Governo central registra déficit de R$ 73,8 bilhões em março após antecipação de precatórios

Segundo o Tesouro Nacional, resultado é o pior para o mês desde 1997 e foi puxado por sentenças judiciais, Previdência e folha

29/04/2026 às 16:35 por Redação Plox

O pagamento antecipado de precatórios — dívidas da União reconhecidas por sentenças judiciais definitivas — pressionou as contas públicas e levou o governo central a registrar déficit primário de R$ 73,783 bilhões em março, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional nesta quarta-feira (29). O resultado é o pior para o mês desde o início da série histórica, em 1997.


Governo Federal registra déficit primário de R$ 73,783 bilhões em março, por pagamento antecipado de precatórios.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil


O número representa uma deterioração em relação a março do ano passado, quando houve superávit de R$ 1,527 bilhão. De acordo com o Tesouro, a principal explicação está na mudança do calendário de pagamento dos precatórios, que em 2026 se concentraram em março. Em 2025, a maior parte dessas despesas foi paga em julho.

O déficit primário ocorre quando as receitas com tributos e impostos ficam abaixo das despesas do governo, desconsiderando os juros da dívida pública.

Despesas disparam e puxam pior resultado para março

As despesas totais aumentaram no período, impulsionadas principalmente pelos gastos com decisões judiciais e pelos efeitos indiretos sobre outras rubricas do orçamento.

Em março, o governo central registrou despesas totais de R$ 269,881 bilhões, alta real de 49,2% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Já a receita líquida somou R$ 196,1 bilhões, avanço real de 7,5%.

Entre os principais aumentos de gastos no mês, o Tesouro destacou:

  • Sentenças judiciais e precatórios (custeio e investimento): R$ 34,903 bilhões
  • Benefícios previdenciários: R$ 28,615 bilhões, dos quais R$ 23,982 bilhões em precatórios
  • Pessoal e encargos sociais: R$ 11,258 bilhões, dos quais R$ 8,786 bilhões em precatórios

Segundo o Tesouro, os precatórios também influenciaram o aumento de gastos com Previdência e folha de pagamento, já que parte dessas despesas está vinculada a decisões judiciais.

Arrecadação cresce, mas não compensa salto dos gastos

Apesar da piora no resultado fiscal, a arrecadação apresentou crescimento, atribuído pelo Tesouro ao desempenho da economia e a medidas tributárias recentes. Entre os destaques de aumento em relação a março do ano passado, aparecem:

  • Imposto sobre Operações Financeiras (IOF): R$ 2,8 bilhões
  • Imposto de Importação: R$ 2,3 bilhões
  • Imposto de Renda: R$ 2,3 bilhões
  • Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL): R$ 1,4 bilhão
  • Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins): R$ 1,5 bilhão

Ainda assim, o avanço das receitas foi insuficiente para neutralizar a alta mais forte das despesas no mês.

Primeiro trimestre fecha no vermelho, após superávit em 2025

No acumulado de janeiro a março, as contas públicas registraram déficit de R$ 17,085 bilhões. No mesmo período de 2025, o resultado havia sido um superávit de R$ 54,993 bilhões.

No primeiro trimestre, a receita líquida somou R$ 626,4 bilhões (alta real de 4,2%), enquanto as despesas totais chegaram a R$ 643,5 bilhões (alta real de 23,3%). Assim como em março, o desempenho acumulado foi impactado pela antecipação no pagamento de precatórios.

Segundo o Tesouro, o déficit no trimestre ficou baixo por causa do superávit primário de R$ 86,9 bilhões em janeiro, mês tradicionalmente marcado por resultados positivos.

Investimentos federais aceleram em março

Os investimentos federais registraram crescimento expressivo em março, sinalizando aumento da execução orçamentária.

No mês, os investimentos somaram R$ 14,8 bilhões, alta real de 323,9%. No acumulado de 2026, chegaram a R$ 24,4 bilhões, avanço real de 146,4%.

De acordo com o balanço, o movimento reflete a aceleração de projetos públicos e a execução de despesas discricionárias (não obrigatórias) no início do ano.

Meta fiscal prevê superávit, mas governo projeta déficit no ano

A meta fiscal para 2026 prevê superávit de 0,25% do PIB, cerca de R$ 34,3 bilhões, com margem de tolerância que permite resultado entre zero e R$ 68,6 bilhões positivos.

Regras aprovadas permitem excluir até R$ 63,5 bilhões em despesas do cálculo, incluindo precatórios. Mesmo com esses abatimentos, a previsão oficial do governo é de déficit efetivo de R$ 59,8 bilhões no ano — o que, se confirmado, manterá as contas públicas no vermelho.

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