Fundos da Reag e da Qore declaram bilhões em ações ligadas a CNPJ inexistente à CVM
Fundos liquidados da Reag informaram cerca de R$ 4,1 bilhões em ações atreladas a um CNPJ genérico e inexistente, enquanto veículos da Qore somam mais de R$ 100 milhões no mesmo padrão; apesar das inconsistências, fundos não estão entre os alvos formais da PF no caso Banco Master
26/01/2026 às 11:34por Redação Plox
26/01/2026 às 11:34
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
Fundos administrados pela Reag Trust, liquidados após suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master, declararam à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) participações em ações avaliadas em cerca de R$ 4,1 bilhões vinculadas a um CNPJ que não existe nos registros da Receita Federal. Nos informes, o cadastro aparece de forma genérica como “emitente geral”.
Foto: Reprodução
Mesmo CNPJ inexistente em 16 fundos da Reag
A coluna identificou 16 fundos sob gestão da Reag que registraram ações associadas ao mesmo CNPJ inválido. A liquidação extrajudicial da corretora foi anunciada pelo Banco Central em 15 de janeiro, em meio a investigações sobre sua atuação no mercado financeiro, em especial suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master.
Os documentos analisados têm por base informes referentes a maio e junho de 2025, que correspondem aos últimos balanços enviados à CVM pela própria Reag.
Nesses fundos, as posições foram declaradas como “ações”, categoria que indica investimentos diretos em empresas – geralmente companhias privadas, holdings ou sociedades de propósito específico (SPEs), estrutura usual em fundos de investimento em participações (FIPs).
Em operações desse tipo, a regulação determina que o emissor do ativo seja identificado com precisão, por meio de CNPJ válido e denominação social correspondente, mesmo quando se trata de empresas fechadas, sem registro em bolsa.
Nos informes remetidos à CVM, porém, diversas dessas participações aparecem atreladas a um cadastro genérico, descrito como “emitente geral” e associado a um CNPJ inexistente. O mesmo identificador é usado para registrar investimentos em companhias diferentes, com nomes distintos, o que dificulta a verificação pública sobre quem são, de fato, os emissores das ações declaradas.
Quais são os fundos que usaram o CNPJ inválido
Foram localizados 16 fundos administrados pela Reag que indicam o CNPJ inexistente como emissor das ações:
Benevento Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Abrantes Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Revolution Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Mapi Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Touring Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Mercado Municipal de SP – Fundo de Investimentos em Participações Multiestratégia
Termopilas Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Northuldra Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia de Responsabilidade Ilimitad
Hockenheim Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia de Responsabilidade Ilimitada
964 Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Abbiamo Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Flora Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Horeb Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Alpine Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Falcon Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
New Meta Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia
Fundos ficam à margem das investigações oficiais
Apesar das inconsistências nos informes, esses fundos não aparecem, oficialmente, entre os alvos das investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) em frentes que envolvem a Reag – nem na operação que apura ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), nem nas apurações sobre as relações da corretora com o Banco Master, ligado ao empresário Daniel Vorcaro.
Embora a maior concentração de participações com emissor não identificável esteja em veículos administrados pela Reag, a coluna verificou o mesmo padrão em fundos geridos por outras casas.
Qore também registra ações com CNPJ inválido
Em pelo menos três fundos administrados pela Qore Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, participações relevantes aparecem associadas ao mesmo CNPJ inexistente, identificado como “emitente geral”.
Em um desses casos, um fundo ligado à Qore informou à CVM ter praticamente todo o seu patrimônio aplicado em ações vinculadas a esse cadastro genérico. De acordo com o informe mais recente, o veículo atribuiu valor de mercado de aproximadamente R$ 54,3 milhões a papéis de empresas sem indicação de um emissor juridicamente identificável.
Os outros dois fundos também registram, sob o mesmo CNPJ inválido, participações em ações descritas de forma semelhante àquela declarada por fundos administrados pela Reag. Nesses casos, os investimentos somam cerca de R$ 49 milhões, igualmente sem identificação válida dos emissores.
Nos três fundos, as posições aparecem classificadas como “ações”, o que reforça o caráter de investimento direto em empresas.
Responsabilidade de administradores, diz CVM
Em nota, a CVM afirmou que cabe aos administradores dos fundos fornecer corretamente os dados constantes nos informes periódicos encaminhados à autarquia.
No que se refere aos informes periódicos encaminhados por fundos de investimento, as áreas técnicas responsáveis tornam públicas as informações remetidas pelos administradores, nos termos da regulamentação vigente. A elaboração e o envio corretos desses documentos constituem dever regulatório dos administradores.
CVM
A autarquia acrescentou que inconsistências desse tipo, quando detectadas no âmbito das atividades de supervisão, podem levar à adoção das “providências cabíveis” pelas áreas técnicas competentes, conforme as particularidades de cada situação.
Segundo a CVM, a identificação dos emissores de ativos deve ser feita por meio de CNPJ válido ou, no caso de emissores estrangeiros, por identificador equivalente, inclusive quando se trata de empresas privadas, não listadas ou sediadas no exterior.