Espanhola morre após eutanásia legal quatro dias depois de última entrevista

Noelia Castillo relatou solidão, dores constantes e desgaste emocional; Justiça espanhola manteve que ela atendia aos critérios legais para o procedimento

27/03/2026 às 06:40 por Redação Plox

A espanhola Noelia Castillo morreu nesta quinta-feira (26) após passar por uma eutanásia legalmente autorizada. Quatro dias antes do procedimento, ela concedeu sua última e única entrevista à emissora espanhola Antena 3.

Na conversa, Noelia falou sobre o desejo de encerrar o sofrimento e sobre a reação da família diante da decisão.


A espanhola Noelia Castillo, que entrou na Justiça para ter acesso à eutanásia

A espanhola Noelia Castillo, que entrou na Justiça para ter acesso à eutanásia

Foto: Reprodução/Antena 3


Eles me dizem: ‘Você vai embora e nós ficamos aqui com toda a dor da sua partida’, mas eu penso: e toda a dor que eu já sofri? Só quero ir embora em paz e deixar de sofrer

Noelia Castillo

Relatos de solidão e desgaste emocional

A jovem afirmou que sua vontade era desaparecer e disse se sentir sozinha e incompreendida.

“Sempre me senti sozinha, nunca me senti compreendida, nunca tiveram empatia comigo. Não gosto do rumo que o mundo e a sociedade estão tomando; prefiro desaparecer, porque está cada vez pior”, declarou.

Dores constantes e impacto na rotina

Durante a entrevista, Noelia também descreveu o sofrimento físico e emocional que enfrentava. Segundo ela, havia dores constantes, dificuldade para dormir e falta de disposição para atividades cotidianas.

“Dormir é muito difícil para mim, sinto dores nas costas, nas pernas, dor física diária. Não tenho vontade de nada, nem de sair, nem de comer, só descansar”, disse.

Ela contou que enfrentava problemas de saúde mental desde a adolescência e que recebeu diagnósticos de transtornos psiquiátricos, como transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno de personalidade borderline.

Histórico de traumas e a afirmação de autonomia

Noelia relembrou episódios traumáticos ao longo da vida, incluindo dificuldades familiares, tentativas de suicídio e internações em centros psiquiátricos.

Apesar disso, afirmou que sua condição não a deixava totalmente incapacitada. “Não é verdade que eu esteja acamada. Eu me levanto, tomo banho sozinha, me maquio, me organizo sozinha”, explicou.

Mesmo assim, disse estar decidida. “Já não posso mais com essa família, com as dores, com tudo o que me atormenta na cabeça. Não quero ser exemplo de ninguém, é simplesmente a minha vida”, afirmou.

Questionada se se arrependia do procedimento, respondeu: “Não, eu tinha isso muito claro desde o início. A felicidade de um pai ou de uma mãe não deve estar acima da felicidade de uma filha”, concluiu.

Mãe diz que discordava, mas respeitava a decisão

A mãe de Noelia também falou ao canal. Yolanda Ramos disse que não concordava com a escolha da filha, mas que respeitava.

"Foram três anos de altos e baixos, anos horríveis, em que rezei muito; mas se ela não quiser viver, não aguento mais", disse.

Yolanda afirmou ainda manter esperança de que a filha desistisse. "Não perdi a esperança de que, no último momento, quando colocarem o soro para sedá-la, ela queira parar tudo isso e mudar de ideia", afirmou.

A história de Noelia

Antes de iniciar o pedido de eutanásia, Noelia já vivia um histórico de sofrimento psicológico. Após episódios de violência sexual, ela desenvolveu um quadro de intensa fragilidade emocional e, nesse contexto, tentou suicídio ao se lançar de um prédio.

A queda causou uma lesão grave na medula e resultou em paraplegia. Desde então, passou a depender de cadeira de rodas e a conviver com dor crônica e limitações físicas importantes.

O processo até a eutanásia

O procedimento foi realizado após um longo processo de avaliação médica e disputas judiciais que se estenderam por cerca de 601 dias.

A condição foi avaliada por uma comissão independente, que concluiu que Noelia atendia aos critérios previstos na legislação espanhola para a eutanásia. Antes da aprovação, o pai da jovem tentou barrar a decisão judicialmente, sob o argumento de que ela não teria condições psicológicas de decidir sobre a própria morte.

A contestação levou o caso a diferentes instâncias da Justiça espanhola, incluindo tribunais superiores e até cortes europeias. Ainda assim, as decisões mantiveram o entendimento de que a jovem atendia aos critérios legais para a eutanásia.

Segundo a mídia espanhola, pareceres técnicos indicaram que ela apresentava um quadro clínico irreversível, com dependência funcional importante, dor contínua e sofrimento considerado incapacitante — elementos exigidos pela legislação do país.

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