PF apura suspeita de furto de vírus na Unicamp e reacende debate sobre biossegurança em laboratórios

Reportagem explica por que universidades mantêm amostras vivas, quais exigências valem para NB3, como funciona o transporte autorizado e detalha o caso de amostras recuperadas em Campinas

27/03/2026 às 07:09 por Redação Plox

Desde que a Polícia Federal divulgou a suspeita de furto de material biológico em um laboratório da Unicamp, o caso levantou uma série de questionamentos sobre por que universidades mantêm amostras de vírus e como funcionam os protocolos de segurança em ambientes de alta contenção. A seguir, especialistas explicam a lógica científica por trás desses “estoques”, os níveis de biossegurança existentes e como ocorre, quando autorizado, o transporte de agentes infecciosos.


Níveis de biossegurança vão de 1 a 4

Níveis de biossegurança vão de 1 a 4

Foto: Reprodução/Paulo Sanches


Por que universidades mantêm amostras de vírus vivos

Armazenar vírus, bactérias e fungos vivos faz parte da rotina de pesquisa em instituições de ensino e ciência. A prática permite multiplicar o material em condições controladas para compreender estrutura e mecanismos de doença, o que sustenta o desenvolvimento de vacinas, antivirais e outras ferramentas de saúde pública.

São várias possibilidades: com vírus, por exemplo, nós expandimos o material e o multiplicamos, para entender a estrutura dele e o modo como causa a doença

Paulo Sanches, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp e coordenador do Laboratório de Virologia

Segundo o professor, esse tipo de estudo é o que viabiliza, mais adiante, a criação de vacinas e medicamentos. Ele cita que, em 2015, durante a epidemia de zika, o vírus foi isolado e ampliado em laboratório de contenção para análises, inclusive em minicérebros, a fim de entender sua multiplicação.


Laboratórios de nível de biossegurança alto são controlados por digitais ou identificação facial, por exemplo

Laboratórios de nível de biossegurança alto são controlados por digitais ou identificação facial, por exemplo

Foto: Reprodução/Paulo Sanches


Que microrganismos ficam guardados e o que define o risco

O tipo de agente mantido em uma universidade depende do nível de biossegurança (NB) do laboratório — isto é, do grau de contenção necessário para proteger pesquisadores, animais, meio ambiente e população.

Entre os critérios citados estão: virulência e potencial de infecção (como transmissão por aerossol), existência de vacinas e/ou tratamentos, o tipo de procedimento realizado (que pode exigir maior volume de amostra), a infraestrutura disponível e a qualificação da equipe — já que apenas profissionais treinados podem atuar em NB mais alto.

O professor Edison Luiz Durigon, da USP, destaca que o nível de cuidado aumenta quando não há tratamento disponível, como no caso de micobactérias da tuberculose cultivadas em laboratório que são multirresistentes a drogas. Ele também observa que, embora o vírus da febre amarela possa ser trabalhado em NB2 por existir vacina, prefere usar NB3 por oferecer mais estrutura e equipamentos.


Vírus são mantidos a baixíssimas temperaturas

Vírus são mantidos a baixíssimas temperaturas

Foto: Reprodução/Paulo Sanches


Os quatro níveis de biossegurança e exemplos

Os laboratórios são classificados em quatro níveis:

Nível 1: o mais comum. Abriga microrganismos sem risco de causar doenças em humanos ou animais sadios, como Lactobacillus spp, Bacillus subtilis e microbiota normal.

Nível 2: agentes que causam infecções com risco moderado, com medidas profiláticas e tratamentos eficazes. Exemplos citados incluem Schistosoma mansoni, vírus da rubéola, Clostridium tetani e Vibrio cholerae.

Nível 3 (caso citado na Unicamp): agentes que podem causar doenças potencialmente letais, com capacidade de transmissão respiratória e risco caso sejam disseminados na comunidade. Entre os exemplos listados estão Mycobacterium tuberculosis, Bacillus anthracis, Yersinia pestis, SARS-CoV, H5N1 e vírus do Nilo Ocidental.

Paulo Sanches afirma que os vírus ficam congelados em freezers ou contêineres a temperaturas muito baixas, entre -80°C e -150°C. Quando são manipulados, passam por descongelamento e, ao final, por destruição em alta temperatura.

Nível 4: reservado a agentes de alto risco, com grande transmissibilidade e sem prevenção ou tratamento eficaz. O texto informa que não há nenhum laboratório NB4 em funcionamento no Brasil; o Orion, em Campinas, é apontado como o primeiro, com abertura prevista para 2027. Entre os exemplos citados estão os vírus ebola, varíola, marburg, lassa e sabiá.

Como funciona um NB3, o maior nível disponível hoje no Brasil

Laboratórios NB3 — como os da Unicamp, da USP, da UFMG e da Unesp, segundo o texto — seguem protocolos rígidos de contenção e segurança. A professora Rejane Maria Tommasini Grotto, da Unesp de Botucatu, descreve que esses espaços ficam em áreas de pouca circulação, têm entrada altamente controlada (por digitais, reconhecimento facial ou senha) e só são acessados por profissionais com treinamento específico.

Ela afirma que o ambiente tem sistema próprio de exaustão com filtros, para impedir que o que entra saia para o meio externo. Além disso, tudo o que é manipulado — inclusive resíduos — deve ser autoclavado antes de deixar o local, em um processo de esterilização a vapor sob alta pressão e temperatura.

Entre as características listadas estão: pressão negativa, sistema de exaustão com filtros, autoclavagem obrigatória, roupas especiais, paredes com pintura sem reentrâncias, protocolos de emergência definidos e fluxo de entrada unidirecional. A professora também descreve uma sequência de acesso com antessala e portas que só podem ser abertas em etapas, até a área de paramentação e, depois, a área de manipulação.

Quando autorizados, vírus podem ser transportados

O transporte de vírus e outros materiais biológicos é descrito como uma prática rotineira na ciência, usada para intercâmbio de amostras entre universidades e centros de pesquisa, com foco em vacinas e diagnósticos. Durigon afirma que esse trânsito ocorre sob protocolos rígidos para garantir que o material não represente risco, mesmo em caso de acidente durante o trajeto.

O texto aponta que o envio deve seguir normas técnicas específicas, como as da IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), com medidas como embalagem tripla licenciada, retirada por armário de porta dupla em NB3, possível desinfecção da embalagem externa com lâmpada UV germicida e, em alguns casos, borrifamento de desinfetante. Para preservar as amostras, o transporte ocorre sob congelamento, usando freezers de -80°C ou contêineres de nitrogênio líquido a -153°C.

A reportagem também afirma que o transporte só pode ocorrer entre laboratórios credenciados, com autorizações nacionais e internacionais — envolvendo a Anvisa em trâmites internacionais — e que esse tipo de material não é enviado por correio comum. Apenas profissionais treinados e qualificados podem manipular e preparar as amostras.

Ao final, o texto ressalta que, sem o transporte e o cultivo de vírus como SARS-CoV-2 e zika, o país não teria ferramentas para diagnosticar doenças ou realizar testes de antivirais em larga escala.

Resumo do caso da Unicamp

De acordo com o resumo apresentado, a professora doutora Soledad Palameta Miller, da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp, foi presa em flagrante pela Polícia Federal em 23 de março de 2026, sob suspeita de furtar material biológico — amostras de vírus — de um laboratório de virologia do Instituto de Biologia.

O texto informa que as amostras desapareceram em 13 de fevereiro de 2026 e incluíam vírus como H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A. Esse material teria sido transportado sem autorização para laboratórios da FEA, dentro da própria Unicamp.

A PF instaurou inquérito após a Unicamp acionar a polícia. Os laboratórios envolvidos foram interditados, o material foi recuperado e encaminhado para análise, e as autoridades descartaram risco de contaminação externa à população, segundo o texto.

Soledad foi liberada provisoriamente pela Justiça Federal em 24 de março e responderá em liberdade por furto, exposição da saúde pública a risco e transporte irregular de material biológico geneticamente modificado. O marido dela, Michael Edward Miller, veterinário e doutorando na Unicamp, também é investigado por possível envolvimento.

O texto acrescenta que a defesa afirma que não houve furto, mas uso compartilhado de estrutura por falta de laboratório próprio na FEA. Também informa que Soledad Palameta Miller tem 36 anos, é argentina e pesquisa criação de vacinas e estudo de doenças em animais, incluindo zoonoses.

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