Carrefour, Kalunga e Casas Bahia são alvo de nova fase de operação do MPSP sobre créditos de ICMS na Sefaz-SP
Investigação aponta auditor como principal operador de esquema bilionário e cita movimentação de mais de R$ 1 bilhão em propinas; ação cumpre 22 mandados em cidades do estado
26/03/2026 às 14:30por Redação Plox
26/03/2026 às 14:30
— por Redação Plox
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Carrefour, Kalunga, Casas Bahia, Caoa e Center Castilho são alvo de uma nova fase de operação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que apura um esquema bilionário de corrupção na liberação de créditos de ICMS na Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz-SP). A ação foi divulgada nesta quinta-feira (26).
Segundo a investigação, o auditor Artur Gomes da Silva Neto foi apontado como principal operador do esquema e atuava como “coringa” na liberação indevida de créditos, movimentando mais de R$ 1 bilhão em propinas por meio de uma empresa de fachada, de acordo com o MPSP.
Sefaz-SP diz atuar em conjunto com o MPSP
Em nota, a Sefaz-SP, subordinada ao governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e comandada por Samuel Kinoshita, afirmou que trabalha em conjunto com o MPSP por meio da Corfisp (Corregedoria da Fiscalização Tributária). Procurado por email às 9h pela Folhapress, o Carrefour não se manifestou. Kalunga, Casas Bahia e Caoa foram procuradas por email às 10h, mas não responderam até a publicação. A defesa de Silva Neto também não respondeu, e representantes da Center Castilho não foram localizados.
Casas Bahia
Foto: Foto: Casas Bahia / Divulgação
Promotoria aponta contato entre auditor e executiva do Carrefour
De acordo com o MPSP, a chefe de tributos e responsável pela área de economia tributária do Carrefour, Luciene Petroni Castro Neves, teria mantido contato intenso com o auditor entre julho de 2021 e agosto de 2025. Nesse período, segundo a promotoria, o fiscal teria prestado uma “verdadeira assessoria tributária criminosa” à executiva.
Mensagens de WhatsApp interceptadas, ainda segundo o MPSP, indicam que o auditor orientava a rede varejista sobre documentos, agilizando procedimentos de ressarcimento de ICMS-ST e chegando a conceder créditos em desacordo com a legislação, o que, para os investigadores, apontaria tratamento privilegiado ao Carrefour.
O MPSP afirma que o grupo de Silva Neto usava aplicativos como Wickr e Session para dificultar o rastreio das negociações ilícitas, citando recursos como criptografia e mensagens de visualização única. A reportagem enviou mensagem para a executiva via LinkedIn, mas não obteve resposta.
Para os promotores, Luciene, por ser a principal responsável pela gestão fiscal e compliance do Carrefour, teria participado de uma estrutura destinada a favorecer a empresa, com possível pagamento de propinas e lavagem de ativos.
Mandados e apreensões em cidades paulistas
A Operação Fisco Paralelo, conduzida pelo Gedec (Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos), é desdobramento da Operação Ícaro. Ao todo, são cumpridos 22 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Vinhedo e São José dos Campos, com foco em endereços ligados a servidores de unidades consideradas estratégicas.
Entre os locais mencionados estão as Delegacias Regionais Tributárias da Lapa (Capital 2), Butantã (Capital 3), ABCD (DRT-12), Osasco (DRT-14) e a própria Diretoria de Fiscalização (Difis).
Em Campinas, foram apreendidos quase R$ 22 mil em espécie, US$ 1.800 e 95 libras, além de três computadores e três celulares com senhas fornecidas. A Sefaz-SP informou que há 33 procedimentos administrativos em andamento para apurar possíveis irregularidades envolvendo servidores, que podem resultar em sanções, inclusive demissão.
Em outra frente, a secretaria afirma atuar de forma integrada no combate à sonegação, à lavagem de dinheiro e a crimes contra a ordem tributária por meio do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA-SP).
Operações anteriores e ampliação do foco da investigação
A Operação Ícaro teve início em agosto de 2025 e apontou um esquema bilionário de corrupção fiscal, com pagamento de propinas a auditores para acelerar e inflar a liberação de créditos de ICMS-ST para grandes redes varejistas, como Ultrafarma e Fast Shop.
Agora, segundo o MPSP, a Operação Fisco Paralelo amplia o alcance da apuração a outros servidores e unidades da Fazenda, indicando uma estrutura de corrupção mais ramificada, voltada à manipulação de procedimentos fiscais e ao pagamento de propina. O objetivo, de acordo com a promotoria, é reunir novas evidências e documentos para esclarecer o funcionamento da rede dentro do fisco paulista.
Há duas semanas, o MPSP deflagrou a Operação Mágico de Oz para investigar um suposto esquema de corrupção ligado à arrecadação do ICMS em Osasco, na Grande São Paulo, com foco em servidores, empresários e intermediários suspeitos de manipular processos fiscais para favorecer empresas mediante propina.
No mês passado, em outra operação, o MPSP informou ter apreendido cerca de US$ 68 mil (cerca de R$ 354 mil) e R$ 288 mil em espécie na Delegacia Regional Tributária do Butantã, na zona oeste da capital. Também foram bloqueados criptoativos avaliados em aproximadamente R$ 1,8 milhão, mantidos em bitcoins. O material será periciado e submetido a análise financeira para apurar a origem dos recursos e eventual vínculo com o esquema investigado, totalizando R$ 2,4 milhões em ativos apreendidos.