Em carta aberta, Kanye West se desculpa por apologia ao nazismo e diz ter “perdido contato com a realidade”
Em carta paga no Wall Street Journal, Kanye West, agora Ye, atribui manifestações extremistas a transtorno bipolar e lesão cerebral, admite uso de símbolos nazistas e pede desculpas às comunidades judaica e negra enquanto tenta retomar a carreira
26/01/2026 às 12:45por Redação Plox
26/01/2026 às 12:45
— por Redação Plox
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Kanye West publicou nesta segunda-feira (26) uma carta paga no jornal Wall Street Journal, na qual pede desculpas “a quem ele magoou” ao fazer apologia ao nazismo. Segundo a revista “Vanity Fair”, o anúncio foi financiado por sua marca de roupas, a Yeezy. O texto é divulgado às vésperas do lançamento de um novo álbum, previsto para sexta-feira (30), e traz um pedido público de perdão, além de detalhes sobre sua saúde mental.
Músico publicou anúncio no Wall Street Journal, dizendo que teve 'longo episódio de mania' com um comportamento 'psicótico, paranoico e impulsivo que destruiu sua vida'.
Foto: Reprodução/Twitter/kanyewest
Na carta, o artista, que agora assina como Ye, afirma que não é antissemita, se diz envergonhado pelas próprias ações e relata um longo histórico de problemas psiquiátricos, que, segundo ele, teriam sido agravados por uma lesão cerebral antiga e por um diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1.
Pedido de desculpas após apologia ao nazismo
Ye tenta responder à repercussão de uma série de declarações em que expressou simpatia por nazistas e por Adolf Hitler. Desde 2022, o rapper já havia dito ter “amor” pelos nazistas, passou a vender produtos com suásticas e lançou uma faixa intitulada “Heil Hitler”. As manifestações resultaram em rompimentos de contratos com grandes marcas, perda de patrimônio e restrições para apresentações em diversos países, incluindo o Brasil.
No ano passado, um show que faria em São Paulo foi cancelado após reação pública. Houve manifestação do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e abertura de inquérito pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). A gestão municipal afirmou que a cidade não autorizaria o uso de equipamentos públicos por artistas que fizessem apologia ao nazismo.
Na carta publicada no jornal norte-americano, Kanye diz que suas atitudes ocorreram em um “estado fragmentado” e admite ter se aproximado deliberadamente de símbolos extremistas como a suástica, inclusive comercializando camisetas com o emblema.
Acidente, lesão cerebral e diagnóstico de transtorno bipolar
Ye volta duas décadas no tempo para contextualizar o que chama de trajetória de adoecimento. Ele lembra um acidente de carro sofrido há 25 anos, que quebrou sua mandíbula e, segundo relata, provocou uma lesão no lobo frontal direito do cérebro. Na época, afirma, a atenção médica teria se concentrado apenas nos danos físicos visíveis, deixando de lado possíveis consequências neurológicas.
De acordo com o músico, essa lesão cerebral só teria sido diagnosticada adequadamente em 2023. Ele atribui a essa “falha médica” um impacto profundo em sua saúde mental e a consequente confirmação do transtorno bipolar tipo 1. O texto descreve o quadro como uma condição grave, marcada por episódios maníacos em que o paciente, segundo ele, não reconhece estar doente.
Na carta, Ye diz que a mania oferece uma sensação enganosa de clareza e poder, ao mesmo tempo em que o afasta da realidade. Ele comenta ainda o estigma em torno dos transtornos mentais, reforçando que se trata de uma doença séria e potencialmente letal, com expectativa de vida reduzida e maior taxa de mortalidade em comparação à população em geral.
Aproximação de símbolos nazistas e arrependimento
Ao descrever sua fase mais controversa, Ye afirma que, nesse “estado fragmentado”, passou a buscar deliberadamente “o símbolo mais destrutivo” que poderia encontrar: a suástica. Ele relata ter vendido camisetas com o símbolo e fala em “momentos desconectados” associados ao transtorno bipolar, marcados por julgamentos ruins e comportamentos impulsivos, que descreve como experiências “fora do corpo”.
O artista admite ter magoado pessoas próximas e diz que algumas das pessoas que mais ama foram tratadas da “pior forma” durante seus episódios. Em diversos trechos, ele menciona a perda de contato com a realidade, o agravamento do quadro à medida que ignorava o problema e o peso emocional imposto a familiares, amigos e equipe.
Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu.
Ye
Ye também se dirige especificamente à comunidade negra, que define como a base de sua identidade, pedindo desculpas por tê-la decepcionado e reiterando seu vínculo com esse público.
Episódios maníacos e crise recente
O músico afirma que, no início de 2025, viveu um episódio maníaco de quatro meses, marcado por comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que, segundo ele, “destruiu” sua vida. Nesse período, disseminou discursos de ódio nas redes sociais e passou por uma crise tão intensa que, como relata, houve momentos em que não queria mais continuar vivo.
Ele descreve o transtorno bipolar como um estado de “doença mental constante”, no qual o impacto é mais sentido quando o episódio agudo passa e o indivíduo se confronta com os danos provocados. Ye ressalta a importância do apoio familiar e diz que foi incentivado pela esposa a buscar ajuda especializada quando chegou ao “fundo do poço”.
Na carta, o artista conta que encontrou algum conforto em relatos de outras pessoas com transtorno bipolar em fóruns no Reddit. Ao ler histórias semelhantes, diz ter percebido que não estava sozinho e que não era o único a “destruir a própria vida inteira uma vez por ano”, mesmo em tratamento medicamentoso.
Tratamento, retomada da carreira e pedido de compreensão
Ye critica diagnósticos anteriores que, segundo ele, descartavam a bipolaridade e atribuíram seus sintomas a outras condições. Ao mesmo tempo, reconhece que, como figura pública e líder em sua comunidade, suas palavras têm impacto global e que, em meio à mania, perdeu completamente a noção dessa responsabilidade.
Ele afirma estar agora em um processo de reconstrução, com um “regime eficaz” de medicação, terapia, exercícios e um estilo de vida mais saudável. Diz ter encontrado uma nova base e um novo centro, e declara que está canalizando sua energia para uma arte “positiva e significativa”, incluindo música, moda, design e “novas ideias para ajudar o mundo”.
No encerramento do texto, Ye enfatiza que não busca simpatia nem um “passe livre”, embora aspire ser perdoado. Seu apelo é por paciência e compreensão enquanto tenta, nas próprias palavras, encontrar “o caminho de volta para casa” e retomar uma vida em que consiga conciliar saúde mental e carreira artística.