OIT estima 840 mil mortes por ano ligadas a riscos psicossociais no trabalho

Relatório aponta impacto de jornadas longas, insegurança e assédio, com efeitos na saúde mental e cardiovascular e custo de 1,37% do PIB global

29/04/2026 às 07:13 por Redação Plox

Mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos no mundo por problemas de saúde ligados a riscos psicossociais no trabalho, como jornadas longas, insegurança no emprego e assédio. O dado faz parte de um relatório global da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Segundo o estudo, esses fatores estão diretamente associados a doenças cardiovasculares e a transtornos mentais, incluindo casos de suicídio. Ao todo, os riscos psicossociais resultam na perda de quase 45 milhões de anos de vida saudável por ano, considerando doença, incapacidade ou morte prematura.

Além dos efeitos na saúde, o impacto também chega à economia: a OIT estima que esses riscos gerem perdas equivalentes a 1,37% do PIB global por ano.


Problemas como estresse, assédio e jornadas longas causam mais de 840 mil mortes por ano, diz OIT

Problemas como estresse, assédio e jornadas longas causam mais de 840 mil mortes por ano, diz OIT

Foto: Freepik/Reprodução


Relatório foi preparado para o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho

Intitulado “O ambiente psicossocial de trabalho: tendências globais e orientações para a ação”, o documento foi preparado para o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, celebrado em 28 de abril.

O relatório chama atenção para o efeito crescente de como o trabalho é planejado, organizado e gerido na saúde dos trabalhadores.

De acordo com a organização, o ambiente psicossocial envolve a estrutura do trabalho, a forma de gestão, as relações interpessoais e as políticas adotadas pelas empresas — fatores que influenciam diretamente a saúde física e mental.

Três dimensões ajudam a entender os riscos psicossociais

O documento aponta três dimensões principais do problema: a natureza do trabalho (como nível de exigência e adequação às habilidades), a organização e gestão (incluindo carga de trabalho, autonomia e apoio) e as políticas e práticas do ambiente profissional (como jornadas, remuneração e prevenção ao assédio).

Quando esses elementos são mal administrados, o risco de adoecimento aumenta.

Digitalização, IA e trabalho remoto podem ampliar desafios

A OIT também destaca que mudanças recentes — como a digitalização, o uso de inteligência artificial e a expansão do trabalho remoto — estão transformando o ambiente profissional. Segundo o relatório, essas transformações podem agravar riscos existentes ou criar novos desafios caso não sejam acompanhadas por políticas adequadas.

Os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos para a segurança e saúde no trabalho no mundo moderno

Manal Azzi, líder da equipe de políticas de segurança e saúde da OIT

De acordo com ela, melhorar o ambiente de trabalho é essencial não apenas para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores, mas também para fortalecer a produtividade, o desempenho das organizações e o desenvolvimento econômico sustentável.

O relatório reforça que esses riscos podem ser prevenidos, desde que as causas estruturais sejam enfrentadas. Entre as recomendações, estão a melhoria da organização do trabalho, o fortalecimento de políticas de saúde e segurança e o incentivo ao diálogo entre governos, empregadores e trabalhadores.

No Brasil, atualização da NR-1 foi adiada e pode sofrer novo atraso

No Brasil, o governo reconheceu o avanço desses riscos ao atualizar a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), voltada ao gerenciamento de riscos ocupacionais.

A medida estava prevista para entrar em vigor em maio de 2025 — ano em que, como o g1 mostrou, o país bateu recorde de afastamentos por transtornos mentais, com custo bilionário aos cofres públicos.

Após pressão de entidades empresariais, a implementação foi adiada para maio de 2026. Agora, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) avalia um novo adiamento.

Com a atualização da norma, auditores do trabalho poderiam fiscalizar e aplicar multas caso fossem identificados problemas como metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais, falta de autonomia e condições precárias de trabalho. A ideia é que esses pontos passem a ter peso de fiscalização semelhante ao de questões ligadas a acidente de trabalho ou doença.

O possível adiamento ocorre em meio à piora do cenário. Em 2025, quando a norma já deveria estar em vigor, o quadro de afastamentos se agravou: mais de meio milhão de licenças foram concedidas por transtornos mentais.

O MTE informou que ainda não há definição e que deve divulgar uma decisão em breve.

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