Banco Master mantém contratos milionários com bancas ligadas a Lewandowski e Moraes
Serviços jurídicos à instituição financeira seguiram mesmo após Lewandowski se afastar formalmente da banca, que permaneceu sob comando da esposa e do filho
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), esteve ao menos duas vezes na mansão do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em Brasília. Em uma dessas ocasiões, ele participou de um encontro com o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, segundo revelou reportagem do portal “Metrópoles”.
Alexandre de Moraes: esposa do ministro do STF firmou contrato milionário com o Banco Master
Foto: Rosinei Coutinho/STF
A informação foi divulgada nesta terça-feira (27/1) pela colunista Andreza Matais. De acordo com o portal, foi na casa de Vorcaro que Moraes conheceu Paulo Henrique. O encontro ocorreu em um fim de semana do primeiro semestre de 2025.
Segundo a reportagem, Vorcaro pediu que o então presidente do BRB fosse até a mansão porque “o homem estava lá”. O “Metrópoles” afirma que a reunião foi confirmada e detalhada por quatro pessoas que estavam na residência do banqueiro. Moraes teria chegado acompanhado de um assessor, conforme essas fontes.
Ao entrar no imóvel, Paulo Henrique foi apresentado a Moraes, que se encontrava em uma área reservada da casa, de acordo com os relatos ouvidos pelo portal. Naquele período, o Banco Master estava em processo de venda para o BRB.
De acordo com o site, durante o encontro, Moraes e o então chefe do BRB trataram da operação de compra. A negociação era defendida publicamente pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), que chegou a atacar críticos do negócio.
Apesar do apoio político, especialistas do mercado financeiro e técnicos do Banco Central apontaram riscos elevados na aquisição. Auditores recomendaram a liquidação do Master, decisão que foi efetivada em 18 de novembro de 2025.
O “Metrópoles” também relata que aquele fim de semana com Paulo Henrique não foi a única visita de Alexandre de Moraes à mansão de Vorcaro. Em outra ocasião, o ministro teria acompanhado, no imóvel, a apuração da eleição norte-americana de 6 de novembro de 2024, que resultou na vitória de Donald Trump para um segundo mandato na Presidência dos Estados Unidos.
Nessa noite, segundo relatos ao portal, Moraes permaneceu na mesma área reservada da casa, fumando charutos e consumindo vinhos caros e raros. Vorcaro é descrito como colecionador de destilados e vinhos.
Procurado pelo “Metrópoles”, Moraes não havia se manifestado sobre as informações até a última atualização da reportagem. Vorcaro e Paulo Henrique também foram ouvidos e informaram que não comentariam o caso.
Em 16 de janeiro de 2024, o Banco Master firmou contrato de R$ 129 milhões com o escritório de advocacia da esposa de Moraes. Após a revelação do acordo, o ministro divulgou nota em que afirmou que nem ele nem o escritório atuaram para reverter a liquidação do banco por meio da venda ao BRB.
Em depoimento à Polícia Federal (PF), Vorcaro foi questionado sobre quem frequentava sua residência em Brasília e citou apenas o governador Ibaneis Rocha.
O caso do Banco Master está sob relatoria do ministro Dias Toffoli no STF e tem motivado questionamentos sobre sua atuação, em meio à revelação de vínculos de familiares do ministro com pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.
Reportagens apontaram que dois irmãos de Toffoli foram sócios de um resort no Paraná e venderam sua participação a um fundo associado ao cunhado de Vorcaro, que chegou a ser preso pela PF e, posteriormente, passou a usar tornozeleira eletrônica.
Por decisão monocrática, Toffoli retirou o caso Master da primeira instância. Como relator, tomou medidas consideradas incomuns, como determinar que todo o material apreendido pela PF em operação fosse enviado diretamente ao STF, sem perícia prévia, procedimento que costuma ser adotado nesses casos.
Em entrevista ao jornal “O Globo”, publicada nesta terça-feira (27/1), o presidente do STF, Edson Fachin, foi questionado sobre as relações de parentes de Toffoli com Vorcaro e sobre as condições de permanência do ministro à frente da investigação. Fachin afirmou que só poderá agir se o tema chegar ao colegiado.
Como presidente do tribunal, não posso antecipar juízo sobre circunstâncias que eventualmente serão apreciadas pelo colegiado. Parte do que foi mencionado envolve atos não jurisdicionais. Mas uma coisa é certa: quando for necessário atuar, eu não vou cruzar os braços. Doa a quem doer.
Edson Fachin
Fachin também comentou as críticas à nota divulgada pela presidência do STF em defesa de Toffoli e da própria Corte. Ele afirmou que uma manifestação institucional tem como objetivo principal proteger a “institucionalidade” do tribunal.
Segundo o presidente do STF, naquela ocasião a nota buscou defender a regularidade da atuação jurisdicional durante o recesso, destacando que o relator foi designado por sorteio aleatório e optou por seguir trabalhando. Fachin disse ainda ter enfatizado a autonomia técnica de órgãos como Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público, responsáveis, respectivamente, por regular o sistema financeiro, investigar e exercer o controle penal.
Ele reforçou que cabe à PF conduzir investigações com transparência, ao Ministério Público cumprir integralmente suas atribuições e que nem o Supremo nem seus ministros estão imunes a críticas. As diferentes interpretações sobre a nota foram classificadas como legítimas.
Questionado sobre a possibilidade de outros ministros avaliarem a manutenção do caso Master no STF ou uma eventual devolução do processo à primeira instância, Fachin descreveu o trâmite interno previsto no regimento da Corte. Segundo ele, eventuais alegações de irregularidade devem ser analisadas pelo colegiado competente. Em caso de recurso ou contestação de interessados, o tema é submetido ao órgão colegiado, que ouvirá as razões do relator e tomará a decisão. Pela regra, a avaliação caberia à Segunda Turma, da qual Toffoli faz parte.
Na entrevista, Fachin também defendeu a adoção de um código de conduta para ministros do Supremo. Ele avaliou que, após 37 anos da Constituição de 1988, o tribunal alcançou maturidade institucional para estabelecer regras claras de comportamento, em um contexto de maior visibilidade pública ampliada, inclusive, pela TV Justiça.
Para o presidente do STF, um código de conduta pode fortalecer a Corte ao reforçar sua legitimidade e aumentar a confiança da sociedade. Ele argumentou que respostas a cobranças por transparência não podem ser improvisadas nem direcionadas a casos específicos.
Fachin citou como exemplo a necessidade de detalhamento institucional sobre palestras ministradas por ministros — incluindo local, quem convidou, quem patrocinou e se houve pagamento. Na sua avaliação, essas informações devem ser tratadas por regras estáveis e gerais, e não de forma casuística.
Ele reconheceu que há resistências internas à implementação do código, ligadas principalmente ao momento político, já que alguns ministros defendem que a discussão seja adiada para depois do período eleitoral. Fachin afirmou respeitar essas posições, mas disse discordar, argumentando que o país vive em ciclo contínuo de disputas eleitorais e que o debate público é inerente à democracia.
O presidente do STF relatou que o diálogo com os demais ministros sobre o tema tem sido “bom” e “positivo”, com troca de sugestões, ideias e contrapontos. Segundo ele, essas contribuições têm sido relevantes para o aprimoramento da proposta e o objetivo é avançar na construção de um modelo de conduta duradouro.
Fachin mencionou ainda a proposta de código de conduta encaminhada pela seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP). Ele disse que ainda não analisou o documento em detalhes, mas classificou a iniciativa como salutar, destacando a participação, na comissão responsável, de ministros aposentados, professores e ex-integrantes do Ministério da Justiça.