Margens de distribuidoras e postos sobem mais de 30% mesmo após medidas do governo
Levantamento do Ibeps indica alta nas margens desde 28 de fevereiro, enquanto diesel e gasolina acumulam reajustes e pressionam custos na economia
27/03/2026 às 06:04por Redação Plox
27/03/2026 às 06:04
— por Redação Plox
Compartilhe a notícia:
Distribuidoras e postos de combustíveis vêm ampliando suas margens de lucro mesmo após medidas anunciadas pelo governo para tentar conter os efeitos do conflito no Oriente Médio e da alta do petróleo.
Carro sendo abastecido em posto de combustíveis
Foto: Freepik4
Medidas anunciadas pelo governo
Nas últimas semanas, o governo anunciou a isenção de impostos federais sobre o diesel, o aumento do imposto de exportação sobre o petróleo, um incentivo financeiro a produtores e importadores (subvenção) e ações para fiscalizar o repasse dessas medidas ao consumidor.
Levantamento aponta alta média de mais de 30% nas margens
Apesar dessas iniciativas, um levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) indica que, desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, as margens de lucro de distribuidoras e postos cresceram, em média, mais de 30% em produtos como diesel S-10, diesel S-500 e gasolina comum.
No período, o diesel S-500 — usado principalmente por veículos mais antigos — teve alta de 71,6% na margem de lucro. No diesel S-10, associado a veículos mais novos, o aumento foi de 45%. Já na gasolina comum, a margem subiu 32,2%.
Segundo o texto, os dados utilizados são do Ministério de Minas e Energia (MME), no Relatório Mensal do Mercado de Derivados de Petróleo.
Alta das margens vem desde 2021, diz o Ibeps
Embora o movimento recente acompanhe a disparada dos preços do petróleo no mercado internacional durante a guerra, o Ibeps afirma que o aumento das margens de distribuidoras e postos ocorre desde 2021.
Na comparação com 2021, o avanço é ainda maior. No diesel S-500, a alta chega a 238,8%. No diesel S-10, o aumento foi de 111,8%. Na gasolina comum, a margem subiu 90,7%.
Economista aponta dois fatores para o avanço
De acordo com o economista do Ibeps Eric Gil Dantas, dois fatores explicam o crescimento das margens ao longo do tempo.
O primeiro, segundo ele, foi a alta de preços entre 2021 e 2022, quando os derivados atingiram os maiores valores reais da história do país. Naquele período, a Petrobras adotava o Preço de Paridade de Importação (PPI), política que simulava o preço de importação e trouxe grande volatilidade ao mercado, com reajustes para cima e para baixo.
Essa tendência de alta, junto com a volatilidade dos preços e a perda de referência para os consumidores, permitiu que as margens crescessem sem serem percebidas. Mas isso não acabou com o período de maior volatilidade: as margens continuaram subindo ao longo de 2023, mesmo com poucos reajustes
Eric Gil Dantas
O segundo fator, diz Dantas, foi a privatização da BR Distribuidora e da Liquigás, descritas como as únicas estatais em setores altamente concentrados. Segundo o economista, com isso se perdeu a possibilidade de manter margens mais próximas do aceitável, já que BR e Liquigás tinham poder para influenciar esses parâmetros.
Entidades do setor
Questionada sobre o aumento das margens e sobre a possibilidade de o setor se beneficiar de choques nos preços internacionais do petróleo, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) não respondeu até a publicação da reportagem.
Já a Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) afirmou que não se manifesta sobre a formação de preços, por considerar o tema uma questão estratégica de cada associada, sem interferência da entidade.
Como a alta do petróleo afeta a economia brasileira
Desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, o preço do petróleo ultrapassou US$ 100 por barril, no maior nível desde fevereiro de 2022, quando começou o conflito entre Rússia e Ucrânia.
A alta recente ocorre porque a guerra envolve países localizados em rotas estratégicas para a produção e o transporte de petróleo e gás. O Irã controla o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Com o fluxo na região muito reduzido por conta do conflito e a menor oferta mundial, os preços sobem no mercado internacional.
O petróleo mais caro também pressiona os derivados. O diesel, considerado fundamental para a logística da economia brasileira, tende a espalhar o aumento de custos do transporte para alimentos, produtos industriais e serviços.
Na semana passada, um levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) indicou que o preço médio do litro do diesel nos postos do país subiu quase 20% em cerca de 15 dias. O número, segundo o texto, será atualizado pela agência nesta sexta-feira (27).
Reflexos no agro e na energia
Além do transporte, o agronegócio é afetado pelo custo de operação das máquinas agrícolas e pelo encarecimento dos fertilizantes químicos, que representam uma parcela relevante das importações brasileiras vindas do Irã.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) apontam que adubos e fertilizantes químicos responderam por 93,5% do total importado pelo Brasil do país do Oriente Médio em janeiro deste ano.
Há impacto também na produção de energia elétrica, especialmente nas termelétricas, que geram energia a partir de combustíveis e costumam ser acionadas em períodos de seca, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam mais baixos.