Celular de suspeita de envenenar açaí com chumbinho foi resetado um dia após ela saber da investigação, diz inquérito
Perícia aponta remoção de dados e backup feito cerca de uma hora após a reconfiguração; laudo confirmou terbufós no copo, e MP pediu novos esclarecimentos
30/03/2026 às 11:34por Redação Plox
30/03/2026 às 11:34
— por Redação Plox
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O celular de Larissa de Souza, de 26 anos, suspeita de colocar chumbinho no copo de açaí do namorado em Ribeirão Preto (SP), foi resetado um dia depois de ela comparecer à delegacia pela primeira vez e tomar conhecimento de que estava sendo investigada, em fevereiro deste ano. A informação consta no inquérito policial obtido pelo g1 junto ao Ministério Público (MP).
Larissa foi indiciada por tentativa de homicídio qualificado contra Adenilson Ferreira Parente, de 27 anos. A vítima precisou ser internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sobreviveu e, segundo o registro do caso, passa bem.
Larissa de Souza, de 26 anos, foi indiciada por tentativa de homicídio qualificado contra o namorado dela.
Foto: Reprodução / Redes sociais.
Perícia aponta reset e último backup após reconfiguração
De acordo com a Polícia Civil, a perícia constatou que o aparelho foi resetado em 11 de fevereiro, o que levou à remoção dos dados armazenados. Ainda conforme o inquérito, cerca de uma hora após o procedimento, houve também um último backup gerado logo depois da reconfiguração do celular.
Com isso, os peritos não encontraram no telefone de Larissa elementos considerados relevantes para a investigação. O celular de Adenilson também foi analisado e, segundo o inquérito, igualmente não apresentou informações úteis ao caso.
O documento ainda registra que, no dia em que Larissa esteve na delegacia pela primeira vez, foi solicitado que ela retornasse no período da tarde, mas ela não compareceu.
Suspeita nega envolvimento; vítima diz acreditar na inocência
A suspeita nega qualquer participação no envenenamento. Em depoimento, Adenilson afirmou acreditar na inocência da namorada. O g1 informou que tentou contato com a defesa do casal, mas não obteve retorno até a última atualização da reportagem.
A maneira e o momento em que chumbinho foi colocado no copo de açaí ainda são pontos que precisam ser esclarecidos pelas investigações.
Foto: Reprodução / Redes sociais.
Leite condensado vira ponto de contradição no inquérito
A forma e o momento em que o chumbinho foi colocado no copo de açaí ainda são pontos apontados como pendentes de esclarecimento. Entre os depoimentos reunidos no inquérito, constam as versões de Larissa e de funcionárias da loja onde o produto foi comprado, com divergências sobre a adição de leite condensado.
Larissa afirmou que misturou leite condensado ao copo de açaí e que o item teria vindo separado. Já funcionárias ouvidas como testemunhas disseram que o pedido feito por ela não incluía item extra.
O gerente do estabelecimento, conforme o inquérito, declarou que os ingredientes escolhidos por Larissa para os dois pedidos de açaí — morango, leite condensado e amendoim — foram misturados dentro dos copos durante a preparação na cozinha.
A polícia analisou o comprovante do pedido feito por aplicativo e imagens da câmera de monitoramento interna da loja. Segundo a investigação, esses materiais confirmam as versões apresentadas pelas funcionárias e pelo gerente.
Desde o início, as autoridades descartaram a possibilidade de o envenenamento ter ocorrido dentro do estabelecimento.
Câmeras registram momento em que suspeita adiciona algo ao copo, diz polícia
O caso ocorreu em 5 de fevereiro. Por volta das 16h, Larissa foi a uma loja na Avenida Barão do Bananal, na zona Leste de Ribeirão Preto, para retirar dois copos de açaí com morango, leite condensado e amendoim.
Imagens de câmeras de segurança de vizinhos mostram Larissa e Adenilson chegando em casa de carro. Ela carregava uma sacola com os dois copos e entregou um deles ao namorado antes de entrar na residência.
Segundo a polícia, ainda dentro do carro, Larissa teria colocado algo em um dos copos e, depois, descartado um saquinho plástico em via pública. Em depoimento, ela afirmou que adicionou leite condensado que teria vindo à parte.
Nas imagens, em seguida, Larissa entrega o copo a Adenilson e entra na casa. Ele deixa o açaí no chão e sai com o carro. Minutos depois, Larissa vai até a garagem, recolhe o copo e retorna para dentro da residência. Adenilson volta ao local e permanece por cerca de 20 minutos.
Por volta das 20h, a câmera de segurança da loja registrou o casal retornando ao estabelecimento para reclamar da compra. Adenilson já relatava queimação na garganta, tontura, sonolência intensa e gosto de óleo de motor de carro.
Ele foi levado a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e precisou ser encaminhado à Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, onde ficou internado na UTI. Depois, se recuperou, recebeu alta e está bem de saúde.
Laudo confirmou terbufós no copo de açaí
No único depoimento à polícia, prestado quando ainda estava internado, Adenilson disse acreditar na inocência da namorada e afirmou que os dois sempre tiveram uma relação harmoniosa. Ele também declarou não haver motivos para o crime, dizendo que não possui seguros de vida ou bens que pudessem beneficiar Larissa.
Segundo o inquérito, Adenilson manteve a mesma versão, relatando que pegou o copo de açaí lacrado de dentro da geladeira, onde Larissa o guardou após tê-lo retirado do chão. Em depoimento à polícia em 19 de fevereiro, ela negou que tenha envenenado o namorado.
Na semana passada, um laudo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou a presença de terbufós no copo de açaí. A substância é descrita no inquérito como um dos principais princípios ativos do chumbinho e usada, principalmente, para controle de pragas de solo em plantações.
MP pede detalhes sobre o lacre e quer saber se ele pode ser refeito sem vestígios
Ao solicitar novos depoimentos da vítima e de duas funcionárias, o Ministério Público pediu que a Polícia Civil colha de Adenilson uma descrição detalhada de como o lacre foi aberto e de como estava o copo antes do consumo.
O MP também solicita que as funcionárias expliquem como é o material do lacre e o local exato onde ele é aplicado, para verificar se seria tecnicamente possível abrir e restaurar em casa sem deixar sinais, como marcas de cola ou dobras.
Segunda a funcionária, quando ela termina a montagem do copo, passa o lacre de segurança, estilo fita. Como são dispostas essas fitas? Quantas fitas são, o material delas e, principalmente, se houver ruptura, poderão ser recompostas sem que deixem vestígios? A própria vítima disse que, quando foi pegar o copo para tomar um suco, estava intacto
promotor Elizeu Berardo
Além disso, o Ministério Público pede a apresentação de fotografias de um produto similar lacrado para análise da tampa e quer esclarecer se houve, ou não, a entrega de qualquer item extra ao casal. As datas das novas oitivas ainda não foram definidas.