Um ano após anúncio de compra, Banco Master é liquidado em meio a investigações da PF e veto do BC
Caso envolvendo a tentativa do BRB de adquirir 58% do Master terminou com liquidação, acionamento do FGC e suspeitas de fraudes bilionárias e interferência política
28/03/2026 às 10:27por Redação Plox
28/03/2026 às 10:27
— por Redação Plox
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Um ano depois de o Banco de Brasília (BRB) anunciar a compra de 58% do Banco Master, o caso se transformou em uma das apurações mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro, com desdobramentos que alcançam os Três Poderes. A investigação da Polícia Federal (PF) avançou em diferentes frentes e ampliou a pressão sobre autoridades citadas no enredo, enquanto o Banco Central (BC) manteve o discurso de atuação técnica e adotou medidas que levaram à liquidação da instituição privada.
O anúncio da operação, feito na tarde de 28 de março de 2025, surpreendeu o mercado. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), comemorou a compra e afirmou que, com os ativos e a clientela do banco de Daniel Vorcaro, o BRB poderia se tornar um banco nacional. Àquela altura, porém, já havia sinais de dificuldades financeiras e fortes suspeitas de fraudes envolvendo o Master.
O negócio acabou desfeito pelo BC e, passado um ano, tornou-se apenas um dos capítulos investigados no caso que resultou, até aqui, em três fases da Operação Compliance Zero. As apurações miram instituições e executivos e mencionam integrantes dos Três Poderes, em meio a debates sobre interferência política e transparência.
Presidente do BRB, Paulo Henrique Costa
Foto: Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília
Da promessa de rentabilidade à deterioração do Master
Comprado por Vorcaro em 2018, quando ainda se chamava Banco Máxima, o Master foi rebatizado em 2021 e cresceu com uma estratégia de captação considerada arriscada. Entre as medidas, o banco oferecia rendimentos de até 140% do CDI a quem comprava papéis da instituição, acima das taxas médias atribuídas a bancos pequenos, estimadas entre 110% e 120% do CDI.
As operações com precatórios — títulos de dívidas de governos com sentença judicial definitiva — aumentaram as dúvidas sobre a situação financeira do Master. O banco também emitia títulos em dólares e não conseguia captar recursos, ampliando as incertezas sobre a capacidade de sustentar o ritmo de crescimento.
O governador Ibaneis Rocha em inauguração de agência do BRB.
Foto: Renato Alves/Agência Brasília
BRB entra no roteiro do escândalo e contrato expõe conexão
Sem admitir publicamente qualquer crise, Vorcaro passou a buscar um comprador. Segundo o texto, a PF já investigava o Master e, sobretudo, o banqueiro, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). No início de 2025, a negociação com o BRB se tornou pública e, em 28 de março, o banco estatal anunciou a aquisição.
O BRB é uma sociedade de economia mista, de capital aberto, cujo maior sócio é o governo do Distrito Federal (71,92%). Além da forte presença no DF, o banco atua no Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Paraíba. Ibaneis Rocha se tornou um dos principais defensores da compra e chegou a atacar publicamente quem apontava riscos, afirmando que essas pessoas estariam contra o Distrito Federal.
Com o caso já no noticiário, veio à tona que o escritório de advocacia de Ibaneis firmou um contrato de R$ 38,1 milhões, em maio de 2024, com o Reag, fundo de investimentos do Master investigado pela PF por participação no esquema e por suspeitas que incluem lavagem de dinheiro para a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
Liquidação, operação policial e impacto bilionário
Em setembro, o BC vetou a compra do Master pelo BRB, apontando riscos elevados e inconsistências nos ativos do banco. Em 18 de novembro, a autoridade monetária liquidou a instituição privada em meio a suspeitas de fraudes financeiras e irregularidades. A medida atingiu mais de 1,6 milhão de clientes e levou ao acionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) na maior operação de ressarcimento de sua história, estimada em R$ 41 bilhões. O FGC protege até R$ 250 mil por investidor em caso de falência de um banco associado.
No mesmo dia da liquidação, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, que apontou um esquema de fraudes envolvendo mais de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes. O BC também identificou falhas na governança do BRB para detectar créditos irregulares. Na véspera da operação, Vorcaro foi preso.
Fictor, investidores “desconhecidos” e suspeita de manobra para viagem
Horas antes da prisão, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do Master, com aporte imediato de R$ 3 bilhões e participação de investidores dos Emirados Árabes Unidos que, segundo o texto, permanecem até hoje desconhecidos. A PF avaliou risco de fuga porque Vorcaro embarcaria em um jatinho em Guarulhos (SP) com destino a Dubai. Agentes passaram a desconfiar de que o anúncio do negócio buscava camuflar a viagem.
A PF também suspeita que Vorcaro soube antes que seria preso e organizou a operação para justificar a ida ao exterior. A defesa afirmou que havia planos de voo para encontrar compradores do Master. Investigadores disseram que o plano apresentado indicava como destino Malta. O acordo, segundo Fictor e Master, previa aquisição total das ações e mudança do nome para Banco Fictor, mas dependia de aval do BC e do Cade e foi inviabilizado com a liquidação.
Mais adiante, o texto relata que, menos de um mês antes de anunciar o acordo, o grupo Fictor transferiu R$ 30 milhões à Titan, holding de Vorcaro registrada em paraíso fiscal, segundo extratos obtidos pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Em 1º de fevereiro de 2026, o grupo Fictor protocolou pedido de recuperação judicial no TJ-SP para Fictor Holding e Fictor Invest, alegando busca por equilíbrio operacional e pagamento de compromissos de cerca de R$ 4 bilhões. Em 4 de fevereiro, a PF abriu inquérito para apurar suspeita de quatro crimes contra o sistema financeiro nacional.
Pressões sobre o BC e disputa institucional
Antes da deflagração da Compliance Zero, houve movimentação no Congresso e no Judiciário para tentar frear ações do BC e da PF. Em 2 de setembro, um dia antes de o Master ser liquidado, líderes do Centrão na Câmara apresentaram pedido de urgência para um projeto que permitiria ao Legislativo demitir diretores do BC. O requerimento teve apoio das lideranças de MDB, PP, União Brasil, PL, PSB e Republicanos.
O caso também envolveu o Tribunal de Contas da União (TCU), que passou a investigar se houve omissão ou negligência do regulador e questionou a legalidade de atos no processo de liquidação. O texto afirma que a investida foi liderada pelo ministro Jhonatan de Jesus, que recuou após pressão interna, mas depois restringiu o acesso do BC ao processo. Em nota, o TCU informou que o procedimento passou de “sigiloso” para “sigiloso com exigência de autorização específica de leitura”. Mais tarde, analistas do tribunal apontaram, em auditoria, que a decisão de liquidar o Master era necessária.
STF, encontros e mudança de relatoria
O Supremo Tribunal Federal (STF) entrou no centro das críticas por decisões relacionadas ao caso e por informações sobre relações entre autoridades, advogados e investigados. O ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria após pedido da defesa de Vorcaro e determinou, em 3 de dezembro, sigilo absoluto do processo, argumentando que a medida buscava evitar vazamentos que pudessem comprometer as apurações. Ele também autorizou nova fase da operação em 14 de fevereiro.
O texto descreve que, em 9 de fevereiro, a PF pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a suspeição de Toffoli, após peritos encontrarem menção ao ministro em mensagem em celular apreendido de Vorcaro. Em nota posterior, em 12 de fevereiro, Toffoli confirmou ser sócio e ter recebido dinheiro da Madrit, empresa de sua família, que fez negócios com o Arllen, fundo gerido pela Reag. Ele negou relação de amizade com Vorcaro e afirmou que jamais recebeu qualquer valor do banqueiro. Ainda em 12 de fevereiro, Fachin reuniu ministros e informou sobre achados da PF; Toffoli acabou perdendo a relatoria, e André Mendonça passou a conduzir o processo após sorteio interno.
Outro ministro citado no texto é Alexandre de Moraes, que admitiu reuniões com o presidente do BC para falar sobre o Master, mas negou ter tratado do caso. O portal “Metrópoles” relatou encontros na casa de Vorcaro em Brasília, o que o magistrado negou.
Novas fases, o “Sicário” e suspeitas de obstrução
Já sob supervisão de Mendonça, a PF deflagrou a terceira fase da Compliance Zero em 4 de março, com quatro prisões e buscas e apreensões. Entre os citados, surge Luiz Philipi Machado de Moraes Mourão, identificado em mensagens como “Sicário”. Segundo a PF, ele seria responsável por um núcleo de intimidação e obstrução à Justiça, suspeito de obter informações sigilosas com acesso ilegal a sistemas da PF, do MPF, do FBI e da Interpol, além de coordenar vigilância e pressão contra desafetos — incluindo jornalistas. Os investigadores afirmaram que ele recebia cerca de R$ 1 milhão mensais.
A PF informou, em nota, que Sicário tentou tirar a própria vida em cela da superintendência em Belo Horizonte, foi levado ao Hospital João XXIII, teve morte encefálica decretada no mesmo dia e foi dado como oficialmente morto em 6 de março. O texto diz ainda que ele já era réu por crimes como agiotagem, organização criminosa e lavagem de dinheiro em Minas Gerais, além de responder por estelionato e clonagem de cartões.
Mensagens, citações de autoridades e a disputa política
Durante a terceira etapa, foram divulgadas mensagens que Vorcaro teria trocado com a modelo Martha Graeff, de fevereiro de 2024 a agosto de 2025, obtidas pela PF após quebra de sigilo autorizada pela Justiça. O conteúdo menciona rotina e referência a diálogos, reuniões, eventos e viagens com autoridades e políticos, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes, Ciro Nogueira, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Antônio Rueda e João Doria, entre outros.
O texto ressalta que a simples citação de nomes não significa que essas pessoas sejam investigadas, mas aponta como evidência de que Vorcaro circulava entre autoridades. No campo político, a oposição tenta associar o escândalo ao governo Lula, enquanto governistas destacam que a investigação avançou na gestão atual e lembram que o Master cresceu enquanto o BC era presidido por Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro.
O que eu disse para ele [Vorcaro]: não haverá posição política pró ou contra o Banco Master. O que haverá será uma investigação técnica feita pelo Banco Central. Quem estiver metido nisso vai ter que pagar o preço da irresponsabilidade de dar um rombo (...), talvez o maior rombo econômico da história desse país
Luiz Inácio Lula da Silva
Após um ano, crise no BRB e avanço das apurações
Passado um ano do anúncio da compra, Ibaneis Rocha se tornou alvo de pedidos de investigação em diferentes esferas. O texto afirma que o BRB vive uma crise severa em razão do prejuízo com negócios ligados à instituição de Vorcaro. A investigação também avançou sobre o Fictor e seus executivos: no mesmo período, o CEO e um ex-sócio do grupo foram alvos de operação da PF que apura um elo entre o Fictor e o Comando Vermelho (CV), além de fraudes bancárias.
Em 20 de março, Vorcaro foi transferido de penitenciária federal para a Superintendência da PF em Brasília, o que, segundo o texto, reforçou a possibilidade de delação premiada. Cinco dias depois, advogados deixaram a defesa de Fabiano Zettel, abrindo espaço para uma eventual colaboração. Outro nome citado como possível delator é João Carlos Mansur, ex-administrador de fundos Reag, também liquidados pelo BC — desde que apresente novas informações e provas para obter benefício judicial.