Anvisa proíbe, mas “Mounjaro do Paraguai” segue à venda nas redes por R$ 700

Mulher internada em estado grave em MG vinha usando a caneta Lipoless, produto sem registro na Anvisa, trazido do Paraguai e vendido como tirzepatida; especialistas alertam para riscos neurológicos e falta de controle na importação clandestina

22/01/2026 às 13:54 por Redação Plox

A caneta utilizada pela paciente internada em estado grave em Minas Gerais era a Lipoless. O produto, trazido ilegalmente do Paraguai, é conhecido informalmente como o “Mounjaro do Paraguai”, apelido usado por vendedores para associá-lo a um medicamento regularizado no Brasil. Desde o ano passado, o uso e a comercialização desse tipo de caneta estão proibidos pela Anvisa, mas o produto segue sendo anunciado nas redes sociais.


Caneta é anunciada nas redes sociais mesmo sendo proibida a venda no Brasil; paciente está internada em estado grave após o uso

Caneta é anunciada nas redes sociais mesmo sendo proibida a venda no Brasil; paciente está internada em estado grave após o uso

Foto: Reprodução

Segundo a família, Kellen Oliveira Bretas Antunes vinha aplicando injeções de Lipoless, vendida a ela como se fosse tirzepatida — mesma molécula usada no Mounjaro, remédio indicado para o tratamento de diabetes tipo 2 e também utilizado para emagrecimento. Após o início do uso, ela apresentou complicações e precisou ser internada.

A Lipoless não tem registro na Anvisa, o que significa que não pode circular legalmente no país e não há garantia sobre sua composição, concentração ou condições adequadas de armazenamento e transporte.

Produto proibido segue amplamente anunciado

Apesar da proibição, uma busca na ferramenta de anúncios da Meta identificou, nesta quarta-feira (21), mais de 300 publicações oferecendo Lipoless. As peças publicitárias exibem as canetas, mesmo sendo proibidas no Brasil, com um verdadeiro “cardápio” de opções e sem exigência de prescrição médica.

No ano passado, reportagem do Jornal Nacional mostrou como funciona a negociação dessas canetas vindas do Paraguai. Segundo a apuração, os produtos são transportados por motoboys na região de fronteira e repassados a outros intermediários responsáveis pela distribuição, numa tentativa de driblar a fiscalização sanitária.

Em outras situações, a Polícia Federal já flagrou pessoas tentando entrar no país com a substância amarrada ao corpo ou escondida em caixas e porta-malas de veículos.

Especialistas alertam que esse tipo de transporte, sem qualquer controle de temperatura ou armazenamento, aumenta ainda mais o risco para quem usa o produto, porque compromete a estabilidade e a segurança da substância.

Origem da Lipoless e questão de patentes

A patente da molécula usada no Mounjaro pertence à farmacêutica Eli Lilly. Enquanto essa proteção estiver válida, nenhuma outra empresa pode produzir legalmente a tirzepatida.

No Paraguai, porém, essa patente não é respeitada. Com isso, uma farmacêutica local passou a fabricar e vender medicamentos contendo tirzepatida, entre eles a Lipoless.

Como o Brasil respeita a patente, a Lipoless não pode ser vendida legalmente no país. Além disso, sem avaliação sanitária, não há garantias sobre eficácia, pureza, dose correta ou segurança desse produto.

Segundo especialistas, um medicamento precisa cumprir requisitos bioquímicos rigorosos, demonstrar ausência de risco biológico e de contaminantes, além de ser produzido sob fiscalização adequada. No caso da Lipoless, todo esse processo é considerado precário, sem controle efetivo sobre o que é ofertado ao consumidor.

Outro ponto de preocupação é a falta de monitoramento sobre a substância vendida — se realmente corresponde ao que é anunciado — e sobre as dosagens. Essa incerteza se torna ainda mais perigosa quando o uso é feito sem prescrição e acompanhamento médico.

Venda facilitada e sem exigência de receita

Mesmo proibida no Brasil, a reportagem identificou 380 anúncios ativos na plataforma da Meta, que distribui propaganda do produto tanto no Facebook quanto no Instagram.

Nesses anúncios, há promessas de entrega rápida do medicamento importado diretamente na casa do comprador, com um “cardápio” de modelos e preços que vão de R$ 632 a quase R$ 2 mil.

As peças publicitárias mostram acesso facilitado ao produto, sem exigência de receita médica e, em alguns casos, permitindo que o próprio comprador escolha a dosagem a ser utilizada.

A determinação da Anvisa que proibiu essas canetas também veta qualquer tipo de anúncio ou promoção desse tipo de produto. A plataforma Meta foi questionada sobre a presença desses anúncios, mas ainda não havia resposta até a publicação da reportagem. No caso de Kellen, a família não sabe de que forma ela conseguiu adquirir a Lipoless.

Riscos do uso sem acompanhamento médico

O Brasil possui dezenas de medicamentos do tipo GLP aprovados pela agência reguladora, utilizados no tratamento da diabetes e da obesidade. Para esses remédios, a compra só é permitida com receita médica, que fica retida na farmácia no momento da venda.

O endocrinologista Rodrigo Lamounier, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), ressalta que o uso indiscriminado desses medicamentos, sem prescrição e supervisão médica, representa um risco importante à saúde.

No caso de Kellen, o médico avalia que o medicamento desencadeou uma doença que afeta o sistema neurológico. É possível que existisse uma predisposição, mas o gatilho teria sido justamente o uso da substância associado à perda acelerada de peso.

As pessoas não podem banalizar o risco do medicamento. Se você tem um problema grave, como a obesidade, que reduz a sua vida, a gente acompanha de perto e balanceia o risco com o benefício. Agora, usar sem prescrição e acompanhamento é se expor ao risco, sem nenhum benefício de saúde

Rodrigo Lamounier

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