Canetas emagrecedoras mudam hábitos de consumo e movimentam mercado

Medicamentos injetáveis à base de GLP-1 reduzem apetite, alteram compras de comida e bebida e impulsionam gastos com moda, beleza e bem-estar

29/01/2026 às 08:36 por Redação Plox

As chamadas canetas emagrecedoras vêm ajudando parte da população a perder peso, mas o impacto desses medicamentos já extrapola a saúde e começa a aparecer no comportamento de consumo.


Canetas estão mudando o hábito de alimentação das pessoas

Canetas estão mudando o hábito de alimentação das pessoas

Foto: Divulgação

Levantamento recente do University College London indica que cerca de 1,6 milhão de pessoas no Reino Unido usaram injeções para perda de peso em 2024. Milhões de outras afirmam ter interesse em testar o recurso.

Para quem recorre ao tratamento de forma privada, a conta é alta: o custo mensal pode passar de 300 libras (cerca de R$ 2.160). Com a popularização das canetas e a tendência de crescimento desse mercado, empresas de diferentes setores já se mexem para entender e atender esse novo perfil de consumidor.

Supermercados registram carrinhos menores e mais alimentos frescos

As canetas funcionam imitando o hormônio GLP-1, que regula a fome. O efeito direto é a redução do apetite — e isso começa a aparecer na lista de compras.

Sam Gillson, de 38 anos, de Shropshire, conta à BBC que suas compras semanais de supermercado encolheram desde que iniciou o uso das injeções em junho, período em que perdeu mais de 25 quilos.

Ele relata estar comprando mais alimentos frescos e reduzindo a presença de refeições prontas e ultraprocessadas, como pizza, batata frita e nuggets. Comer menos, diz, o leva a buscar maior qualidade nutricional em cada refeição, garantindo vitaminas e nutrientes mesmo em porções menores.

A indústria já percebe o movimento. Supermercados como The Co-op, Morrisons e Marks & Spencer lançaram recentemente linhas de refeições prontas mais ricas em nutrientes no Reino Unido. A rede Ocado passou a oferecer bifes de 100 g, em resposta ao aumento da demanda por porções reduzidas.

Não é apenas o tamanho do prato que muda, mas também o tipo de alimento. Produtos ricos em proteínas ganham espaço nas prateleiras, com a oferta crescente de smoothies e lanches proteicos.

Para Jonny Forsyth, estrategista de alimentos e bebidas do grupo de pesquisa de mercado Mintel, essas mudanças fazem parte de um cenário mais amplo, em que a saúde ganha prioridade, sobretudo entre consumidores mais jovens. Na avaliação dele, os medicamentos à base de GLP-1 estão “mudando a cultura” de consumo ao tornar populares alimentos mais nutritivos e impulsionar tendências que já vinham em curso.

Menos restaurantes e delivery na rotina

O impacto também chega ao setor de bares e restaurantes. Pesquisa da consultoria KAM Insight, realizada no ano passado, mostrou que quase um terço dos usuários de medicamentos GLP-1 passou a sair com menos frequência para comer e beber fora.

Annie Haslam, de 70 anos, que vive na Cornualha, usa canetas emagrecedoras desde março do ano passado e gasta atualmente cerca de 186 libras (R$ 1.330) por mês com as injeções. Ela conta que deixou de pedir comida para viagem, hábito que mantinha uma ou duas vezes ao mês, e que também abandonou as idas semanais a restaurantes.

Sam, que também reduziu os pedidos de delivery, diz se sentir mais saudável, mas pondera que o gasto com o medicamento compensa a economia feita com alimentação fora de casa.

O setor de fast food e padarias começa a perceber a mudança. No início deste mês, o chefe da rede de padarias Greggs afirmou que não há dúvida de que os medicamentos para emagrecer levaram os clientes a consumir porções menores.

Mesmo restaurantes de alto padrão estão ajustando suas ofertas. O The Fat Duck, em Berkshire, comandado pelo chef Heston Blumenthal e detentor de estrela Michelin, lançou um menu voltado a quem busca uma alimentação mais “consciente”, incluindo usuários de supressores de apetite.

Álcool perde espaço e reforça tendência de sobriedade

Pesquisas apontam que os medicamentos para emagrecer também influenciam o consumo de álcool.

Um estudo divulgado em fevereiro de 2025 pela empresa de pesquisa de mercado Worldpanel by Numerator identificou queda de 15 pontos percentuais no volume de compras de bebidas alcoólicas entre famílias com usuários de GLP-1, em comparação a um grupo de controle.

Segundo a diretora de comércio de alimentos da Co-Op, Nicole Tallant, funcionários da rede que utilizam os medicamentos têm reduzido o consumo de álcool junto com o de alimentos, motivados por uma preocupação maior com saúde geral e bem-estar.

Ao mesmo tempo, crescem as opções de bebidas não alcoólicas nos supermercados e bares. A Associação Britânica de Cerveja e Pubs estima que um recorde de 200 milhões de pints de cerveja com baixo teor alcoólico ou sem álcool tenha sido consumido em 2025.

Para Jonny Forsyth, da Mintel, já existe uma forte tendência em direção à sobriedade, que antecede o uso das canetas. Na visão dele, os medicamentos à base de GLP-1 podem acelerar ainda mais esse movimento, algo que deve preocupar fabricantes de bebidas alcoólicas.

Guarda-roupa novo após a perda de peso

No setor de moda, o reflexo aparece na numeração das roupas. Annie Haslam conta que trocou o manequim 46 pelo 40 e que suas peças antigas passaram a “literalmente cair” do corpo.

Ela avalia ter gasto alguns milhares de libras para renovar o guarda-roupa, incluindo roupas íntimas.

Dan Coatsworth, chefe de mercados da AJ Bell, observa que, embora as grandes varejistas de moda listadas em bolsa ainda não citem explicitamente os medicamentos para emagrecimento em seus resultados, a tendência é clara: a popularização dessas drogas tende a representar um impulso significativo para o setor.

Ele aponta que não está definido como esse efeito se materializará, mas vê potencial de crescimento nas lojas de roupas de segunda mão, já populares, à medida que mais pessoas perceberem que o guarda-roupa deixou de servir.

Simone Konu-Rae, professora sênior de comunicação de moda na Central Saint Martins, da Universidade das Artes de Londres, destaca que pessoas que perdem muito peso em pouco tempo podem ganhar confiança e se sentir motivadas a se “reinventar” por meio da moda, experimentando peças e estilos que antes não usariam.

Ela observa que, ao vestirem tamanhos maiores, muitas pessoas não se sentiam representadas pelas tendências ou marcas disponíveis. Com a mudança de corpo, o padrão de consumo pode se transformar completamente.

Beleza, saúde e academia em alta

O desejo de acompanhar a transformação física também se reflete nos gastos com beleza, bem-estar e atividade física.

Pesquisa da Worldpanel by Numerator, realizada no ano passado, apontou um aumento nos gastos com saúde, produtos de higiene pessoal e suplementos entre usuários de canetas emagrecedoras.

Empresas que oferecem pacotes de bem-estar, tanto nos EUA quanto no Reino Unido, começam a anunciar retiros específicos para quem usa medicamentos à base de GLP-1.

No setor de academias, o movimento também é perceptível. Will Orr, diretor executivo do The Gym Group, afirma que os medicamentos para emagrecer estão gerando maior demanda por serviços fitness, já que muitos usuários buscam manter o peso perdido e ganhar massa muscular. A rede iniciou o treinamento de instrutores para melhor atender esse público.

Orr, no entanto, ressalta que a procura por saúde, fitness e bem-estar já era forte antes da chegada dessas drogas, classificando essas áreas como tendências “avassaladoras” e duradouras.

Na indústria de beleza, a analista Georgia Stafford, da equipe de pesquisa de beleza e cuidados pessoais da Mintel, diz que os GLP-1 já estão no radar da maioria das marcas, embora, ao contrário do setor de alimentos, ainda não haja no Reino Unido linhas específicas voltadas a usuários das canetas emagrecedoras.

Ela cita alguns lançamentos nos Estados Unidos, ainda de nicho e com preços altos, e lembra que o custo dos medicamentos pode levar os consumidores a cortar gastos em outras categorias.

Em paralelo, muitos produtos já disponíveis no mercado — que prometem pele mais firme e cabelos mais volumosos e costumam ser vendidos como antienvelhecimento — acabam se alinhando ao que atrai usuários de medicamentos para perda de peso.

Enquanto isso, dados da Associação Britânica de Cirurgiões Plásticos Estéticos apontam aumento de 8% na demanda por lifting facial em 2024. Segundo o presidente da entidade, o movimento é uma extensão de um padrão já observado em pacientes após perda de peso, agora amplificado pelo uso mais disseminado desses medicamentos.

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