Brasil tenta barrar sobretaxa de Trump a alimentos e aviões da Embraer
Governo Lula busca negociação com EUA para evitar prejuízos bilionários às exportações nacionais
Por Plox
29/07/2025 10h24 - Atualizado há cerca de 1 mês
Faltando poucos dias para que os Estados Unidos iniciem a aplicação de uma tarifa de 50% sobre produtos importados do Brasil, o governo federal intensifica os esforços diplomáticos para evitar que itens estratégicos entrem na lista da sobretaxa anunciada por Donald Trump.

Entre os produtos que o Brasil tenta excluir da medida estão alimentos, como suco de laranja e café, além de aviões fabricados pela Embraer. As negociações têm sido lideradas pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que mantém diálogo com o secretário de Comércio norte-americano, Howard Lutnick.
A pressão sobre o setor exportador é grande, especialmente em estados como Minas Gerais, onde a indústria de ferro-gusa teme colapso. O Brasil é atualmente o maior produtor e exportador mundial de suco de laranja, sendo que 42% das exportações têm como destino os EUA. Além disso, o país lidera o fornecimento de café ao mercado americano: apenas entre janeiro e maio deste ano, foram embarcadas 2,87 milhões de sacas, representando 17,1% do total exportado, segundo o Cecafé.
No setor aéreo, a preocupação é ainda mais estratégica. A Embraer tem forte presença no mercado norte-americano de aviação regional. Como parte significativa de suas peças é importada dos próprios EUA, o governo brasileiro argumenta que aplicar a tarifa ao produto final pode ser contraproducente.
Apesar dos esforços, até agora não houve resposta clara do governo Trump. Diante disso, o Brasil mantém um plano de contingência pronto, mas retém sua divulgação oficial até que a medida tarifária seja de fato publicada. O plano, elaborado pela equipe econômica, visa proteger empresas brasileiras e inclui a possibilidade de criação de um fundo privado emergencial para facilitar crédito, além de medidas para manter empregos, semelhantes ao programa criado durante a pandemia.
Nesta segunda-feira (28), o presidente Lula se reuniu no Palácio do Planalto com Alckmin e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir os próximos passos. Após o encontro, Haddad afirmou que o governo ainda aguarda a decisão formal dos EUA, e que todas as alternativas possíveis já foram apresentadas a Lula.
\"O foco do Brasil é negociar\", disse Haddad.
Ele também destacou que o vice-presidente permanece em contato constante com autoridades norte-americanas. \"O Brasil não vai sair da mesa de negociação em nenhum momento\", garantiu.
No domingo (27), Trump confirmou a imposição da sobretaxa a partir de 1º de agosto. A medida, se concretizada, será uma das mais altas em vigor globalmente. A expectativa de analistas e autoridades brasileiras é que o impacto sobre a economia nacional possa chegar a R$ 175 bilhões no PIB, conforme alerta da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais).
Uma comitiva de senadores brasileiros, liderada por Jaques Wagner (PT-BA), está em Washington tentando sensibilizar empresários e parlamentares norte-americanos. Contudo, o próprio senador reconheceu que o prazo é apertado para conseguir adiar a entrada em vigor da medida.
Em São Paulo, o presidente Lula comentou o impasse e demonstrou frustração com a ausência de retorno por parte dos EUA. \"Todo dia ele [Alckmin] liga para alguém e ninguém quer conversar com ele\", afirmou Lula.
Enquanto isso, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, participa de um evento da ONU em Nova York, aguardando uma possibilidade de agenda com representantes do governo Trump. Caso não haja abertura para um encontro, ele poderá desistir de seguir para Washington.
Internamente, Alckmin mantém uma agenda intensa com setores da indústria, do agronegócio e do comércio, avaliando os reflexos da medida sobre diferentes cadeias produtivas. Em nota oficial, o governo brasileiro deixou claro que não aceitará qualquer vinculação do tarifaço com questões políticas ou jurídicas envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro ou o Judiciário.
Por fim, o governo rechaçou a ideia de ceder às pressões americanas sobre minerais estratégicos. Em encontro recente com representantes do setor privado, o encarregado de negócios da embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, manifestou interesse nesses recursos. Lula respondeu:
\"As reservas minerais do Brasil pertencem ao povo brasileiro.\"