Conflito no Oriente Médio pode reduzir exportações de carne do Brasil e elevar custos logísticos
Risco de bloqueio no Estreito de Ormuz pressiona fretes, seguros e pode afetar embarques de frango halal e carne bovina; no país, impacto nos preços segue incerto com alta do diesel
23/03/2026 às 10:35por Redação Plox
23/03/2026 às 10:35
— por Redação Plox
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O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã pode afetar mais do que os preços dos combustíveis. Para o Brasil, a guerra tende a complicar as exportações de carne — especialmente de frango — para o Oriente Médio, um dos principais destinos da proteína animal brasileira. Com a operação mais cara e arriscada, a queda nos embarques pode aumentar a oferta no mercado interno e influenciar os preços nos açougues.
Oriente Médio é destino relevante do frango brasileiro
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) indicam que o Oriente Médio recebeu US$ 3 bilhões em frango no ano passado, o equivalente a 34,8% das vendas brasileiras do produto no período. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o Brasil embarca mensalmente cerca de 100 mil toneladas de frango halal (produzido e abatido conforme normas da lei islâmica) para o Oriente Médio, com destaque para Emirados Árabes Unidos, Oman e Iêmen.
Bloqueio no Estreito de Ormuz eleva custos e atrasa entregas
Najad Khouri, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em Oriente Médio, afirma que o conflito atingiu diretamente o Estreito de Ormuz, rota marítima pela qual passa 20% da produção mundial de petróleo e que funciona como porta de entrada para produtos importados por países como Emirados Árabes, Arábia Saudita e Irã.
Preços da carne de frango registram altas com menor disponibilidade interna
Foto: Reprodução
O bloqueio dessa rota pode provocar mudanças profundas no comércio internacional, aumentando custos diretos e indiretos e atrasando entregas. Os custos diretos são taxas adicionais aos fretes e os custos indiretos são as taxas de ‘demurrage’ ou sobreestadia - taxa cobrada pelo dono do container quando o uso do equipamento ultrapassa o período combinado. Tudo isso encarece a operação e dificulta a exportação para lá
Najad Khouri
Com o aumento do risco para viagens por oceanos, sobem também os gastos com seguros e combustíveis. No início da crise, a CMA CGM informou cobrança adicional de até US$ 4.000 por contêiner em alguns tipos de equipamento, refletindo o aumento do risco operacional e do custo de operação na região.
Carne bovina também pode sentir os efeitos
A carne de boi, menos exportada ao Oriente Médio do que o frango, também pode ser impactada. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), em 2024 o Brasil exportou quase 133 mil toneladas de carne bovina para os Emirados Árabes, principal mercado no Oriente Médio. O volume gerou faturamento de quase US$ 605 milhões.
De acordo com Khouri, por causa da guerra, essas exportações podem registrar quedas de 30% a 40%, em razão dos riscos logísticos associados à escala dos conflitos na região.
Carne pode ficar mais barata no Brasil?
Com custos mais altos e maior risco nas exportações, um cenário possível é o aumento da disponibilidade de carne bovina e de frango no mercado interno, elevando a oferta e pressionando preços para baixo — avaliação defendida por Khouri. Ele afirma que esse movimento já aparece no comportamento de indústrias frigoríficas brasileiras, que teriam reduzido o ritmo de compras no mercado de boi gordo.
Paulo Vicente, professor de estratégia da Fundação Dom Cabral (FDC), pondera que o conflito no Oriente Médio não necessariamente levará à redução do preço da carne no Brasil. Para ele, no curto prazo, pode ser difícil encontrar mercados substitutos capazes de absorver o volume imediatamente, o que abriria espaço para queda no preço do frango. Ainda assim, ele ressalta que a elevação do preço do diesel e a tendência de o frete interno encarecer tornam pouco provável que essa redução chegue ao consumidor final.
A Petrobras anunciou aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel vendido em suas refinarias, medida que passou a valer no dia 14 deste mês. Em Belo Horizonte e região metropolitana, o diesel S10 subiu 11,09% em duas semanas: segundo levantamento do Mercado Mineiro, o valor médio foi de R$ 6,04 para R$ 6,71, alta de R$ 0,67 por litro.
Setores pedem medidas emergenciais
A guerra no Oriente Médio levou setores do país a cobrar medidas emergenciais do governo para reduzir impactos econômicos e logísticos em diferentes cadeias. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi procurado pela ABPA para detalhar os efeitos no setor e receber uma lista de pedidos, que inclui criação ou ampliação de linhas de crédito emergenciais para capital de giro, além de alongamento de prazos e flexibilização de financiamentos.
Em carta enviada a Haddad, Ricardo Santin apontou a estimativa de aumento no tempo de viagem e de elevação de custos operacionais ligados a frete, seguros, sobretaxas de risco e gestão de contêineres refrigerados, diante das mudanças no trajeto e das dificuldades logísticas.
Com André Borges, Ricardo Della Coletta e Maeli Prado/Folhapress