MP aponta que cardiologista de 90 anos foi envenenado por 15 meses enquanto secretária desviava R$ 544 mil

Investigação no Espírito Santo indica exposição prolongada a arsênio e esquema de saques e transferências para sustentar vida de luxo; suspeita está presa desde outubro

23/02/2026 às 07:16 por Redação Plox

O cardiologista Victor Murad, de 90 anos, um dos nomes mais respeitados da medicina no Espírito Santo, viveu sob ameaça dentro da própria rotina por pelo menos 15 meses. De acordo com as investigações do Ministério Público do Espírito Santo (MP-ES), ele foi envenenado sistematicamente com arsênio pela secretária de confiança, Bruna Garcia, que tentava esconder um desvio de mais de meio milhão de reais das contas do médico.


Médico Victor Murad foi envenenado pouco a pouco

Médico Victor Murad foi envenenado pouco a pouco

Foto: Reprodução/TV Globo


Bruna trabalhava na clínica de Murad desde 2013. Filha de uma antiga funcionária que atuou por duas décadas com o cardiologista, ela conquistou a confiança total do médico e passou a controlar integralmente suas finanças, já que ele não utilizava ferramentas digitais como o PIX.

Confiava cegamente nela, foi esse meu mal. Acreditava nela, assim, ela encanta qualquer um. É uma serpente — Victor Murad

Desvios de R$ 544 mil para bancar vida de luxo

A investigação aponta que Bruna desviou R$ 544 mil ao longo de 12 anos. Segundo o MP-ES, o dinheiro sustentava um padrão de vida elevado, com viagens para a Disney e hospedagens em hotéis de alto padrão, enquanto o médico via seu patrimônio diminuir sem entender o motivo.

Murad relata que chegou a procurar o gerente do banco para questionar o saldo em conta, que não aumentava. Ouviu que estaria gastando demais, quando, na verdade, o dinheiro vinha sendo retirado de forma indevida.

De acordo com o promotor Rodrigo Monteiro, os saques e transferências eram constantes e variados, com operações que iam de três a dez mil reais, às vezes realizadas mais de uma vez no mesmo dia.

Veneno para ocultar crime financeiro

Para o Ministério Público, o envenenamento começou quando os desvios estavam prestes a ser descobertos. A suspeita é de que a secretária tenha usado o arsênio como uma “cortina de fumaça”, tentando afastar de si a responsabilidade pelos crimes financeiros por meio da morte do próprio médico.

Enquanto Bruna ostentava a rotina nas redes sociais, Victor Murad passou a apresentar sintomas graves e inexplicáveis, que se agravaram ao longo do tempo:

  • Dores intensas e vômitos com sangue;
  • Anemia profunda e fraqueza nas pernas;
  • Agravamento dos tremores e da rigidez causados pela doença de Parkinson.

De acordo com a polícia, o arsênio era misturado à comida e à água de coco servidas na clínica. O quadro de saúde obrigou o cardiologista a fechar o consultório que mantinha há mais de 30 anos.

Arsênio no cabelo confirmou envenenamento prolongado

A suspeita de crime ganhou força após a demissão de Bruna, quando uma funcionária encontrou um frasco de arsênio escondido em um depósito da clínica. O desafio seguinte foi comprovar a ingestão da substância meses depois, já que o arsênio é eliminado rapidamente do sangue e da urina.

A perícia recorreu então à análise de fios de cabelo de Victor Murad, onde o elemento permanece por mais tempo.

O cabelo foi possível porque o arsênio continua nele. Consegui identificar a substância mesmo três meses depois de não haver mais exposição — perita Mariana

O laudo concluiu que o envenenamento se estendeu por, no mínimo, um ano e três meses, indicando uma exposição prolongada e contínua ao arsênio.

A polícia também apurou que o veneno foi comprado em nome do marido de Bruna. Ele foi investigado, mas os investigadores concluíram que não sabia que seus dados haviam sido usados para a aquisição.


Ex-secretária do médico é a principal suspeita do crime

Ex-secretária do médico é a principal suspeita do crime

Foto: Reprodução/TV Globo

Ré por tentativa de homicídio e fraude financeira

Bruna Garcia está presa desde outubro e responde por tentativa de homicídio qualificado, além de fraudes financeiras relacionadas aos desvios do dinheiro do médico. A expectativa é de que ela seja levada a júri popular.

A defesa, representada pelo advogado James Gouveia, nega todas as acusações. O posicionamento é de que o laudo que comprova o envenenamento não seria suficiente para apontar Bruna como autora do crime, levantando a hipótese de outra pessoa ter administrado o veneno ou de um suposto evento acidental.

Em relação ao dinheiro, a defesa sustenta que toda a movimentação financeira foi feita com o conhecimento e a autorização de Victor Murad.

Médico se recupera em casa após fechar consultório

Depois de encerrar as atividades do consultório em razão do agravamento da saúde, Victor Murad segue em recuperação em casa. Ele afirma que sempre tratou a ex-secretária como alguém da família e se diz traído por quem considerava de extrema confiança.

Sempre a tratei como se fosse uma filha minha, e ela tentando me matar. Ela te mata sorrindo — Victor Murad

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