Reinado do Rosário mantém viva tradição de mais de 200 anos em Itapecerica

Celebração ocupa ruas, distritos e a Praça Santa Cruz em agosto, com cortejos, tambores, cantos e guardas que preservam tradições afro-brasileiras.

23/08/2026 às 06:48 por Redação Plox

O Reinado do Rosário volta a ocupar as ruas de Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, durante o mês de agosto, reunindo cortejos, tambores, cantos, guardas e personagens da corte em uma celebração religiosa e cultural que atravessa gerações.

Reinado de Itapecerica — registro realizado em agosto de 2026

Reinado de Itapecerica — registro realizado em agosto de 2026

Foto: Danilo Moreira/Divulgação


A tradição tem registros no município desde 1818, quando a cidade ainda era chamada de Vila de São Bento do Tamanduá.

Reconhecido pelo município como bem cultural imaterial, o Reinado é realizado em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e também reverencia São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora das Mercês.

A programação envolve a sede e distritos de Itapecerica, com passagens pelas ruas e concentração na Praça Santa Cruz.

Fé, ancestralidade e memória negra

Registro da reportagem: Anielo Antônio D'Alessandro - Capitão Mor do Reinado em Itapecerica

Registro da reportagem: Anielo Antônio D'Alessandro - Capitão Mor do Reinado em Itapecerica

Foto: Prefeitura de Itapecerica/Divulgação


A manifestação preserva elementos das tradições afro-brasileiras construídas em torno das irmandades do Rosário.

Em junho de 2025, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou os Saberes do Rosário — Reinados, Congados e Congadas — como Patrimônio Cultural do Brasil, destacando a devoção, a ancestralidade e a diversidade de grupos que compõem essas celebrações em Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Em Itapecerica, a celebração reúne guardas com expressões próprias, como Moçambique, Congo, Vilão, Catupé e Marinheiros, também conhecidos como Marujadas.

Reinado de Itapecerica simboliza cultura e fé

Reinado de Itapecerica simboliza cultura e fé

Foto: Danilo Moreira/Divulgação


Os grupos se diferenciam pelos ritmos, instrumentos, fardas, cantos e formas de conduzir os rituais, que combinam religiosidade, música e memória comunitária.

O Capitão-Mor do Reinado do Rosário de Itapecerica, Anielo Antônio D'Alessandro, de 77 anos, relatou ao g1 que aprendeu a tradição com o pai e com antigos capitães.

Para ele, o Reinado está ligado à presença da população negra na formação histórica do município e à transmissão de conhecimentos entre famílias e integrantes das guardas.

Entre os momentos simbólicos da festa está a encenação da Abolição, incorporada ao Reinado em 1957, segundo a reportagem.

Reinado em Itapecerica simboliza fé e resistência

Reinado em Itapecerica simboliza fé e resistência

Foto: Danilo Moreira/Divulgação


A representação relaciona a memória da Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, e personagens como Chico Rei à resistência negra e à preservação das referências africanas no Brasil.

O patrimônio cultural de Itapecerica registra o Reinado do Rosário como bem imaterial desde 2009.

Mais de dois séculos após os primeiros registros locais, a continuidade da festa depende da participação das comunidades, dos ensaios e do envolvimento de novas gerações nas guardas e rituais do Rosário.

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