ENBPar pode precisar de aporte do Tesouro em 2027, aponta PLDO enviado ao Congresso
Documento do governo cita risco fiscal ligado ao descasamento entre investimentos e receitas, à extensão da vida útil de Angra 1 e às incertezas sobre a modelagem e o financiamento de Angra 3
24/04/2026 às 07:33por Redação Plox
24/04/2026 às 07:33
— por Redação Plox
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A Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar), controladora da Eletronuclear — responsável pela operação das usinas nucleares Angra 1 e Angra 2 e pela construção de Angra 3 — pode precisar de um aporte do Tesouro Nacional em 2027.
A pressão sobre as finanças da ENBPar está ligada à situação econômico-financeira da Eletronuclear, que demanda investimentos para a extensão da vida útil de Angra 1 e enfrenta incertezas sobre a conclusão das obras de Angra 3.
Usina Nuclear Angra 1 é uma das duas em operação no complexo localizado em Angra dos Reis (RJ)
Foto: Divulgação/Eletronuclear
Risco fiscal entra no PLDO de 2027
A avaliação consta no projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027, encaminhado na semana passada pelo governo ao Congresso Nacional.
A incerteza quanto à decisão definitiva acerca da conclusão do empreendimento de Angra 3 e aos eventuais custos decorrentes, bem como o descasamento temporal entre os investimentos requeridos e a geração de receitas (prevista para o longo prazo), mantém o risco fiscal no horizonte analisado
projeto do governo (PLDO)
O documento também destaca que a eventual materialização desse risco depende, entre outros pontos, da evolução das decisões de política pública setorial, da definição sobre a modelagem de Angra 3 e da capacidade de equacionar as fontes de financiamento. Segundo o texto, isso não configura, neste momento, obrigação fiscal certa ou determinada.
Vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), a ENBPar também controla a participação brasileira na Itaipu Binacional, que opera a usina pertencente ao Brasil e ao Paraguai.
Eletronuclear aponta custo elevado com Angra 3
A Eletronuclear gasta mais de R$ 1 bilhão por ano com a manutenção de Angra 3. No momento, a empresa espera obter algum fôlego financeiro com debêntures, mas a situação “estrutural” da estatal ainda precisa ser resolvida, segundo o presidente interino, Alexandre Caporal.
Em dezembro de 2025, ao g1, Caporal afirmou que a empresa não teria condições de sustentar o nível de despesas diante da indefinição sobre Angra 3. Em fevereiro deste ano, ele voltou a alertar que o caixa estava se esgotando e disse:
“Se não houver uma solução, seremos os Correios amanhã”, em referência à crise econômico-financeira dos Correios.
Quem controla a Eletronuclear
Apesar de ser estatal, a Eletronuclear tem uma estrutura acionária influenciada pela privatização da antiga Eletrobras e pela legislação que impõe controle estatal sobre a geração nuclear no Brasil. A companhia é uma sociedade de economia mista controlada pela ENBPar.
Após uma reorganização societária concluída entre 2022 e 2025, a ENBPar passou a deter 64,7% do capital votante da Eletronuclear, garantindo à União o comando estratégico da empresa.
O capital restante passou a ser detido pela Âmbar Energia, do grupo J&F, que adquiriu a participação que ainda estava com a Eletrobras, que passou a se chamar Axia após a privatização.
Realizada em outubro de 2025, a operação de venda da participação da Axis para a Âmbar foi estimada em aproximadamente R$ 535 milhões. Com o negócio, a Âmbar ficou com cerca de 36% do capital votante e 68% do capital total, assumindo também obrigações financeiras relevantes, como debêntures associadas ao projeto de Angra 3.
Déficit das estatais federais e recorte do Banco Central
Puxadas pela situação dos Correios, as estatais federais registraram, em 2025, um déficit de R$ 5,1 bilhões, o segundo pior resultado da história. No primeiro bimestre deste ano, o resultado negativo somou R$ 4,1 bilhões.
Segundo o Banco Central, o termo “déficit” indica que o gasto somado dessas estatais foi maior do que a receita gerada no período. A série divulgada não considera a Petrobras nem empresas do setor financeiro, como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste.
O BC também aponta que Petrobras e Eletrobras (privatizada em 2022) foram excluídas do cálculo das estatais federais em 2009, e que a série histórica anterior foi revisada com base na nova metodologia, válida de 2002 em diante.
Entram nesse cálculo empresas como Correios, Emgepron, Hemobrás, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev e Emgea.
O conceito do Banco Central considera apenas a variação da dívida, abordagem usada em análises fiscais internacionais. Já o governo adota o conceito conhecido por “acima da linha”, que corresponde a receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida.
Governo cita cenário da Infraero no PLDO
No documento enviado ao Congresso, o governo também trata da situação da Infraero. Embora não aponte necessidade de aporte neste momento, o PLDO registra que a redução da receita líquida de caixa pode afetar a sustentabilidade da empresa no longo prazo.
O texto menciona que a perspectiva de venda da participação da empresa no aeroporto do Galeão e o saldo de caixa e equivalentes de caixa de R$ 1,97 bilhão no encerramento de 2025 mitigam, no curto prazo, os riscos de eventual necessidade de aporte. Ainda assim, aponta que a continuidade de sucessivas reduções do saldo de caixa a cada exercício pode comprometer a sustentabilidade no longo prazo.
Nos últimos dois exercícios, a empresa registrou redução líquida de caixa e equivalentes. Nos últimos anos, a Infraero perdeu a administração de dezenas de aeroportos para concessionárias, o que diminuiu a receita.