Arquivos revelam vigilância do Estado em missas e reuniões de moradores em Brasília durante e após a ditadura
Acervo do ArPDF, agora com acesso irrestrito, reúne fotos e relatórios de 1963 a 1990 e cita prisões sem ordem judicial, além de investigações sobre abusos atribuídos a agentes públicos
30/03/2026 às 10:33por Redação Plox
30/03/2026 às 10:33
— por Redação Plox
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Agentes do Estado não miravam apenas políticos, estudantes e sindicalistas durante a ditadura militar (1964-1985) em Brasília. Documentos do Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF) mostram que o monitoramento se estendia a diferentes setores da sociedade: havia vigilância em missas na Catedral, em reuniões de condomínio em áreas nobres e em outros encontros cotidianos, com produção de fotos e relatórios sobre os participantes.
Cerca de 100 caixas de documentos produzidos de 1963 a 1990, boa parte deles relacionada à ditadura militar, tornaram-se de acesso irrestrito no Arquivo Público do Distrito Federal
Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília
Parte desse material está reunida em cerca de 100 caixas que se tornaram de acesso irrestrito no ArPDF. O acervo reúne documentos produzidos de 1963 a 1990 pelo Centro de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social da capital, com registros anteriores ao golpe de 1964 e também do período já sob democracia.
Muitas páginas receberam o carimbo de “confidencial” durante a ditadura e permaneceram sob sigilo por décadas. O conjunto testemunha um período em que o Estado financiou um aparato de vigilância estruturado para coletar informações extensas e detalhadas sobre aquilo que considerava ameaça ao regime.
Pesquisadores apontam que uma parte essencial do que foi produzido pelos arapongas provavelmente desapareceu antes da abertura dos arquivos — sobretudo o que registrava grampos telefônicos e torturas de opositores. Ainda assim, permanecem relatos formais de abusos jamais punidos e de crimes comuns cometidos por militares e policiais civis.
O ArPDF também conserva registros de prisões, muitas delas sem flagrante ou ordem judicial, além de levantamentos de antecedentes. Os documentos indicam que agentes vasculhavam a vida de pessoas por motivos banais, como a queda de energia na casa de um oficial do Exército ou um trabalho escolar de uma turma do ensino fundamental.
Os papéis que registram crimes atribuídos a integrantes das Forças Armadas, bombeiros e policiais civis e militares foram classificados como “confidencial”. Ao mesmo tempo, havia ordens para divulgar mentiras sobre supostos inimigos do regime, com o objetivo de desmoralizá-los e até justificar sequestros e assassinatos tratados como desaparecimentos.
As milhares de páginas do acervo foram analisadas por um repórter da equipe de O TEMPO em Brasília nas últimas semanas. O levantamento embasou uma série de reportagens que marca os 62 anos da ditadura, iniciada em 31 de março de 1964, com o golpe que depôs o presidente João Goulart e instaurou um regime autoritário.
Espionagem continuou após o fim da ditadura
Mesmo com o encerramento formal do regime, a vigilância seguiu aparecendo em documentos oficiais. Na noite de 15 de junho de 1985, seis meses após o fim da ditadura, militares do Serviço de Inteligência da Aeronáutica foram a um clube para acompanhar uma reunião da Associação dos Moradores do Lago Norte. Eles se apresentaram como residentes de um dos bairros mais nobres de Brasília e receberam a missão de anotar tudo o que fosse dito no encontro.
A pauta tratava da construção de uma segunda ponte ligando o Lago Norte à Asa Norte, além da conservação de passarelas e áreas verdes. Segundo o relatório preservado pelo ArPDF, o que mais chamou a atenção dos agentes foi a repercussão de críticas ao brigadeiro Peixoto, descrito como “da reserva remunerada”, eleito prefeito comunitário do Lago Norte e que, “até o momento não tomou nenhuma providência para a construção de uma ponte”.
Os relatórios registram ainda que um militar da reserva, morador do Lago Norte, defendeu o prefeito comunitário e afirmou que ele havia feito muito pelo bairro, mas se recuperava de uma cirurgia. A esposa de outro militar também teria falado em defesa do prefeito, de acordo com o relato.
Uma nova reunião, em 22 de julho de 1985, no mesmo clube, reuniu cerca de 100 pessoas, incluindo o ex-ministro Jarbas Passarinho. Os agentes produziram três relatórios, que somaram mais de 30 páginas, com nomes, profissões, endereços e telefones de 80 participantes. Ao final, segundo o que se registra, nenhuma ponte foi construída na gestão do militar da reserva da Aeronáutica.
Naquele período, o Distrito Federal ainda não tinha autonomia administrativa — o que só ocorreria com a Constituição de 1988, quando os moradores passaram a escolher governador e deputados distritais. Antes, o DF era administrado por um governador indicado pelo presidente, que, durante a ditadura, era um general.
Hotel Nacional entrou na mira por prostituição e “repercussão”
Os documentos indicam que a vigilância também se voltou à prostituição em torno do Hotel Nacional, então descrito como o mais luxuoso de Brasília. Em 3 de setembro de 1971, o chefe da “Seção de Mendicância e Vadiagem” da Delegacia de Vigilância e Capturas do DF enviou relatório ao serviço secreto do Exército para comunicar a abertura de investigação sobre o tema.
O Serviço de Inteligência do Exército registrou incômodo com a repercussão do fluxo de prostitutas no hotel, onde se hospedavam autoridades do país, incluindo oficiais militares, além de estrangeiros como diplomatas e chefes de Estado e também grandes empresários.
Um ofício datado de 26 de agosto de 1971 informou ao comando do Exército que equipes haviam sido designadas para monitorar a movimentação ao redor do hotel, diariamente, entre 20h e 22h, “para evitar a presença de elementos indesejáveis e mulheres de vida fácil”. O delegado citou o entendimento de que a situação ameaçava “as famílias e hóspedes ali residentes” e gerava transtornos à direção do local.
Mais adiante, porém, os próprios investigadores reconheceriam que a prostituição era alimentada pelos hóspedes. Um documento carimbado como “confidencial” descreve a rotina de abordagens ao redor do estabelecimento e o entra e sai de clientes e mulheres no hotel. As prostitutas são chamadas de “mundanas” no texto, enquanto os homens aparecem como “senhores”.
O delegado do caso relatou ter ido ao local e abordado prostitutas, informando que elas não poderiam permanecer ali. O relatório cita ordem de prisão a três mulheres, o que teria provocado confusão. Em seguida, um hóspede, advogado do Rio de Janeiro, interveio em defesa delas. As mulheres foram levadas e fichadas em uma delegacia e, em depoimento, teriam mencionado uma cafetina e a existência de outras 20 a 30 prostitutas, mas o caso não teve desfecho registrado.
Em outro relatório, a autoridade policial afirmou que hóspedes — sobretudo os que moravam no hotel — aprovavam o “serviço” da polícia, mas reclamou de interferências: “por outro lado, sempre tem as autoridades e até pessoas de maior projeção que interferem no serviço prejudicando seu andamento e tentando por em risco a função de policiais.” Ao final, o chefe da delegacia pediu ao Serviço de Inteligência um “plano” para o policiamento no entorno do hotel. Não há novos registros, nos documentos citados, sobre a cafetina mencionada, incluindo a referência a exploração envolvendo meninas com menos de 18 anos.
Documento “confidencial” aponta tráfico de drogas com participação de militares
Outro conjunto de registros trata de uma operação contra tráfico de drogas em Brasília. Em 1973, o serviço secreto do Exército enviou à Secretaria de Segurança Pública do DF um documento “confidencial” relatando uma ação contra um esquema comandado por militares. O texto afirmava que “o problema era de grande extensão e abrangia elementos não só do Exército, como também das demais Forças Armadas”.
Segundo o documento, o tráfico ocorria por meio de vendedores ambulantes que atuavam em portas de escolas do Plano Piloto, oferecendo drogas a adolescentes de 13 a 18 anos. A investigação, repassada à Polícia Federal, identificou a participação de 19 militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, além de 11 policiais militares.
Além deles, 12 civis foram presos. Os documentos do ArPDF indicam que a investigação foi compartilhada com a Polícia Federal e com a Secretaria de Segurança do DF, com carimbos de “reservado” e informações como nomes e fotos dos acusados. Parte do caso foi divulgada pela imprensa na época, mas, conforme o texto, a participação efetiva dos militares não veio a público devido à censura.