Pós-Carnaval: especialistas alertam para ISTs sem sintomas e recomendam testagem
Infecções podem evoluir com sinais discretos e só serem detectadas em exames; sexo sem preservativo e múltiplos parceiros aumentam o risco
23/02/2026 às 07:27por Redação Plox
23/02/2026 às 07:27
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
O período pós-Carnaval costuma ser um momento de atenção redobrada para a saúde sexual. Muitas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) podem evoluir sem sintomas claros e, por isso, a testagem se torna essencial para identificar casos e evitar novas transmissões.
Entre as ISTs mais conhecidas estão HIV, sífilis, hepatites virais, HPV, clamídia e gonorreia. Cada uma tem características próprias, mas muitas delas podem se desenvolver de forma silenciosa, principalmente nas fases iniciais.
Após o carnaval, especialistas alertam para ISTs sem sinais aparentes e defendem testagens
Foto: Freepik
Por que tantas ISTs evoluem sem dar sinais
Segundo o infectologista Julio Croda, em muitos casos a infecção se instala em regiões do corpo onde ocorrem apenas inflamações leves, que passam despercebidas.
Muitas ISTs se instalam na mucosa genital, anal ou oral. Causam uma inflamação leve ou localizada e o corpo geralmente tolera bem. Então não gera dor, não gera febre e eventualmente não gera nenhum tipo de secreção ou corrimento evidente
Julio Croda
Os sintomas, quando aparecem, podem ser discretos ou surgir apenas semanas depois da exposição. Em alguns casos, eles desaparecem espontaneamente, o que faz muitas pessoas adiarem a busca por diagnóstico.
A infectologista Maria Isabel de Moraes-Pinto, do Lavoisier, laboratório da Dasa, destaca que a ausência de sinais não significa segurança. Ela ressalta que muitas ISTs só são identificadas por meio de exames laboratoriais e que a testagem é fundamental tanto para o cuidado individual quanto para interromper a cadeia de transmissão.
ISTs que mais passam despercebidas
Clamídia e gonorreia estão entre as ISTs mais frequentemente associadas à ausência de sintomas, sobretudo em mulheres. Infecções na garganta e no reto também costumam ser silenciosas.
Croda aponta ainda que outras doenças podem permanecer assintomáticas por longos períodos. Hepatites B e C, HIV e sífilis podem apresentar formas pouco sintomáticas ou sem sintomas evidentes.
No caso do HIV, a fase inicial pode provocar manifestações semelhantes às de uma gripe ou não causar nenhum sinal perceptível. O herpes pode alternar períodos com e sem lesões, e a sífilis pode começar com uma ferida pequena e indolor que desaparece sozinha.
Mesmo sem sintomas, a transmissão continua possível
Não apresentar sintomas não significa estar fora de risco. Os microrganismos responsáveis pelas ISTs podem estar presentes em secreções e mucosas mesmo sem lesões aparentes.
No HIV, por exemplo, uma pessoa com carga viral alta na fase inicial e ainda sem tratamento adequado pode transmitir a infecção. Bactérias associadas à clamídia e à gonorreia também podem ser eliminadas sem que a pessoa perceba.
Sinais discretos que muitas pessoas ignoram
Quando surgem, os sintomas nem sempre são claros e podem ser confundidos com outros problemas. Pequenas alterações são, com frequência, subestimadas.
Entre os sinais possíveis estão:
ardor ao urinar
corrimento discreto
coceira
dor pélvica discreta
aumento de ínguas nas virilhas
pequenas verrugas ou feridas indolores na região genital
dor e secreção anal
dor na relação anal
dor de garganta persistente após sexo oral
Segundo Croda, esses sintomas podem ir e voltar, o que contribui para que muitas pessoas posterguem a testagem e o início do tratamento.
Quais exames podem ser recomendados
A escolha dos exames depende do tipo de exposição e da avaliação médica. Em geral, após uma relação sexual desprotegida, podem ser solicitados exames de sangue para HIV, sífilis e hepatites virais.
Todos os testes sorológicos, porém, têm uma janela imunológica — período entre a exposição ao vírus e o momento em que ele passa a ser detectável no exame. A infectologista Maria Isabel de Moraes-Pinto destaca que a orientação médica é importante para definir quando testar e se será necessário repetir os exames, considerando o tipo de exposição e o tempo decorrido.
Quando o paciente tem múltiplos parceiros e não usa preservativo, costuma-se incluir na investigação clamídia e gonorreia, com coleta de material a partir de lesões ou locais de exposição, principalmente nas regiões genital, anal e oral, conforme explica Croda.
Em mulheres, ele ressalta a importância do rastreio de HPV e do câncer do colo do útero, seguindo as recomendações ginecológicas de acordo com a faixa etária. No caso do herpes, quando há lesão, o principal exame utilizado é o PCR, com coleta direta do material na área afetada.
O que configura situação de risco
O risco de adquirir uma IST aumenta em relações sexuais sem preservativo — sejam vaginais, anais ou orais —, em contextos com múltiplos parceiros ou com um parceiro novo, sobretudo quando não há uso de camisinha e o parceiro não realiza testagens com frequência, de acordo com Croda.
Um histórico prévio de IST também é fator de risco para novas infecções. Sexo em grupo, rompimento ou uso incorreto do preservativo entram na lista de situações consideradas de maior exposição.
A relação anal receptiva tem risco elevado para algumas infecções, inclusive HIV, devido à maior chance de microlesões. Além disso, o consumo de álcool e drogas reduz a percepção de risco e está associado a relações desprotegidas.
Consequências de não diagnosticar uma IST
Manter uma infecção sem diagnóstico por meses ou anos pode trazer complicações importantes, que variam de acordo com o agente causador.
Croda explica que infecções bacterianas como clamídia e gonorreia podem levar à doença inflamatória pélvica, infertilidade e problemas durante a gestação.
Algumas infecções virais podem evoluir para quadros mais graves. O HPV está associado a câncer em regiões como colo do útero, ânus, pênis e garganta. Hepatites B e C podem progredir para doença hepática crônica, cirrose e câncer de fígado.
Testagem periódica como parte do cuidado com a saúde
Especialistas reforçam que o diagnóstico precoce é uma das principais estratégias para interromper a cadeia de transmissão e evitar complicações.
Para Maria Isabel de Moraes-Pinto, a recomendação é não esperar o aparecimento de sintomas para procurar avaliação médica. A testagem periódica integra o cuidado com a saúde sexual, especialmente após períodos como o Carnaval.
Croda lembra que conhecer o próprio status de saúde ajuda a reduzir a circulação das infecções. Sem diagnóstico e tratamento, a transmissão continua ocorrendo — muitas vezes sem que as pessoas saibam que estão infectadas.