BC abre sindicância para apurar explosão e quebra do Banco Master
Corregedoria do Banco Central investigará crescimento de R$ 3,7 bi para R$ 82 bi em ativos, liquidação extrajudicial do Master e eventual falha de supervisão; PF mira operações com BRB e ataques de influenciadores ao BC
29/01/2026 às 09:45por Redação Plox
29/01/2026 às 09:45
— por Redação Plox
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O Banco Central (BC) instaurou uma investigação interna para apurar o crescimento acelerado e a posterior liquidação extrajudicial do Banco Master. A abertura da sindicância foi determinada pelo presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, e está sob responsabilidade da corregedoria do órgão, sem prazo definido para conclusão.
A liquidação extrajudicial do Master foi assinada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo
Foto: Alexandre Boiczar / Banco Central
A existência da apuração foi revelada pelo jornal “O Globo” e confirmada pela equipe de O TEMPO em Brasília. O Banco Master foi liquidado em novembro e seus controladores são alvo de investigação da Polícia Federal (PF).
Queda de dirigentes e foco na governança interna
Diretor de Fiscalização do BC entre 2019 e 2023, Paulo Sérgio Neves de Souza foi afastado do cargo por decisão de Galípolo uma semana após a liquidação do Master. Em seguida, ele deixou em definitivo a função, assim como o então chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana.
Não há, porém, acusação formal contra os dois, que são servidores de carreira do BC. A apuração conduzida pela corregedoria busca esclarecer o que ocorreu com o Master e de que forma o Banco Central pode reforçar sua governança interna de fiscalização.
Crescimento explosivo do Banco Master
Entre o fim de 2019 e o fim de 2024, o Master — então chamado Banco Máxima — saltou de R$ 3,7 bilhões em ativos para R$ 82 bilhões, em valores nominais, sem considerar a inflação, segundo dados do próprio BC.
Relatório da agência Moody’s aponta que o banco cresceu 40% ao ano em 2019, chegando a uma taxa de 100% em 2024, quando dobrou de tamanho. Em análise sobre a instituição, a agência registrou que, em menos de quatro anos, o Master passou a figurar entre os maiores bancos do país, saindo da 77ª posição em 2021 para se tornar a 25ª maior instituição financeira do Brasil em junho de 2024.
Atuação de Campos Neto e atrasos na intervenção
Reportagem do “Estadão” publicada na quarta-feira (28/1) revelou que o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto tinha conhecimento dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo Master ao longo de sua gestão (2019-2024), mas evitou adotar medidas mais drásticas contra o banco. Ele foi procurado, mas não se manifestou.
À época, havia a expectativa de que o Master detivesse ativos negociáveis no mercado, o que permitiria uma separação entre um “good bank” — com a parte saudável da instituição — e um “bad bank”, com os chamados ativos podres. A avaliação era de que esse desenho poderia reduzir o custo para o sistema financeiro e para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo apuração do “Estadão”, Campos Neto atuou ao menos duas vezes em 2024 para evitar uma intervenção ou liquidação do Master — uma em março e outra em novembro. Ele teria dado um prazo informal até março de 2025 para que fosse encontrada uma “solução definitiva”, mas a liquidação acabou sendo efetivada em novembro pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Negócio com o BRB sob suspeita
No momento da liquidação, o dono do Master, Daniel Vorcaro, foi preso preventivamente em operação da PF, ao lado de outros ex-dirigentes da instituição. Também foram alvo de mandados de busca e apreensão diretores do BRB, banco estatal de Brasília.
Entre as operações envolvendo o Master, a PF apura a compra de parte do banco privado pelo BRB. Técnicos do BC e agentes do mercado financeiro já haviam alertado para o risco da transação, enquanto o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), defendia publicamente o negócio.
A negociação avançou, mas foi barrada pelo Banco Central, que identificou problemas. De acordo com a investigação da PF, a aquisição poderia ter causado prejuízos superiores a R$ 10 bilhões ao BRB. O caso segue em apuração.
Operações de crédito e versões divergentes
Mesmo sem a conclusão da compra, o BRB já teria transferido bilhões de reais ao Master por meio da aquisição de carteiras de crédito consideradas problemáticas, sem garantias suficientes e, em alguns casos, formadas por créditos que sequer pertenciam de fato ao banco privado.
Em depoimento à PF, Daniel Vorcaro afirmou ter tratado a venda do Master diretamente com Ibaneis Rocha, que nega essa versão. O governador chegou a reagir publicamente a críticas ao negócio, acusando opositores de se colocarem contra os interesses de Brasília.
Investigação sobre ataques ao BC nas redes
Nesta semana, a Polícia Federal abriu inquérito para investigar se influenciadores digitais foram remunerados para atacar o Banco Central após a liquidação do Master. Segundo a PF, os conteúdos publicados teriam o objetivo de defender o banco privado e colocar em dúvida a decisão do regulador.