Governo anuncia parceria para produzir no Brasil imunoterapia contra o câncer

Acordo entre Ministério da Saúde, Instituto Butantan e MSD prevê transferência de tecnologia do pembrolizumabe e pode ampliar acesso ao tratamento no SUS

27/03/2026 às 11:07 por Redação Plox

O governo federal anunciou nesta quinta-feira (26) uma parceria para produzir no Brasil o pembrolizumabe, uma das principais imunoterapias contra o câncer no mundo. O medicamento, já aprovado no país, tem indicação para quase 40 tipos diferentes da doença.

O acordo envolve o Ministério da Saúde, o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD e prevê a transferência de tecnologia para fabricação nacional do imunoterápico. A expectativa é ampliar o acesso ao tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS).

Hoje, embora seja amplamente utilizado na rede privada, o medicamento ainda tem uso restrito no sistema público, principalmente por causa do alto custo.


Pembrolizumabe é imunoterápico ultramoderno, diz oncologista

Pembrolizumabe é imunoterápico ultramoderno, diz oncologista

Foto: Arquivo pessoal


Como as imunoterapias ajudam o corpo a combater o câncer

Diferentemente da quimioterapia tradicional, que atua diretamente destruindo as células tumorais, as imunoterapias estimulam o sistema de defesa do organismo a reconhecer e combater o câncer.

Em muitos tumores, as células cancerígenas desenvolvem mecanismos para “driblar” o sistema imunológico e evitar o ataque. Um dos principais envolve proteínas que funcionam como um freio das células de defesa.

“As células tumorais conseguem se esconder do sistema imune. Elas ativam mecanismos que impedem o organismo de reconhecê-las como uma ameaça”

Stephen Stefani

Segundo o oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, medicamentos dessa classe —como o pembrolizumabe— atuam bloqueando esses mecanismos, permitindo que o sistema imunológico volte a identificar e atacar o tumor.

“Quanto maior a carga mutacional do tumor, maior a chance de o sistema imunológico enxergá-lo. A imunoterapia atua justamente liberando esse reconhecimento”, afirma.

Esse tipo de abordagem representa uma mudança relevante na oncologia. Em alguns tipos de câncer, pode aumentar a sobrevida e melhorar a qualidade de vida, embora os resultados variem conforme o tumor.

Uso amplo, mas benefícios variam conforme o tipo de tumor

O pembrolizumabe é uma das imunoterapias com maior número de indicações aprovadas no Brasil, com uso autorizado para 40 tipos de câncer. O impacto, no entanto, muda de acordo com a doença.

“Em algumas doenças o benefício é muito relevante. Em outras, é mais modesto. Ainda assim, é um tratamento considerado seguro e amplamente utilizado”, diz Stefani.

Aprovado no país, mas com acesso limitado no SUS

O medicamento tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é amplamente utilizado na rede privada e por planos de saúde. No SUS, porém, o acesso ainda é limitado.

Atualmente, a imunoterapia está incorporada ao sistema público apenas para o tratamento de melanoma avançado. Para outros tipos de câncer —como pulmão, mama, esôfago e colo do útero— o uso ainda depende de análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

De acordo com o Ministério da Saúde, a decisão de incorporar novas terapias considera não só os benefícios clínicos, mas também o impacto financeiro para o sistema.

Preço alto é o principal entrave para ampliar a oferta

O custo é apontado como o maior obstáculo. Na rede privada, uma única sessão pode chegar a cerca de R$ 97 mil. Como a administração do medicamento é contínua, o total pode alcançar centenas de milhares de reais ao longo do tratamento.

No SUS, o financiamento da oncologia funciona por meio de valores fixos por paciente. Segundo o oncologista, esse descompasso entre custo e financiamento está entre os principais desafios para ampliar o acesso à imunoterapia no sistema público.

Parceria prevê transferência de tecnologia ao Butantan

A parceria anunciada prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan ao longo de até 10 anos, permitindo que o medicamento passe a ser produzido no Brasil.

A expectativa é que a produção nacional reduza custos e ajude a ampliar o uso no SUS, que hoje oferece o tratamento para melanoma e avalia a incorporação para outros tipos de câncer.

Para Stefani, a mudança pode ser relevante, desde que acompanhada de ajustes no financiamento. “Se você consegue reduzir o custo, abre-se a possibilidade de ampliar o acesso. Mas não basta só ter o medicamento. É preciso que ele caiba no modelo de pagamento do SUS ou que se criem mecanismos para viabilizar esse uso”, diz.

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