporte, sem qualquer controle de temperatura ou armazenamento, aumenta o risco ao comprometer a estabilidade do produto.
Origem da Lipoless e questão de patentes
A patente da molécula usada no Mounjaro pertence à farmacêutica Eli Lilly. Enquanto essa proteção estiver válida, nenhuma outra empresa pode produzir legalmente a mesma substância.
No Paraguai, porém, essa patente não é respeitada. Com isso, uma farmacêutica local passou a produzir e comercializar medicamentos à base de tirzepatida, entre eles a Lipoless.
No Brasil, que respeita a patente, a Lipoless não pode ser vendida. Especialistas ressaltam que a restrição não se limita ao aspecto jurídico: sem avaliação sanitária, não há como garantir a segurança, a eficácia ou a qualidade do medicamento.
Um medicamento precisa cumprir requisitos bioquímicos e passar por testes que comprovem ausência de risco biológico e de contaminantes. No caso da Lipoless, esse processo é precariamente fiscalizado ou simplesmente inexistente.
Especialistas também chamam atenção para a falta de monitoramento sobre a substância — se o que é vendido corresponde ao que é anunciado — e sobre as dosagens, o que torna o quadro ainda mais grave quando há uso sem prescrição médica.
Caneta é anunciada nas redes sociais mesmo sendo proibida a venda no Brasil; paciente está internada em estado grave após o uso
Foto: Reprodução
Venda facilitada, entrega rápida e sem receita
Mesmo proibida no país, o g1 identificou 380 anúncios ativos na plataforma da Meta, que distribui publicidade tanto no Facebook quanto no Instagram.
Esses anúncios prometem pronta entrega do medicamento, importado diretamente na casa do paciente, com um “cardápio” de opções e preços que variam de R$ 632 a quase R$ 2 mil.
As publicações mostram acesso facilitado ao produto, sem exigência de receita médica e, em alguns casos, permitindo que o próprio comprador escolha a dosagem. A determinação da Anvisa que proibiu as canetas também bloqueia qualquer tipo de anúncio desse tipo de produto.
O g1 questionou a Meta sobre a permanência desses anúncios, mas não havia resposta até a publicação da reportagem.
No caso de Kellen, a família afirma não saber de que forma ela conseguiu o medicamento.
Riscos do uso sem acompanhamento médico
O Brasil conta hoje com dezenas de medicamentos do tipo GLP aprovados pela agência reguladora, usados no tratamento de diabetes e obesidade.
A compra desses medicamentos é permitida apenas com receita médica, que fica retida no momento da venda, justamente para garantir controle sobre o uso.
O endocrinologista Rodrigo Lamounier, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), destaca que o uso indiscriminado, sem prescrição e sem acompanhamento, representa um risco importante à saúde.
No caso de Kellen, o médico avalia que o uso da caneta desencadeou uma doença que afeta o sistema neurológico. É possível que ela tivesse alguma predisposição, mas o gatilho teria sido a combinação entre o medicamento e a perda de peso.
As pessoas não podem banalizar o risco do medicamento. Se você tem um problema grave, como a obesidade, que reduz a sua vida, a gente acompanha de perto e balanceia o risco com o benefício. Agora, usar sem prescrição e acompanhamento é se expor ao risco, sem nenhum benefício de saúde — Rodrigo Lamounier
Estado de saúde da paciente
Kellen foi internada pela primeira vez no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, no dia 17 do mês passado, com dor abdominal. Recebeu alta no dia 25, com suspeita de intoxicação medicamentosa.
Dois dias depois, começou a apresentar perda muscular. De acordo com a família, ela já não conseguia se levantar ou andar sozinha.
No dia 28 de dezembro, foi novamente internada. Além de fraqueza muscular e urina escura, desenvolveu insuficiência respiratória e problemas neurológicos.
Ela segue internada em estado grave em um hospital de Belo Horizonte.