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O alerta ocorre em um cenário de solidão, desânimo e do chamado “esgotamento social”, expressão associada à perda de interesse pelos vínculos, ao desgaste diante das exigências cotidianas e à comparação recorrente com os modelos de felicidade, beleza e sucesso exibidos nas redes sociais.
Embora não seja uma classificação médica, o termo tem sido relacionado a relatos de irritabilidade, cansaço persistente, impaciência, falta de motivação e dificuldade para manter relações ou atividades que antes eram prazerosas. Quando essas manifestações permanecem por muito tempo e passam a comprometer a rotina, é necessário atenção.
O psiquiatra do Hospital Márcio Cunha (HMC), Arthur Lobato, explica que períodos de tristeza e a vontade de ficar mais sozinho podem fazer parte da vida. A preocupação aumenta, porém, quando esse estado se torna diário, contínuo e prejudica a capacidade de a pessoa conduzir suas atividades habituais.
Foto: Divulgação / FSFX
Segundo o médico, a perda de interesse, o isolamento, o abandono do autocuidado e o sofrimento prolongado são indícios de que é preciso investigar a situação. Na avaliação psiquiátrica, não há exames laboratoriais ou de imagem que confirmem, por si só, um transtorno mental. O diagnóstico considera principalmente os sintomas relatados e os impactos provocados na vida do paciente.
A duração, a intensidade do sofrimento e seus efeitos no cotidiano são aspectos fundamentais para distinguir uma tristeza passageira de um quadro que demanda cuidado. Dificuldade de concentração, afastamento das pessoas e interrupção de tarefas antes realizadas normalmente são situações que, conforme o especialista, justificam a busca por ajuda.
A presença constante nas redes sociais também pode agravar a sensação de inadequação em pessoas emocionalmente vulneráveis. Diariamente, plataformas digitais exibem viagens, conquistas profissionais, relacionamentos e rotinas aparentemente perfeitas, oferecendo apenas um recorte da realidade de quem publica.
Para Arthur Lobato, o problema surge quando alguém passa a avaliar a própria vida a partir dessas imagens idealizadas e conclui que está parado enquanto todos os demais avançam. Esse processo pode alimentar sentimentos de fracasso, frustração e inadequação, especialmente porque medos, inseguranças e dificuldades costumam não aparecer nas publicações.
Sentir tristeza eventualmente é esperado, mas viver de forma permanente com a impressão de que apenas você sofre enquanto todos os outros estão bem não deve ser naturalizado. O sofrimento emocional constante merece ser reconhecido e acolhido.
Amigos, familiares e colegas podem contribuir para perceber mudanças e oferecer apoio. A valorização da escuta é um dos eixos do Setembro Amarelo, pois uma conversa atenta pode ajudar quem sofre a identificar que precisa de cuidado e a procurar suporte.
Na avaliação do psiquiatra, acolher não significa encontrar respostas prontas ou apresentar soluções para todos os problemas. Uma escuta genuína pode auxiliar a pessoa a compreender que sintomas considerados por ela como normais talvez estejam relacionados a depressão, ansiedade ou outra dificuldade que exige atenção.
Demonstrar disponibilidade por meio de uma conversa, uma mensagem, um abraço ou outro gesto sincero pode fazer diferença. Escutar envolve buscar entender o que o outro vive, estar presente, não interromper, não minimizar a dor e evitar julgamentos. É uma atitude que exige empatia, paciência e disposição para considerar o contexto de cada pessoa.
Entre os comportamentos que devem ser observados estão o isolamento repentino, o desinteresse por atividades antes prazerosas, alterações importantes de humor, irritabilidade ou tristeza frequente e queda no rendimento escolar ou profissional.
Também requerem atenção os descuidos com a aparência e a higiene, mudanças relevantes no sono ou no apetite, presença de machucados e comportamentos de risco. Para o especialista, o principal alerta está na transformação do comportamento habitual: quando alguém passa a agir de maneira muito diferente do que costumava, é importante abrir espaço para o diálogo e tentar compreender o que ocorre.
A procura por atendimento especializado, segundo Arthur Lobato, não deve ficar restrita a situações consideradas graves. A avaliação desde os primeiros sinais permite diferenciar uma fase difícil de um possível transtorno que necessite de tratamento. Quanto mais cedo esse cuidado acontece, maiores são as possibilidades de evitar o agravamento do quadro.
Neste Setembro Amarelo, a campanha reforça que ninguém precisa enfrentar a dor em silêncio ou sozinho. Falar sobre sentimentos, buscar acolhimento e recorrer a apoio profissional são caminhos que podem mudar trajetórias e preservar vidas.