Cláusula em empréstimo de R$ 1,8 bilhão leva bancos a bloquear receitas dos Correios em 2025
Relatório aponta que descumprimento de condição sobre precatórios acionou garantias, apertou o caixa e levou a renegociação com credores, com aumento de juros e pagamento de taxa
24/04/2026 às 10:00por Redação Plox
24/04/2026 às 10:00
— por Redação Plox
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Uma cláusula do contrato do empréstimo de R$ 1,8 bilhão tomado pelos Correios em junho do ano passado levou o sindicato de bancos credores a bloquear, no segundo trimestre de 2025, parte do dinheiro que a estatal recebia do próprio faturamento pela prestação de serviços.
A informação consta em um documento de análise da situação econômico-financeira da empresa, elaborado pelo Departamento de Controladoria da Diretoria Econômico-Financeira (DIEFI) sobre o cenário dos Correios até setembro de 2025, ao qual o g1 teve acesso com exclusividade.
Ação integra plano de reestruturação econômico-financeiro da estatal.
Foto: Reprodução / Agência Brasil.
Segundo o relatório, o contrato assinado pelo ex-presidente Fabiano Silva dos Santos previa estabilidade no estoque de precatórios a pagar pela estatal — condição que acabou descumprida após o reconhecimento de novas perdas em processos judiciais ao longo do ano.
Cláusula ligada a precatórios acionou bloqueio de faturamento
Precatórios são ordens de pagamento emitidas pela Justiça para que o estado ou a União quitem dívidas com pessoas e empresas. De acordo com o documento, a necessidade de reconhecer novas perdas elevou o volume desses valores, e a garantia contratual foi acionada pelos credores.
Com isso, os bancos passaram a ter o direito de reter integralmente valores depositados em contas garantia, executar de imediato garantias fiduciárias e exigir o pagamento antecipado da totalidade da dívida, conforme descreve o relatório.
O bloqueio de faturamento imposto pelos credores caracteriza cenário de alta criticidade, com impactos financeiros, operacionais e institucionais de grande magnitudeDocumento do Departamento de Controladoria da Diretoria Econômico-Financeira (DIEFI)
Na prática, a medida apertou o caixa dos Correios no segundo semestre de 2025 e reduziu a liquidez — isto é, o dinheiro disponível — afetando o pagamento a fornecedores e a prestação de serviços, segundo o documento.
Aperto de caixa afetou fornecedores e obrigações da empresa
O relatório aponta que a restrição de caixa ameaçou a continuidade de serviços, atingiu a cadeia de fornecedores estratégicos e fragilizou a capacidade de cumprir obrigações trabalhistas e tributárias.
O presidente dos Correios, Emmanoel Schmidt Rondon, afirmou que o principal problema era a liquidez, com impacto direto na operação e na capacidade de recuperação da empresa.
Renegociação elevou custo financeiro e antecipou pagamentos
Para voltar a ter acesso ao faturamento dos serviços, os Correios renegociaram o contrato com o sindicato de bancos formado por Citibank, BTG Pactual e Banco ABC do Brasil.
No novo acordo, o estoque de precatórios passou a ter limite máximo de R$ 2,5 bilhões reconhecidos, além da suspensão da apuração de novos casos entre setembro e dezembro de 2025.
A mudança gerou custo adicional: a empresa pagou uma taxa de “dispensa de obrigação contratual” de R$ 44,8 milhões, quitada em duas parcelas — uma em novembro e outra em dezembro de 2025.
Em seguida, os Correios aceitaram alterar as condições financeiras do empréstimo. A taxa, antes de 3% ao ano mais DI, passou a 4% ao ano mais DI entre 28 de setembro e 28 de novembro e, a partir de 28 de novembro, subiu para 5% ao ano mais DI. Com a renegociação, a taxa efetiva da operação aumentou de 21,99% ao ano para 25,67%.
O contrato renegociado também incluiu uma cláusula que permite o retorno à taxa original de 3% ao ano mais DI caso a empresa obtenha um aporte de capital superior a R$ 5 bilhões.
Além disso, os prazos foram alterados: os pagamentos, inicialmente semestrais a partir de maio de 2026, foram antecipados para janeiro deste ano e passaram a ser mensais.
Com as novas condições, a tomada do empréstimo de R$ 12 bilhões se tornou prioridade para a estatal, primeiro para recompor a liquidez e, depois, para quitar a operação de R$ 1,8 bilhão — apontada como potencial fonte de novos problemas de caixa.
Rondon disse que, ao fim de 2025, a empresa acumulava cerca de R$ 5 bilhões em compromissos a pagar que não estavam sendo cumpridos por falta de liquidez.