Ministério da Saúde alerta para risco de volta do sarampo com viagens para a Copa de 2026

Pasta recomenda reforço da vacinação com a tríplice viral antes do embarque e intensificação da vigilância para manter o Brasil livre de circulação endêmica da doença.

23/04/2026 às 15:07 por Redação Plox

O Ministério da Saúde emitiu um alerta para o risco iminente de reintrodução e disseminação do sarampo no Brasil em razão do aumento no fluxo de viajantes para a Copa do Mundo 2026. A competição será realizada a partir de junho, com sedes nos Estados Unidos, Canadá e México — países que, segundo a pasta, enfrentam surtos ativos da doença.

De acordo com a nota técnica, o cenário combina alta transmissibilidade do sarampo nas Américas e um grande número de brasileiros que devem viajar tanto para os países-sede quanto para outras nações com surto em andamento.

Há, segundo o documento, risco de reintrodução do vírus com o retorno desses viajantes ao Brasil ou com a chegada de estrangeiros eventualmente infectados.


Ministério da saúde alerta para aumento nos números de casos de sarampo com viagens para a Copa do Mundo de 2026.

Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil


Vacinação e vigilância são apontadas como medidas centrais

O ministério reforça recomendações para a vacinação contra o sarampo como forma de proteger viajantes e a população residente no Brasil, diante do elevado número de casos e da manutenção de surtos ativos nos países que receberão o Mundial.

O documento também destaca a necessidade de estados, municípios e profissionais de saúde priorizarem a atualização vacinal e o monitoramento rigoroso de casos suspeitos, com o objetivo de manter o status do Brasil como país livre da circulação endêmica do vírus.

Orientações para quem vai viajar para a Copa

Para quem está com viagem marcada, a recomendação é começar pela checagem da caderneta de vacinação, verificando se as doses da vacina Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola) estão em dia.

A orientação é que o imunizante seja tomado com pelo menos 15 dias de antecedência ao embarque, para permitir a formação da proteção necessária. No retorno ao Brasil, a indicação é procurar imediatamente um serviço de saúde caso surjam febre e manchas vermelhas pelo corpo, informando a realização da viagem.


Vacinas de poliomelite, sarampo; caxumba e rubéola produzidas por Bio-Manguinhos/Fiocruz, exibidas no 9º Simpósio Internacional de Imunobiológicos.

Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil


Copa do Mundo 2026 e a circulação de doenças

A Copa do Mundo 2026 ocorrerá entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, com partidas em cidades dos Estados Unidos, do México e do Canadá. A expectativa é de participação de milhões de pessoas, incluindo grande número de viajantes internacionais de diferentes regiões do mundo.

Na avaliação do ministério, eventos de massa ampliam a mobilidade populacional e a circulação de viajantes entre países e continentes, o que pode favorecer a disseminação de doenças transmissíveis.


Sarampo nas Américas: aumento de casos e surtos ativos

O Ministério da Saúde define o sarampo como uma doença viral infecciosa aguda, altamente contagiosa e potencialmente grave. A transmissão ocorre principalmente por via aérea ou por gotículas respiratórias ao tossir, espirrar, falar ou respirar, com rápida disseminação em locais com grande concentração de pessoas.

O documento aponta que o sarampo segue com ampla distribuição global, com surtos persistentes em todos os continentes. Em 2025, foram confirmados 248.394 casos no mundo, indicando, segundo o ministério, que a circulação viral permanece como ameaça crítica à saúde pública. A pasta também atribui o agravamento à existência de bolsões de pessoas suscetíveis, relacionados à hesitação vacinal e a falhas de cobertura em diferentes regiões.

Nas Américas, a nota técnica descreve aumento expressivo da incidência, com milhares de casos, sobretudo nos países-sede da Copa do Mundo.

No Canadá, a epidemia de 2025 registrou 5.062 casos e levou à perda da certificação de país livre de sarampo. Em 2026, foram 124 casos, mantendo a área como de circulação endêmica.

No México, o cenário também se intensificou: o país passou de sete casos em 2024 para 6.152 em 2025 e 1.190 em janeiro de 2026, segundo dados preliminares.

Já os Estados Unidos notificaram 2.144 casos em 2025 e 721 casos apenas em janeiro de 2026.

Segundo o ministério, os três países registram surtos ativos — com transmissão contínua do vírus — e o agravamento culminou na perda do status da região das Américas como zona livre de transmissão endêmica em novembro de 2025.

Brasil mantém status, mas casos reforçam vulnerabilidade

Apesar do cenário regional, o Brasil mantém o status de país livre da circulação endêmica do vírus do sarampo, alcançado em 2024.

Em 2025, foram registrados 3.952 casos suspeitos, com 3.841 descartados, 46 ainda em investigação e 38 confirmados. Entre os confirmados, dez foram importados, 25 foram relacionados à importação e três tiveram fonte de infecção desconhecida.

Em 2026, até meados de março, houve 232 casos suspeitos e dois casos confirmados: uma criança de 6 meses, residente em São Paulo, com histórico de viagem à Bolívia; e uma jovem de 22 anos, residente no Rio de Janeiro, com investigação em andamento. Ambas não eram vacinadas.

O ministério avalia que o cenário atual reforça a vulnerabilidade do país diante da reintrodução do vírus, pela combinação entre surtos ativos em países vizinhos, fluxo contínuo de viajantes, brasileiros não vacinados e confirmação de casos importados, elevando o risco de novos casos e de surtos.

Cobertura vacinal: avanços, mas com lacunas

A nota técnica reforça que a vacinação é a principal medida de prevenção e controle do sarampo, disponível gratuitamente no Programa Nacional de Imunizações por meio das vacinas tríplice viral e tetraviral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela).

Dados do ministério mostram que, em 2025, a cobertura da 1ª dose (D1) chegou a 92,66%, próxima da meta nacional de 95%. A homogeneidade foi de 64,56%, com 3.596 municípios atingindo a meta de 95%.

Na 2ª dose (D2), a cobertura ficou em 78,02%, com homogeneidade de 35,24%, e 1.963 municípios alcançaram 95%.

Para o ministério, esses números indicam que ainda há pessoas não vacinadas contra o sarampo no país — e, com o retorno de viajantes brasileiros infectados ou a chegada de estrangeiros infectados, o risco de reintrodução aumenta, com possibilidade de surtos e epidemias.

Esquemas recomendados antes de viagens internacionais

Para viajantes internacionais, a orientação é conferir o cartão de vacina e buscar uma unidade de saúde para atualizar a imunização contra o sarampo antes da viagem. O esquema indicado na nota técnica inclui:

Crianças de 6 a 11 meses e 29 dias: dose zero, no mínimo, 15 dias antes do embarque.

Crianças de 12 meses a adultos de 29 anos: para quem precisa completar duas doses, a 1ª deve ser aplicada, no mínimo, 45 dias antes da viagem, para permitir a 2ª dose 30 dias depois e o período de produção de anticorpos.

Adultos de 30 a 59 anos: para quem precisa de uma dose, iniciar o esquema pelo menos 15 dias antes do embarque.

O ministério também afirma que, mesmo fora do período ideal, ainda é recomendável tomar ao menos uma dose antes de viajar, inclusive no dia do embarque.

Especialista aponta risco de reintrodução como “real”

O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, avalia que a possibilidade de reintrodução do sarampo no Brasil é concreta, especialmente diante do surto nas Américas e do deslocamento frequente de pessoas.


Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri.

Foto: Divulgação / Sarah Daltri / SBIm /


Justamente no momento em que nós recuperamos o status de zona livre do sarampo, estamos vivenciando um grande surto nas Américas, principalmente na América do Norte. Mas também há casos na Bolívia, na Argentina e no Paraguai.

Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm)

Segundo ele, manter a população vacinada funciona como barreira para interromper a transmissão, além de exigir vigilância ativa para detecção precoce de casos. Kfouri também destacou a importância de capacitação de profissionais de saúde para reconhecimento da doença e ações imediatas, como isolamento, bloqueio e coleta de exames, além de atenção redobrada em períodos de aglomeração e de viagens.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a