Estudo alerta: América Latina ainda tem mortes por câncer de colo do útero apesar da vacina contra HPV
Análise com dados de 35 países e territórios aponta cobertura vacinal desigual e destaca rastreamento organizado e integração de sistemas como chave para atingir metas da OMS
24/03/2026 às 19:03por Redação Plox
24/03/2026 às 19:03
— por Redação Plox
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A vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) avança na América Latina, mas a região ainda registra mortes por câncer de colo do útero — uma doença considerada altamente prevenível. O alerta é de um estudo publicado em fevereiro na revista científica The Lancet, que analisou dados de 35 países e territórios da América Latina e do Caribe.
O HPV é o vírus responsável pela infecção sexualmente transmissível mais comum do mundo, afetando pele e mucosas. Apesar da disponibilidade de vacinas, a cobertura segue desigual: na América Latina, varia de 45% a 97%; no Caribe, de 2% a 82%. Os índices estão abaixo da meta global da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê 90% das meninas vacinadas até os 15 anos.
No Brasil, a cobertura em 2024 chegou a 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde intensificou a vacinação, adotando dose única e ampliando o público para jovens de 15 a 19 anos não vacinados.
Em 26 de março é celebrado o Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero.
Vacinação contra o HPV avança na América Latina, mas região ainda registra mortes por câncer de Colo do útero.
Foto: Agência Brasil
Rastreamento ainda é o principal desafio
Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flavia Miranda Corrêa, a América Latina apresenta melhores resultados do que o Caribe tanto em vacinação quanto em rastreamento. Ainda assim, ela aponta que o principal problema é o modelo adotado na maioria dos países: o rastreamento oportunístico.
Nesse formato, o exame ocorre apenas quando a mulher procura o serviço de saúde por outro motivo ou solicita o procedimento.
A gente sabe que esse modelo de rastreamento oportunístico é muito menos eficiente do que um rastreamento organizado, que tem todos os critérios a serem seguidos e é um rastreamento de base populacional
Flavia Miranda Corrêa
Especialistas avaliam que esse desenho contribui para diagnósticos tardios e maior mortalidade. Já o rastreamento organizado prevê a identificação da população-alvo — mulheres de 25 a 64 anos —, convocação ativa, busca de quem não comparece e sistemas integrados para acompanhamento dos casos.
Flavia Corrêa reforça que a deficiência é dupla: além da predominância do rastreamento oportunístico entre os 35 países analisados, a ausência de um programa organizado reduz as garantias de que todos os procedimentos necessários estarão disponíveis.
Vacinação: cobertura cresce, mas meta global ainda não foi atingida
Na América Latina, apenas a Venezuela ainda não introduziu a vacinação contra o HPV. No Brasil, o imunizante entrou no Calendário Nacional de Vacinação em 2014, com distribuição inteiramente gratuita.
A especialista avalia que o país está se aproximando da meta global de 90% de meninas vacinadas até os 15 anos — patamar associado à eliminação do câncer do colo do útero, conforme proposta da OMS.
Flavia também chama atenção para a necessidade de imunizar meninos, como forma de proteção contra tipos de câncer associados ao HPV, como os de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais.
Desiguldades ainda é o maior problema na hora da vacinação.
Foto: Agência Brasil
Teste DNA-HPV: mudança gradual no rastreamento
Em janeiro, a Fundação do Câncer lançou a atualização do Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, orientando a substituição gradual do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV.
Mesmo assim, a citologia ainda é o principal método na maioria dos países avaliados. O teste molecular já foi implementado em nações como Argentina, Brasil, Chile e México, além de alguns países do Caribe.
No Brasil, há avanços na adoção do novo exame e na estrutura de atendimento, com encaminhamento da atenção primária para níveis secundário e terciário. A mulher realiza o rastreamento na atenção primária e, em caso de diagnóstico positivo, segue para a atenção secundária, onde ocorre a investigação diagnóstica. Concluída essa etapa, a paciente é direcionada ao nível terciário.
Para Flavia Miranda Corrêa, a integração entre os sistemas de informação desses níveis é decisiva para evitar que a paciente se perca na linha de cuidado. Sem interoperabilidade, há risco de interrupção do acompanhamento e de não conclusão do tratamento, apontado por ela como um dos maiores problemas no Brasil.
HPV é o vírus responsável pela infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo.
Foto: Agência Brasil
Sinais da doença e janela para diagnóstico precoce
A especialista explica que lesões precursoras do câncer de colo do útero podem levar de 10 a 20 anos para evoluir, o que amplia a possibilidade de diagnóstico precoce. Quando identificada nessa fase, a doença tem alta taxa de sucesso no tratamento.
Entre os sintomas estão sangramentos fora do período menstrual, após relações sexuais ou na pós-menopausa, além de corrimento persistente. Em estágios mais avançados, podem surgir alterações urinárias ou intestinais.
Estratégia global exige integração entre vacinação, rastreamento e tratamento
O diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, defende a transição para programas organizados de rastreamento, com convite ativo e acompanhamento das pacientes. Segundo ele, esse modelo contribuiu para reduzir a doença em países como Austrália, Canadá, Escócia e Dinamarca.
De acordo com o estudo publicado na The Lancet, integrar vacinação, rastreamento e tratamento é essencial para alcançar a meta global: 90% das meninas vacinadas, 70% das mulheres rastreadas e 90% dos casos tratados.
Com essa cobertura, a OMS projeta que a incidência do câncer de colo do útero pode cair a níveis residuais nas próximas décadas.