Estudo de 22 anos na Amazônia descarta savanização após secas e queimadas em MT

Pesquisa em Querência acompanhou áreas pressionadas pela agricultura e concluiu que a floresta pode se regenerar com espécies florestais, desde que os incêndios sejam interrompidos e haja fonte de sementes e animais dispersores nas proximidades

28/04/2026 às 16:01 por Redação Plox

Um estudo de longo prazo realizado em Querência (MT), em uma das áreas da Amazônia mais afetadas pelo desmatamento nas últimas décadas, acompanhou por 22 anos os efeitos de secas e queimadas sobre trechos de floresta pressionados pela agricultura. Ao fim do período, os pesquisadores descartaram a tese da savanização, defendida por cientistas desde a década de 1990.

Em vez de uma possível substituição da floresta por gramíneas e arbustos — vegetação típica de savanas —, a equipe registrou a retomada das áreas afetadas pelo fogo e pela seca pelas mesmas espécies florestais. O resultado reforça a capacidade de regeneração da floresta, desde que algumas condições sejam atendidas. 


Pesquisadores descartaram a tese da savanização, defendida por cientistas desde a década de 1990.

Foto: Reprodução/Metrópoles


Pesquisa aponta resiliência, mas com condições

O que a gente está mostrando é que a floresta recupera, que ela é altamente resiliente e tem essa capacidade de voltar e de retornar aos espaços altamente degradados

Leandro Maracahipes

Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale apoiado pelo Instituto Serrapilheira, ressalta que a recuperação depende, прежде de tudo, da interrupção dos incêndios. Outra exigência é manter florestas preservadas nas proximidades, para que haja uma fonte de dispersão capaz de abastecer a regeneração com sementes.

Segundo ele, a presença de vegetação nativa no entorno e de animais que ajudem a dispersar sementes é decisiva para que o processo ocorra com mais facilidade e em menos tempo. Sem essa “matriz” próxima, a recuperação tende a ser mais difícil e lenta.

Área foi dividida e submetida a diferentes regimes de fogo

O estudo começou em 2004, em uma área de 150 hectares, após um levantamento para documentar a vegetação, os animais e os insetos que viviam ali originalmente. O terreno foi dividido em três parcelas de 50 hectares. Duas delas foram submetidas a queimadas: uma a cada três anos e outra anualmente, até 2010. A terceira parcela não foi atingida pelo fogo durante o período analisado.

Incêndios reduziram a biodiversidade e empobreceram o ambiente

Logo após os incêndios, a primeira constatação foi o empobrecimento da biodiversidade. A riqueza de espécies caiu 20,3% na área queimada anualmente e 46,2% na parcela queimada a cada três anos.

Em 2012, uma tempestade de vento atingiu o local e causou a mortandade de 5% das árvores. Os pesquisadores chegaram a observar uma área profundamente transformada pelos distúrbios. Com o tempo, porém, a floresta passou a recuperar parte de suas características.

Com a abertura do dossel — cobertura formada pelas copas das árvores —, houve aumento de gramíneas, especialmente na borda da floresta. Mais recentemente, com o fechamento do dossel, a presença de gramíneas ficou em 10% da área, e o ambiente voltou a se parecer mais com um trecho florestal. A recuperação, entretanto, foi mais rápida no interior do que nas bordas.

Regeneração ocorre, mas floresta não volta igual

Apesar do avanço ao longo do tempo, a floresta regenerada ainda não retomou totalmente sua composição anterior. A margem inferior de espécies ficou entre 31,3% e 50,8%, variando conforme o grau de impacto sofrido.

Maracahipes também aponta que a floresta retorna em nova condição, com maior vulnerabilidade. Segundo ele, as espécies dessa nova composição tendem a ter casca fina e baixa densidade de madeira, o que as torna mais suscetíveis e com maior chance de morrer diante de novos distúrbios.

Secas mais extremas ampliam a pressão sobre áreas em recuperação

Além dos efeitos do fogo, a floresta em regeneração enfrenta a pressão de secas cada vez mais extremas associadas às mudanças climáticas. Embora as espécies florestais mantenham a capacidade de se hidratar durante o processo de regeneração, os cientistas avaliam que é necessário recuperar mais áreas degradadas para ajudar a manter o acesso à água.

Ao final, o pesquisador destaca uma mudança de perspectiva sobre a região antes conhecida como Arco do Desmatamento, agora chamada de Arco da Restauração, em referência à possibilidade de restaurar a floresta aproveitando sua capacidade de se recuperar.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a