Governo projeta arrecadar R$ 14 bilhões em 2026 com alta na tarifa de importação de mais de mil produtos; celulares entram na taxação
Aumento atinge mais de mil produtos e eleva em até 7,2 pontos percentuais a taxação de máquinas, equipamentos e itens de informática e telecom, com críticas sobre competitividade e inflação
24/02/2026 às 08:13por Redação Plox
24/02/2026 às 08:13
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
O Ministério da Fazenda estima arrecadar R$ 14 bilhões adicionais em 2024 com o aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos, medida adotada no início de novembro com o objetivo de proteger a indústria nacional.
Entram na lista itens como smartphones, freezers e painéis indicadores com LCD ou LED, entre outros bens de capital, de informática e de telecomunicações. Parte dos aumentos já está em vigor, e o restante começa a valer em março.
Segundo a equipe econômica, o reforço de receita ajudará o governo federal a cumprir a meta de superávit nas contas públicas neste ano. Desde o início de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma série de elevações de tributos para tentar reequilibrar as finanças do país.
Imagem ilustrativa
Foto: Reprodução
Tarifas sobem até 7,2 pontos percentuais
A decisão do governo elevou em até 7,2 pontos percentuais a taxação de máquinas, equipamentos e bens de informática e telecomunicações importados. A mudança atinge tanto setores produtivos que utilizam esses insumos quanto consumidores que buscam tais produtos no exterior.
A medida foi criticada por importadores, que apontam perda de competitividade e risco de pressão inflacionária, e defendida pelo governo, que afirma buscar a preservação da indústria nacional.
Argumentos do Ministério da Fazenda
Em nota técnica, o Ministério da Fazenda informou que as importações de bens de capital e de informática acumulam alta de 33,4% desde 2022. De acordo com a pasta, a participação desses produtos no consumo nacional superou 45% em dezembro do ano passado, em patamar descrito como suficiente para ameaçar elos da cadeia produtiva e provocar regressões produtiva e tecnológica de difícil reversão.
O ministério avaliou ainda que o aumento das tarifas é uma medida “moderada e focalizada”, considerada necessária para readequar preços relativos, mitigar a concorrência assimétrica, conter o avanço da penetração de importados e reduzir a vulnerabilidade externa estrutural associada ao déficit setorial.
O governo afirma também que a iniciativa está alinhada ao cenário internacional, citando a adoção, por diversos países, de instrumentos de proteção setorial ou de remédios comerciais em subgrupos de máquinas, o que indicaria que tarifas seguem sendo usadas para responder a choques externos e a práticas como dumping.
Segundo o Ministério da Fazenda, as principais origens das importações desses produtos, no ano passado, foram Estados Unidos, com US$ 10,18 bilhões (34,7% de participação); China, com US$ 6,18 bilhões (21,1%); Singapura, com US$ 2,58 bilhões (8,8%); e França, com US$ 2,52 bilhões (8,6%).
Apesar do aumento, o governo abriu a possibilidade de pedidos de redução temporária da alíquota para zero até 31 de março, para produtos anteriormente beneficiados, com concessão provisória por até 120 dias.
Contexto internacional e protecionismo
Desde a adoção do chamado “tarifaço” pelo então presidente Donald Trump, o governo brasileiro vinha criticando o aumento generalizado de tarifas aplicado pelos Estados Unidos e tentando reverter seus efeitos.
Na sexta-feira (20), a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que Trump extrapolou sua autoridade ao impor o pacote de aumentos sobre importações de quase todos os parceiros comerciais, derrubando parte da elevação de impostos.
Em abril do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que reagiria a qualquer iniciativa de protecionismo por parte dos EUA, avaliação que, à época, classificou como algo que “não cabe mais”.
Estudo do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), divulgado no ano passado, aponta que o grau de abertura comercial da economia brasileira aumentou nos últimos anos, mas conclui que o país ainda mantém uma estrutura mais fechada do que a de outros emergentes com os quais costuma ser comparado.
Impactos sobre investimento e indústria
Mauro Lourenço Dias, presidente do Fiorde Group, que atua na importação de matérias-primas, produção, logística e entrega final, avaliou que o Brasil convive com um parque industrial em que grande parte dos equipamentos tem mais de 20 anos de uso, frequentemente submetidos a modernizações improvisadas.
Ao mesmo tempo, segundo ele, a indústria nacional de bens de capital não consegue atender integralmente à demanda interna nem acompanhar o ritmo da modernização global. Nesse contexto, estimou que o aumento das tarifas de importação tende a gerar efeitos em cadeia na economia.
O aumento das alíquotas impacta diretamente a capacidade de investimento das empresas. Estamos falando de máquinas, peças e tecnologia que são essenciais para modernização e ganho de produtividade. Quando o custo sobe de forma abrupta, muitos projetos ficam comprometidos e a competitividade do Brasil no cenário internacional é afetada
Mauro Lourenço Dias, do Fiorde Group
Efeito nos preços e na inflação
O Fiorde Group estimou que, na prática, o aumento de tarifas pode se refletir no preço de motores de portão em condomínios, no custo de televisores e eletrodomésticos, na manutenção de equipamentos hospitalares, no valor de exames médicos e em obras de infraestrutura, como metrôs e projetos de mineração.
Já o Ministério da Fazenda afirma esperar que o impacto sobre o IPCA seja indireto, baixo e defasado, por se tratar, em sua maioria, de bens de produção. A pasta ressalta que há exceções e regimes específicos que atenuam a abrangência efetivo da medida.
Na avaliação do governo, a alteração tarifária tende a reorientar preços relativos em favor do produto nacional, com ganhos de encadeamento produtivo e possibilidade de substituição competitiva em segmentos mecânicos e de integração, o que, no balanço, teria efeito positivo sobre a competitividade sistêmica.
Segundo a Fazenda, o efeito na inflação é parcialmente compensado por renegociação de preços e substituição de compras. A expectativa é que a redução do “vazamento de demanda” via importações de bens de investimento contribua para melhorar o saldo em transações correntes, com menor importação e maior conteúdo local nos projetos.
Principais produtos atingidos
Os aumentos de tarifas incidem sobre uma lista extensa de mais de mil itens. Entre os produtos afetados, estão:
Equipamentos eletrônicos e de consumo
Telefones inteligentes (smartphones)
Televisores e eletrodomésticos (via componentes e máquinas associados)
Painéis indicadores com LCD ou LED
Cartuchos de tinta
Máquinas de cortar o cabelo
Máquinas industriais e bens de capital
Torres e pórticos
Reatores nucleares
Caldeiras
Geradores de gás de ar
Turbinas para embarcações
Motores para aviação
Bombas para distribuição de combustíveis ou lubrificantes
Fornos industriais
Congeladores (freezers)
Centrifugadores para laboratórios de análises, ensaios ou pesquisas científicas
Máquinas e aparelhos para encher, fechar, arrolhar, capsular ou rotular garrafas
Empilhadeiras
Robôs industriais
Máquinas de comprimir ou de compactar
Distribuidores de adubos (fertilizantes)
Máquinas e aparelhos para as indústrias de panificação, açúcar e cervejeira
Máquinas para fabricação de sacos ou de envelopes
Máquinas e aparelhos de impressão
Descaroçadeiras e deslintadeiras de algodão
Máquinas para fiação de matérias têxteis
Máquinas e aparelhos para fabricar ou consertar calçado
Martelos
Circuitos impressos com componentes elétricos ou eletrônicos, montados
Controladores de edição
Veículos, embarcações e equipamentos pesados
Tratores
Transatlânticos, barcos de excursão e embarcações semelhantes
Plataformas de perfuração ou de exploração, flutuantes ou submersíveis
Navios de guerra
Equipamentos médicos e de alta tecnologia
Câmeras fotográficas para fotografia submarina ou aérea, para exame médico de órgãos internos ou para laboratórios de medicina legal ou de investigação judicial
Aparelhos de diagnóstico de imagem por ressonância magnética