Setor público tem superávit primário de R$ 103,7 bilhões em janeiro, aponta BC

Resultado veio ligeiramente abaixo do registrado em janeiro do ano anterior e ocorreu com déficit no governo federal e piora nas estatais em meio à crise dos Correios

27/02/2026 às 09:21 por Redação Plox

O setor público consolidado registrou superávit primário de R$ 103,7 bilhões em janeiro, segundo o Banco Central (BC). O resultado representa a diferença positiva entre receitas de tributos e impostos e as despesas do governo, sem considerar o pagamento de juros da dívida pública. Entram nesse cálculo o governo federal, estados, municípios e empresas estatais.


Contas públicas têm superávit acima de R$ 100 bilhões em janeiro

Contas públicas têm superávit acima de R$ 100 bilhões em janeiro

Foto: Freepik


Na comparação com janeiro do ano passado, houve leve piora: no início de 2025, o saldo positivo havia sido de R$ 104,1 bilhões. Apesar disso, superávits elevados no começo do ano são comuns, por causa da forte concentração da arrecadação federal em janeiro.

Desempenho por esfera de governo

O resultado de janeiro de 2026 foi formado pelos seguintes desempenhos:

  • • Governo federal: déficit de R$ 87,3 bilhões.
  • • Estados e municípios: superávit de R$ 21,3 bilhões.
  • • Empresas estatais: déficit de R$ 4,9 bilhões.

Embora o saldo consolidado tenha sido positivo, houve forte deterioração nas contas das empresas estatais federais, em um momento de crise contábil nos Correios.

Resultado nominal e impacto dos juros

Quando se incluem os juros da dívida pública, no chamado resultado nominal — conceito usado para comparações internacionais —, o setor público apresentou superávit de R$ 40,1 bilhões em janeiro.

No acumulado em 12 meses até janeiro, porém, o quadro é de déficit: R$ 1,09 trilhão, o equivalente a 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse indicador é acompanhado de perto por agências de classificação de risco para a definição da nota de crédito dos países, usada por investidores.

O resultado nominal é influenciado pelo saldo fiscal mensal, pelas intervenções do BC no mercado de câmbio e pelo nível da taxa básica de juros (Selic), fixada pela instituição para conter a inflação. A Selic está em 15% ao ano, o maior patamar em quase duas décadas.

De acordo com o BC, as despesas com juros nominais somaram R$ 1,03 trilhão em 12 meses até janeiro, o que corresponde a 8,1% do PIB.

Dívida pública em patamar elevado

Mesmo com o forte superávit primário de janeiro, a dívida bruta do setor público consolidado permaneceu estável em 78,7% do PIB, o equivalente a R$ 10,1 trilhões. A relação com o PIB é considerada por especialistas o parâmetro mais adequado para medir e comparar o endividamento entre países, seguindo metodologia adotada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Esse é o maior nível da dívida brasileira desde novembro de 2025, quando o indicador ficou em 79% do PIB (dado revisado).

Desde o início do atual governo, a dívida avançou 7,1 pontos percentuais em pouco mais de três anos, movimento associado principalmente ao aumento dos gastos públicos.

Na metodologia do FMI, que inclui os títulos públicos em poder do BC, o endividamento brasileiro foi ainda maior em janeiro: 92,7% do PIB. Acima de 90% do PIB, o nível da dívida do país supera o de outras economias emergentes e de nações da América do Sul, e fica também acima da média dos países da Zona do Euro, conforme dados do FMI.

Rombo histórico nas estatais federais

Apesar do bom desempenho das contas públicas no início do ano, favorecido pela arrecadação recorde em janeiro de 2026, as empresas estatais federais registraram déficit de R$ 3,33 bilhões.

Trata-se do pior resultado da série do Banco Central iniciada em dezembro de 2001, embora os valores não estejam corrigidos pela inflação, o que limita a comparação histórica. Em proporção do PIB, o déficit das estatais somou 0,33% em janeiro, o maior patamar desde maio de 2009, quando chegou a 0,36% do PIB.

O BC não detalha o desempenho por empresa, mas o resultado negativo ocorre em meio à forte crise financeira dos Correios, que vem registrando piora em suas contas. A estatal detém monopólio em serviços como recebimento, transporte e entrega de cartas e cartões-postais, além da fabricação de selos.

Nesta quinta-feira, o governo ampliou a margem para que os Correios contratem novos empréstimos com garantia da União. Com a decisão, a empresa poderá captar mais R$ 8 bilhões com aval federal. No fim do ano passado, a estatal já havia tomado R$ 12 bilhões em financiamentos com garantia da União.

Quem entra no cálculo das estatais

A série do BC para as estatais federais, iniciada em dezembro de 2001, não inclui Petrobras, Eletrobras nem bancos públicos e demais empresas do setor financeiro.

O BC informa que Petrobras e Eletrobras foram excluídas do cálculo a partir de 2009, mas toda a série anterior foi revisada com a nova metodologia, válida a partir de 2002.

Entram nas contas das estatais federais empresas como Correios, Emgepron, Hemobrás, Casa da Moeda, Infraero, Serpro, Dataprev e Emgea.

O conceito utilizado pelo Banco Central considera apenas a variação da dívida, padrão amplamente adotado em análises fiscais internacionais. Já o governo trabalha com o critério conhecido como “acima da linha”, que mede receitas menos despesas, sem incluir juros da dívida.

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