Estudo da WWF estima perda de R$ 47 bilhões se Brasil priorizar petróleo na Foz do Amazonas

Análise aponta que a opção pela rota fóssil na Margem Equatorial pode reduzir receitas e benefícios frente a investimentos em renováveis e biocombustíveis, considerando custos sociais de emissões

23/04/2026 às 17:24 por Redação Plox

Um estudo inédito da WWF-Brasil aponta que, ao priorizar a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, o Brasil poderá abrir mão de R$ 47 bilhões em receita e benefícios que, segundo a entidade, poderiam ser gerados com a aposta em energia renovável e biocombustíveis. O levantamento foi lançado nesta quinta-feira (23).

De acordo com o estudo, esse valor resulta da soma de duas frentes: R$ 22,2 bilhões em perdas estimadas com o investimento em combustíveis fósseis na Margem Equatorial e R$ 24,8 bilhões que deixariam de ser obtidos caso não haja investimentos na eletrificação da matriz energética.


Sonda NS-42 (ODN-II), usada pela Petrobras em simulação na Bacia Foz do Amazonas, na Margem Equatorial.

Foto: Divulgação / Foresea / Petrobras


Como o estudo calculou perdas e benefícios

Para avaliar o que o país pode ganhar e perder ao investir em uma nova fronteira petrolífera em meio a uma transição energética acelerada e a riscos crescentes, o WWF-Brasil usou a Análise Socioeconômica de Custo-Benefício (ACB). O método é o mesmo recomendado pelo Tribunal de Contas da União para a avaliação de grandes investimentos públicos.

Segundo Daniel Thá, consultor da WWF-Brasil, a ACB permite uma comparação sistemática, com critérios objetivos, baseados em evidências, e uma perspectiva de longo prazo.

É uma análise que não está focada no lucro do investidor privado ou no imposto que o governo recolhe. Está balizada no retorno para todos os atores da sociedade, incluindo governo, empresa e famílias

Daniel Thá, consultor da WWF-Brasil

O cenário projetado para a bacia da Foz do Amazonas

O estudo trabalhou com um cenário de desempenho produtivo da bacia da Foz do Amazonas ao longo de 40 anos. Os dez primeiros anos foram considerados como o período necessário para explorar, identificar e comprovar o petróleo, além de desenvolver a nova frente de extração. Nos 30 anos seguintes, já com a operação em curso, foram estimados investimentos compatíveis com o mercado e com o preço do petróleo no longo prazo, a partir de 2036, quando os barris estariam disponíveis no mercado.

A reserva considerada no modelo foi de 900 milhões de barris, com capacidade de explorar 120 mil barris por dia a partir de 20 poços exploratórios.

Pelo ponto de vista estritamente financeiro, e descontados os custos das operações, o estudo indica que as empresas teriam lucro com valor de venda de US$ 39 por barril. O texto observa que, atualmente, o barril de petróleo está em torno de US$ 100. Ainda assim, segundo Daniel Thá, a vantagem seria influenciada pelas ações climáticas adotadas pelo país.

Emissões e custos sociais entram na conta

O cálculo também inclui o custo social do modelo adotado, com destaque para as emissões de gases de efeito estufa, seguindo critérios da Agência Internacional de Energia. A estimativa apresentada no estudo é de 446 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, com maior parte na fase de consumo dos combustíveis.

Considerando apenas o custo social do carbono, o prejuízo gerado à população pode variar de R$ 21 bilhões a R$ 42 bilhões, segundo o levantamento. Ao incluir essas externalidades, os pesquisadores concluíram que o saldo líquido da nova frente petrolífera na Foz do Amazonas representaria perda de R$ 22,2 bilhões no período de 40 anos.

Alternativas: eletrificação e biocombustíveis

A partir do mesmo modelo, a rota do petróleo foi comparada a outros dois sistemas, mantendo parâmetros como investimentos, quantidade de energia entregue, volume de combustível e risco de mercado nos mesmos 40 anos. O estudo parte da premissa de que a demanda social é por energia, e não pelo petróleo em si.

Para viabilizar a comparação, a produção média anual de petróleo foi convertida em unidade equivalente, totalizando 48,63 TWh/ano. Essa referência, segundo o estudo, permite verificar se alternativas como a eletrificação podem oferecer o mesmo serviço energético com custos e impactos menores.

No cenário de eletrificação, foram considerados 50% de eólica em solo, 42% de solar fotovoltaica, 4% de biomassa (bagaço de cana) e 4% de biogás, conforme previsto no último Plano Decenal de Expansão de Energia. De acordo com Daniel Thá, esse caminho teria retorno positivo para a sociedade, com mais benefícios do que custos e externalidades, de quase R$ 25 bilhões, além de não depender do período inicial de dez anos de exploração.

No terceiro cenário, voltado aos biocombustíveis, a gasolina foi comparada ao etanol; o diesel, ao biodiesel; o combustível de aviação, ao SAF (combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês); e o gás de petróleo, ao biometano. O estudo afirma que, embora os custos sejam mais altos do que os do petróleo, as externalidades são menores, o que leva a um resultado R$ 29,3 bilhões inferior ao da rota de combustíveis fósseis.

O peso da Margem Equatorial para o país e para a Petrobras

A Margem Equatorial, especialmente a bacia da Foz do Amazonas, é apresentada como a nova fronteira de exploração de petróleo e gás no Brasil, com potencial estimado de 30 bilhões de barris de petróleo. Localizada entre Amapá e Pará, a região é descrita como sensível, com vasta biodiversidade, próxima de rios importantes e da floresta.

Ao mesmo tempo, para a Petrobras, a área é considerada crucial para substituir o pré-sal pós-2030. Segundo a avaliação da estatal citada no texto, a produção de óleo na Margem Equatorial é uma decisão estratégica para que o país não precise importar petróleo no horizonte de dez anos. O governo brasileiro também defende que recursos dos combustíveis fósseis financiem a transição energética.

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