Estigma sobre mifepristona atrapalha avanço em prevenção do câncer de mama

Pesquisadores apontam que medicamento usado no aborto pode reduzir riscos do tumor, mas falta de interesse da indústria e barreiras legais impedem avanços

Por Plox

27/08/2025 09h54 - Atualizado há 2 dias

A possibilidade de que a mifepristona, medicamento utilizado há décadas para induzir o aborto, também possa atuar na prevenção do câncer de mama foi destacada em um artigo recente publicado na revista

Imagem Foto: Pixabay
Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health. O estudo aponta que o estigma em torno da droga impede que ela seja considerada uma alternativa científica promissora.



A substância é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como segura para interrupção de gravidez, geralmente em conjunto com o misoprostol. Pesquisas pré-clínicas já mostraram que o fármaco pode retardar o crescimento de células mamárias, reduzindo o risco do tumor — o tipo de câncer que mais mata mulheres no mundo. No entanto, por estar diretamente associado ao aborto, as farmacêuticas evitam investir em novos estudos.


Outro entrave está na legislação. Em países onde o aborto é restrito, o acesso ao medicamento é dificultado até mesmo para fins de pesquisa, o que limita avanços científicos. Segundo os autores, pesquisadores de universidades europeias, é preciso rever a regulamentação para separar claramente as aplicações reprodutivas das não reprodutivas.


A mifepristona atua bloqueando a progesterona, hormônio que estimula o crescimento celular. Em estudos laboratoriais, essa inibição mostrou reduzir a proliferação no tecido mamário. A forma de atuação depende da dosagem e do momento da administração: durante a gestação, provoca contrações e expulsão do embrião; no ciclo menstrual, pode inibir a ovulação e impedir a fixação embrionária.


Kristina Gemzell Danielsson, professora do Instituto Karolinska, na Suécia, explica que
“durante o ciclo, dependendo da dose de mifepristona, ela pode impedir a ovulação ou a receptividade endometrial, o que abre portas para diferentes usos clínicos”

. Para mulheres com mutação no gene BRCA — alteração genética que aumenta consideravelmente as chances de desenvolver câncer de mama —, a droga poderia ser uma alternativa menos invasiva do que a cirurgia preventiva de retirada da mama.

Hoje, parte das pacientes com risco elevado recorre a medicamentos que bloqueiam o estrogênio. Porém, essas opções apresentam efeitos colaterais significativos e não reduziram a mortalidade em estudos populacionais.


A resistência da indústria farmacêutica em financiar pesquisas lembra a trajetória de outros fármacos, como a talidomida. Conhecida nos anos 1950 por causar malformações em fetos, foi retirada do mercado e só anos depois se consolidou como tratamento para hanseníase. “Houve muita resistência até sua reintrodução”, lembra a médica sanitarista Fátima Marinho.


Entre as soluções sugeridas pelos pesquisadores está a criação de isenções legais que garantam o uso da mifepristona em pesquisas, além de uma regulamentação que diferencie seus potenciais reprodutivos e não reprodutivos.


A droga, destacam os autores, poderia ter múltiplas aplicações: como contraceptivo sem estrogênio, no tratamento de miomas, na síndrome de Cushing e até em meningiomas. Contudo, a maioria das investigações sobre essas possibilidades ficou no passado, e novos investimentos científicos são considerados urgentes para ampliar as opções na prevenção do câncer de mama.


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