PF deflagra operação nacional contra abuso sexual infantil e cumpre 159 mandados
Ação ocorre nesta terça (28) em todos os estados e no DF, com 16 mandados de prisão e foco em identificar e prender suspeitos de crimes contra crianças e adolescentes.
As propostas em tramitação no Congresso Nacional para reduzir a jornada de trabalho no Brasil, com o possível fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho por um de descanso), colocaram economistas e centros de pesquisa em rota de divergência sobre os efeitos da mudança na economia.
De um lado, estudos de confederações patronais projetam queda do Produto Interno Bruto (PIB) e alta da inflação. De outro, análises da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) traçam um cenário com impactos mais limitados, concentrados em alguns setores, além de apontarem possibilidade de criação de empregos e até aumento do PIB.
Fim da escala 6x1 divide ecomistas e entidades patronais.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo
Para a economista da Unicamp Marilane Teixeira, a diferença entre as pesquisas sobre os custos econômicos da redução da jornada não se explica apenas por aspectos metodológicos, mas pelo caráter político do tema.
Para a professora da Unicamp Marilane Teixeira, a diferença entre as pesquisas ocorre porque o debate é político.
Foto: Pedro França/Agência Senado
Parte significativa da literatura econômica que discute o assunto parte de modelos que assumem, como regra, que qualquer redução na quantidade de horas trabalhadas levará, inevitavelmente, à redução da produção e da renda – ignorando, assim, os ajustes dinâmicos que historicamente ocorrem no mercado de trabalho
Marilane Teixeira
Integrante do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesite), Marilane afirma que a resistência dos empregadores à mudança pode alimentar projeções mais alarmistas. Na avaliação dela, as empresas tendem a olhar o impacto a partir do próprio negócio, enquanto a redução da jornada pode trazer ganhos mais amplos para a sociedade.
Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%) caso a jornada caia das atuais 44 para 40 horas semanais. No recorte da indústria, a entidade calcula recuo de 1,2%.
Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, a mudança reduziria a participação da indústria nos mercados doméstico e internacional, com queda nas exportações e aumento das importações.
Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) afirma que a redução da jornada elevaria os custos sobre a folha salarial em 21%. A entidade também estima que o repasse ao consumidor poderia chegar a 13%. No estudo da CNI, a projeção é de alta média de 6,2% nos preços.
A CNC avalia ainda que, sem redução dos salários nominais, haveria impactos relevantes sobre a rentabilidade do comércio no país.
Em direção diferente, estudo do Ipea conclui que a alta do custo do trabalho, nos setores mais atingidos, não ultrapassaria 10%. Na média, a previsão é de aumento de 7,8% no custo extra do trabalho.
Ao considerar o custo total das empresas — soma de diferentes despesas — o Ipea calcula que o impacto da redução de jornada variaria de 1%, em setores como comércio e indústria, a 6,6% no ramo de vigilância e segurança. O estudo afirma que a maioria dos setores teria capacidade de absorver o aumento, embora alguns segmentos demandem atenção específica.
O instituto destaca como exceção empresas com até nove trabalhadores, que empregam cerca de 25% dos assalariados formais do país. Para o Ipea, esse grupo pode precisar de apoio estatal para a transição à nova jornada.
Um dos autores do estudo, Felipe Pateo, afirma que o levantamento da CNC não demonstraria, “de forma transparente”, como chegou ao percentual de 21% de aumento no custo do trabalho. Ele também argumenta que, matematicamente, o aumento não poderia superar 10% quando se observa apenas a perda de horas em relação à jornada de 44 horas semanais.
Autor do estudo do Ipea, Felipe Pateo afirma que o levantamento da CNC não demonstra, “de forma transparente”, como eles chegaram ao aumento de 21% no custo do trabalho.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Nos estudos das entidades patronais, a possibilidade de aumento de preços aparece como um dos principais efeitos do fim da escala 6x1, com o argumento de que o custo maior da mão de obra seria repassado ao consumidor final.
Possibilidade de aumento de preços aparece como um dos principais efeitos do fim da escala 6x1.
Foto: Tânia Rêgo/Arquivo/Agência Brasil/Arquivo
O economista da CNI Marcelo Azevedo afirma que a necessidade de contratar mais elevaria custos e que o aumento do salário-hora teria efeito em cadeia, atingindo diferentes setores.
O economista da CNI Marcelo Azevedo pondera que a necessidade de contratar mais vai gerar aumento de custos na ponta.
Foto: Divulgação/José Paulo Lacerda/CNI
Já Felipe Pateo, do Ipea, avalia que o impacto inflacionário tende a ser limitado e considera que parte do ajuste pode ocorrer por absorção do custo via redução de lucros. Segundo ele, se o aumento no custo operacional for de 1% e houver repasse integral, o preço final subiria na mesma proporção.
Autor do estudo do Ipea, Felipe Pateo afirma que o levantamento da CNC não demonstra, “de forma transparente”, como eles chegaram ao aumento de 21% no custo do trabalho.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Marilane Teixeira, da Unicamp, sustenta que não haveria risco de aumento generalizado de preços. Ela compara a discussão aos reajustes do salário mínimo e acrescenta que, com capacidade ociosa em diversos setores, a oferta poderia aumentar caso houvesse pressão de demanda. Na avaliação da economista, o impacto no custo total seria marginal e a concorrência também funcionaria como freio para reajustes.
Uma nota técnica do Ipea afirma que a redução da jornada teria efeito semelhante ao de aumentos do salário mínimo e que projeções de queda do PIB e do emprego não seriam respaldadas por estudos que analisam a experiência histórica brasileira. O documento cita reajustes reais do salário mínimo de 12% em 2001, 7,6% em 2012 e 5,6% em 2024, afirmando que não houve efeitos negativos sobre o nível de emprego.
As divergências, segundo os próprios pesquisadores, decorrem das hipóteses adotadas nos cálculos sobre PIB, inflação e emprego. O estudo da Unicamp parte da premissa de que a redução da jornada estimularia os empregadores a contratar mais. Já o trabalho da CNI assume que a diminuição do total de horas trabalhadas levaria a uma redução do produto final.
O gerente de análise econômica da CNI, Marcelo Azevedo, disse à Agência Brasil que projeções econômicas simplificam a realidade e exigem escolhas de hipóteses — como considerar ou não ganhos de produtividade — e que visões diferentes podem surgir sem que, necessariamente, estejam “erradas”, ainda que sejam conflitantes.
Marilane ressalta que a diferença não é fruto de manipulação de evidências e que, com os mesmos dados, é possível chegar a resultados distintos conforme a perspectiva política, econômica e social do pesquisador. Para ela, trata-se de um conflito distributivo, no qual o centro da disputa envolve lucros, renda do trabalho, salários, consumo e os ganhos de produtividade.
O estudo da CNI aponta que a redução da jornada pode afetar a competitividade das empresas e considera improvável que a produtividade cresça o suficiente para compensar menos horas trabalhadas. Azevedo afirma que o país enfrenta produtividade estagnada há muito tempo e que ela é baixa em comparação com outros países, o que dificultaria apostar em melhora significativa.
Marilane, por sua vez, argumenta que a produtividade segue estagnada mesmo com uma jornada considerada extensa, e que a redução do tempo de trabalho poderia, inclusive, melhorar o desempenho com trabalhadores mais descansados.
Felipe Pateo avalia que há diferentes caminhos de adaptação por parte das empresas e diz não ser possível antecipar uma queda no PIB. Ele também aponta que o tempo liberado pode influenciar produção e consumo e estimular outras atividades econômicas no período livre.
A discussão também resgata o precedente de 1988, quando a Constituição reduziu a jornada semanal de 48 para 44 horas. Em 2002, economistas da PUC Rio e da Universidade de São Paulo (USP) publicaram estudo que não identificou efeitos negativos no nível de emprego e concluiu que a mudança não aumentou a probabilidade de o trabalhador afetado perder o emprego, além de reduzir a chance de ele sair da força de trabalho no ano seguinte.
Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, ao promulgar a nova Constituição Federal de 1988.
Foto: Agência Brasil/Arquivo
Marcelo Azevedo, da CNI, contesta a comparação direta com 1988 e argumenta que a economia mudou muito em quatro décadas, com maior abertura, globalização e a presença do comércio eletrônico. Ele afirma ainda que, naquele período, seria mais fácil absorver custos em um contexto de inflação muito elevada.