BC mantém projeção de PIB de 2026 em 1,6% e cita risco de conflito no Oriente Médio

Relatório de Política Monetária aponta maior incerteza externa, possibilidade de pressão sobre preços e revisa estimativas para crédito e transações correntes.

26/03/2026 às 14:41 por Redação Plox

O Banco Central (BC) manteve em 1,6% a projeção de crescimento da economia brasileira em 2026. No Relatório de Política Monetária, divulgado nesta quinta-feira (26), a autarquia alertou, porém, que a estimativa para o Produto Interno Bruto (PIB) está sujeita a “maior incerteza” diante de possíveis efeitos dos conflitos no Oriente Médio.


Banco Central alerta para incertezas na economia, caso o conflito no Oriente Médio se prolongue.

Foto: Marcelo Casal JR / agência Brasil


O documento aponta que, caso o conflito se prolongue, os impactos predominantes podem se assemelhar a um choque negativo de oferta, com pressão sobre preços e redução do ritmo de crescimento, ainda que alguns setores possam se beneficiar, especialmente o petrolífero.

Se prolongado [o conflito], seus impactos predominantes, no país e no exterior, devem ser consistentes com um choque negativo de oferta, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento, ainda que alguns setores da economia brasileira, especialmente o petrolífero, possam se beneficiar

Relatório do Banco Central

O BC também avalia que, se a distribuição de mercadorias continuar interrompida e a capacidade de produção permanecer reduzida por um período longo na região, os efeitos sobre preços e atividade podem ser duradouros e relevantes.

Projeção para o PIB e condicionantes do cenário

A projeção de 1,6% para 2026 é a mesma apresentada no relatório de dezembro. Segundo o BC, a estabilidade do número reflete o resultado do quarto trimestre de 2025, considerado próximo ao esperado, e a manutenção da perspectiva de expansão trimestral moderada ao longo de 2026.

O cenário, de acordo com a autarquia, é condicionado pela expectativa de política monetária em campo restritivo, pelo baixo nível de ociosidade dos fatores de produção, pela perspectiva de desaceleração da economia global e pela ausência do impulso agropecuário observado em 2025.

Em 2025, o PIB do Brasil fechou em 2,3%, com expansão em todas as atividades, mas puxado principalmente pela agropecuária.

Para 2026, o BC também incorpora estimativas dos efeitos de medidas recentes com potencial de sustentar a demanda doméstica, como o aumento real do salário mínimo e a isenção ou o desconto no Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para quem ganha até R$ 5 mil ou R$ 7 mil. No mesmo sentido, o relatório registra que o mercado de trabalho segue aquecido, com queda do desemprego e aumento dos salários.

Juros, Copom e incertezas no cenário internacional

O Relatório de Política Monetária reúne diretrizes das políticas adotadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para definir a taxa básica de juros, a Selic, e avalia a evolução recente e as perspectivas da economia, especialmente as projeções de inflação. A Selic é o principal instrumento do BC para manter a inflação sob controle.

De setembro de 2024 a junho de 2025, a Selic foi elevada sete vezes seguidas. Nas cinco reuniões seguintes do Copom, a taxa foi mantida em 15% ao ano. Na semana passada, após esse período, foi reduzida para 14,75% ao ano.

Diante das incertezas provocadas pelo conflito no Oriente Médio, o BC não descarta rever o ciclo de baixa, caso seja necessário.

Inflação deve subir até o fim de 2026 e recuar até 2028

O BC projeta que a inflação deve subir até o fim de 2026 e retomar a trajetória de queda até o horizonte relevante, mas ainda permanecendo acima da meta. A meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CNM) é 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo (de 1,5% a 4,5%).

Segundo a autarquia, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referência oficial da inflação no país, deve terminar o ano em 3,6%, “em boa medida advinda do aumento dos preços do petróleo”.

O relatório indica ainda que a probabilidade de a inflação estourar o teto da meta (4,5%) em 2026 subiu de 23% para 30%.

De acordo com o documento, a partir do ano que vem a inflação volta a cair, chegando a 3,1% no último período considerado, referente ao terceiro trimestre de 2028. No horizonte relevante de política monetária, o terceiro trimestre de 2027, a inflação projetada é 3,3%.

Crédito cresce mais na projeção, mas desacelera pelo segundo ano

A projeção para o crescimento do saldo do crédito ofertado para pessoas físicas e empresas em 2026 aumentou de 8,6% para 9%. O avanço é puxado principalmente pelo desempenho acima do esperado do crédito livre a pessoas físicas e do direcionado a pessoas jurídicas, cujas projeções subiram 0,5 ponto percentual, para 9,5% e 11,5%, respectivamente.

No crédito livre, os bancos têm autonomia para emprestar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros cobradas. Já o crédito direcionado, com regras definidas pelo governo, é destinado principalmente aos setores habitacional, rural, de infraestrutura e ao microcrédito.

Apesar da revisão para cima, o BC afirma que a estimativa atualizada ainda aponta desaceleração do crédito pelo segundo ano consecutivo. O saldo do crédito no Sistema Financeiro Nacional (SFN) cresceu 10,3% em 2025, abaixo da variação de 11,5% registrada em 2024.

Contas externas: déficit menor e influência do petróleo

A projeção de déficit em transações correntes em 2026 foi reduzida em relação ao relatório anterior, passando de R$ 60 bilhões para US$ 58 bilhões (2,2% do PIB). Segundo o BC, a mudança reflete melhora na projeção do saldo comercial, sustentada por crescimento das exportações superior ao das importações.

A elevação do valor projetado para as exportações resulta da combinação de ligeiro aumento do volume esperado e, principalmente, da perspectiva de preços mais altos. O BC atribui a principal mudança em relação ao relatório de dezembro à alta dos preços de combustíveis como resultado do conflito no Oriente Médio, com impacto na projeção de exportação de petróleo.

O BC estima que esse déficit externo será financiado por capitais de longo prazo, sobretudo por investimentos diretos no país (IDP), com projeção de fluxo líquido de entrada de US$ 70 bilhões (2,7% do PIB).

Ao mesmo tempo, a autarquia aponta que o conflito no Oriente Médio eleva os riscos e a incerteza com a redução do fluxo comercial no Estreito de Ormuz, com possíveis repercussões no comércio internacional, nas cadeias de produção e nas condições financeiras globais.

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