Mauro Cid vai para a reserva do Exército com salário proporcional de R$ 16 mil

Condenado pelo STF por participação em tentativa de golpe de Estado e outros crimes, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro terá transferência à reserva efetivada em 31 de janeiro, com benefícios militares e perda de casa funcional em área nobre de Brasília

28/01/2026 às 16:18 por Redação Plox

O tenente-coronel Mauro Cid vai passar para a reserva do Exército aos 46 anos, após 29 anos de serviço, com proventos próximos de R$ 16 mil mensais. Condenado a 2 anos em regime aberto por participação em tentativa de golpe de Estado, ele teve a pena reduzida por ter firmado acordo de delação premiada.

Ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), Cid atuou ao lado do ex-presidente, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos e 3 meses de prisão. A Procuradoria Geral da República (PGR), com base em investigação da Polícia Federal (PF), apontou Bolsonaro como líder da trama golpista.

O tenente-coronel Mauro Cid foi delator da trama golpista

O tenente-coronel Mauro Cid foi delator da trama golpista

Foto: Senado Federal do Brasil


Exército antecipa ida de Mauro Cid para a reserva

A autorização para a transferência de Cid para a reserva foi assinada pelo comandante do Exército, general Tomás Paiva, na noite de terça-feira (27). O tenente-coronel deixará o serviço ativo em 31 de janeiro, mantendo a mesma patente. A decisão foi confirmada ao jornal pelo advogado Jair Alves Pereira, representante de Cid.

O pedido para envio do oficial à reserva havia sido protocolado em agosto do ano passado, antes do julgamento da Primeira Turma do STF que resultou na condenação pelos atos golpistas. Naquela ocasião, além de Cid e Bolsonaro, outros seis réus foram sentenciados.

Uma comissão do Exército analisou e aprovou a solicitação, com base na chamada “cota compulsória”. Com isso, Cid terá direito a um salário proporcional ao tempo de serviço — 29 anos e 11 meses. De acordo com dados do Portal da Transparência, a remuneração dele variou entre R$ 18,4 mil e R$ 32,5 mil ao longo de 2025.

As normas da Força preveem que o militar poderia deixar o serviço com salário integral apenas ao completar 31 anos de carreira. Mesmo saindo antes desse prazo, ele manterá parte dos benefícios, como uma “ajuda de custo” equivalente a oito salários, paga em parcela única.

Benefícios mantidos e perdas na vida funcional

Além da remuneração na reserva, Cid seguirá com acesso ao sistema de saúde do Exército, estendido à esposa e aos filhos. Entre as perdas está a casa funcional ocupada pela família no Setor Militar Urbano, área valorizada de Brasília. O tenente-coronel terá 90 dias para desocupar o imóvel.

Com a aposentadoria militar, Cid avalia formas de complementar a renda. A pessoas próximas, tem comentado a possibilidade de atuar como consultor em assuntos militares, com residência em Brasília ou no Rio de Janeiro. O pai, Mauro Cesar Lourena Cid, é general da reserva e mantém forte trânsito junto a setores das Forças Armadas.

Condenação, delação e blindagem à família

Mauro Cid foi condenado em setembro de 2025, ao lado de Bolsonaro e de outros seis acusados, pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

Além da pena de dois anos em regime aberto, o STF validou benefícios decorrentes da colaboração, como a restituição de bens e valores apreendidos pela PF e a extensão de vantagens ao pai, à esposa, Gabriela Santiago Ribeiro Cid, e à filha mais velha.

O general da reserva Mauro Lourena teve participação no esquema de venda de joias sauditas recebidas por Bolsonaro em viagem oficial. Ele foi o responsável por negociar as peças nos Estados Unidos e guardar o dinheiro obtido. Cid confessou que os dois repassaram US$ 86 mil ao ex-presidente entre 2022 e 2023, montante decorrente da venda das joias e relógios recebidos como presentes oficiais.

Investigadores identificaram que esse modelo de operação teria sido usado para retirar do Brasil “pelo menos quatro conjuntos de bens recebidos pelo ex-presidente da República em viagens internacionais, na condição de chefe de Estado”, em supostos crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

O ex-ajudante de ordens também admitiu envolvimento em esquema de inserção de dados falsos sobre vacinação contra a Covid-19 nos sistemas do Ministério da Saúde, o que teria permitido fraudar cartões de vacinação dele próprio, de Bolsonaro e de familiares de ambos.

Na Presidência, Bolsonaro afirmava publicamente que não tomaria vacina contra a Covid-19 e defendia tratamentos sem eficácia comprovada, como o uso de cloroquina. A inclusão de dados falsos nos registros de imunização permitiu que ele e outros beneficiados com a fraude pudessem entrar nos Estados Unidos, em período em que a comprovação de vacinação era exigida por causa da pandemia.

Discussão sobre perdão judicial e proteção a testemunha

A defesa de Cid pleiteava o perdão judicial, mas o relator da ação penal no STF, ministro Alexandre de Moraes, afastou essa possibilidade, sustentando que não cabe aplicação de clemência estatal, anistia, indulto ou perdão em crimes contra a democracia, por violarem cláusulas pétreas da Constituição.

Moraes foi acompanhado no entendimento pelos ministros Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. O colegiado determinou proteção à família de Cid. A PF chegou a oferecer a inclusão do tenente-coronel no programa de proteção a testemunhas, proposta aceita por Moraes e pela PGR, mas que ainda aguarda resposta formal da defesa.

O advogado de Cid tenta agora a extinção da pena do militar, alegando que ele já teria cumprido mais de dois anos entre prisão preventiva e monitoramento por tornozeleira eletrônica. A decisão sobre esse ponto ainda será tomada por Alexandre de Moraes.

Preso preventivamente em maio de 2023, Cid passou a responder em liberdade a partir de setembro do mesmo ano, quando medidas cautelares foram impostas. Essas restrições permaneceram em vigor até a decisão final sobre a execução da pena, em novembro de 2025.

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