Técnica de ventilação pelo intestino pode revolucionar respiração artificial em casos extremos
Estudo liderado pelo médico japonês Takanori Takebe testa líquido altamente oxigenado no intestino, mostra segurança inicial em humanos e aponta possível nova via de oxigenação do corpo
24/01/2026 às 09:21por Redação Plox
24/01/2026 às 09:21
— por Redação Plox
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Um estudo recente liderado pelo médico japonês Takanori Takebe investiga uma alternativa pouco convencional para casos de insuficiência respiratória: levar oxigênio ao corpo por meio do reto. A técnica, ainda em estágio experimental, pode no futuro ajudar pacientes que não podem ser intubados.
Batizado de ventilação enteral, o método consiste em introduzir no intestino um líquido altamente oxigenado. Essa região é rica em vasos sanguíneos, capazes de absorver substâncias e distribuí-las rapidamente pela corrente sanguínea.
Cientistas testam respiração pelo ânus como alternativa à ventilação pulmonar (
Foto: Reprodução/Freepik)
Origem pessoal da pesquisa e inspiração na natureza
A investigação começou a partir de uma experiência íntima do pesquisador. Takebe decidiu aprofundar o tema depois que o próprio pai precisou ser entubado devido a uma pneumonia grave. Especialista em gastroenterologia, ele passou a buscar alternativas fora do sistema respiratório tradicional.
A ideia ganhou forma com base na observação da natureza, em especial de um peixe chamado dojô, capaz de sobreviver em ambientes com pouco oxigênio ao absorver ar pelo intestino.
Resultados em animais e prêmio internacional
A partir desse conceito, Takebe levou o projeto ao laboratório. Os primeiros testes foram feitos em ratos e porcos, com resultados considerados positivos. O impacto da pesquisa chamou atenção também pelo inusitado: em 2024, o trabalho rendeu ao grupo o Prêmio Ig Nobel, voltado a descobertas científicas que soam engraçadas à primeira vista, mas estimulam reflexão.
Primeiros testes em humanos
Mais recentemente, e pela primeira vez, a técnica começou a ser testada em humanos. Nesta fase inicial, o foco não foi verificar a oxigenação do corpo, e sim avaliar a segurança da introdução e manutenção do líquido no intestino.
O experimento envolveu 27 homens, que conseguiram reter o fluido por cerca de uma hora, sem absorver o líquido em si e sem registrar efeitos colaterais graves. O principal efeito adverso relatado foi um aumento pontual de gases intestinais.
Próxima etapa: oxigênio de fato no organismo
A próxima fase da pesquisa será decisiva: aplicar o mesmo líquido, agora carregado de oxigênio, para avaliar se ele é efetivamente absorvido pelo organismo humano e se consegue manter níveis adequados de oxigenação.
Caso os resultados se confirmem, a medicina poderá ganhar uma nova alternativa de respiração artificial, especialmente útil em situações extremas ou emergenciais.
Conexão com a mitologia japonesa
A proposta também encontra eco na cultura japonesa. Segundo a mitologia local, todas as pessoas teriam um shirikodama, uma espécie de esfera localizada no ânus que conteria a alma humana, elemento central nas lendas do kappa, criatura folclórica conhecida por tentar roubar esse “núcleo vital”.
Nesse plano simbólico, a técnica poderia ser vista como uma forma de levar oxigênio diretamente à alma — ainda que, na prática, permaneça restrita ao campo da imaginação.