Vício em bets vira principal causa de endividamento no Brasil, aponta estudo
Pesquisa da FIA Business School e do Ibevar indica que apostas on-line superaram juros e crédito como fator de endividamento entre 2011 e 2025
30/03/2026 às 09:33por Redação Plox
30/03/2026 às 09:33
— por Redação Plox
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Um estudo da FIA Business School e do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) aponta que o vício em jogos on-line, as chamadas bets, se tornou a principal causa de endividamento no Brasil, superando fatores historicamente associados ao avanço das dívidas, como taxas de juros e o comprometimento da renda com crédito.
Ao analisar dados de 2011 a 2025, a pesquisa aplicou modelos estatísticos para medir o impacto de diferentes variáveis no orçamento doméstico. O coeficiente associado às apostas chegou a 0,2255, acima do verificado para os juros ao consumidor (0,0709) e para o volume de crédito sobre a renda (0,0440). Na prática, o peso das apostas no endividamento é quase o dobro da soma de juros e crédito combinados.
Danos à saúde mental e física de apostadores resultam em um prejuízo estimado em, pelo menos, R$ 38,8 bilhões por ano
Foto: (crédito: Joédson Alves/Agência Brasil)
Legalização e expansão aceleraram a dinâmica das dívidas
Segundo o estudo, embora o endividamento no país apresentasse leve tendência de desaceleração, a legalização das apostas esportivas em 2018, no governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), e a explosão do setor a partir de 2019 impulsionaram a dinâmica da dívida. Estima-se que 39,5 milhões de brasileiros tenham utilizado plataformas de apostas nos últimos 12 meses; desse total, 19% admitem ter comprometido a renda e 17% dizem ter deixado de pagar contas básicas para jogar.
Especialistas veem bets como acelerador de uma crise já instalada
Para o economista Sidney Proença, as apostas on-line não devem ser tratadas como causa isolada do endividamento, mas como um acelerador de uma crise financeira já existente. Ele afirma que a incompreensão de conceitos como risco e probabilidade contribui para que o cidadão ignore que, no longo prazo, a lógica matemática do jogo favorece a casa.
O problema é que existe uma combinação perigosa: falta de educação financeira, dificuldade em entender risco, fator emocional de querer recuperar perdas e facilidade de acesso, tudo isso somado a um marketing que vende a ideia de ganho fácil. No fim, a conta não fecha, porque o sistema é feito para a casa ganhar a longo prazo
Sidney Proença
O economista também compara o estímulo externo do setor ao antigo boom do day trade: um marketing agressivo que reforça a ideia de sucesso rápido e ganho fácil. Nesse contexto, a facilidade de acesso por plataformas digitais pode alimentar um ciclo emocional, no qual o apostador tenta recuperar perdas sob uma sensação distorcida de controle.
Economista e especialista da Me Poupe!, Gean Duarte avalia que a ascensão das bets como principal motor de dívidas se relaciona, entre outros fatores, à acessibilidade via celular, sem burocracias e sem análises de renda típicas do crédito tradicional. Ele destaca ainda o uso de gatilhos psicológicos semelhantes aos de cassinos e a percepção distorcida de que o jogo pode funcionar como renda, além de uma narrativa de sucesso fácil impulsionada por influenciadores e publicidade massiva, com impacto maior entre jovens e pessoas de menor renda. Na visão dele, diferentemente do crédito com juros, que tende a gerar dívida de forma gradual, as bets podem produzir um efeito imediato e, muitas vezes, silencioso no orçamento.
Recursos migram do consumo para apostas, com impacto no comércio
O avanço das bets também é descrito como um deslocamento de recursos de atividades produtivas para apostas de retorno esperado negativo. Dados da consultoria PwC citados no material indicam que, nas classes C, D e E, 76% dos gastos antes destinados ao lazer e 5% dos recursos voltados à alimentação estão sendo redirecionados para plataformas on-line. O perfil predominante do apostador é de homens entre 18 e 30 anos, de baixa renda; 58% deles têm dívidas em atraso há mais de 90 dias.
Um levantamento do Instituto de Economia Maurílio Biagi da Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (IEMB-Acirp), filiado à Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), afirma que despesas essenciais com alimentação, vestuário e lazer vêm sendo parcialmente substituídas por gastos recorrentes com apostas. Além de pressionar o orçamento familiar e aumentar a instabilidade financeira, o fenômeno eleva a probabilidade de inadimplência e afeta o comércio local.
Danos à saúde e custo social bilionário
Além do desequilíbrio financeiro, o jogo problemático é descrito como um fardo para a saúde pública e para a estrutura social. Uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) aponta que as bets podem causar danos à saúde com prejuízo à sociedade de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano.
O mesmo material informa que o custo total dos danos associados ao jogo problemático é estimado em pelo menos R$ 38,8 bilhões anuais, considerando também impactos como perda de emprego, de moradia e aprisionamento. As estimativas incluem custos diretos para o Estado e custos sociais indiretos, associados à perda de qualidade e duração de vida, medida em anos de vida ajustados pela qualidade.
Arrecadação cresce, mas repasse à Saúde é de 1%
As organizações responsáveis pelo estudo destacam que os prejuízos sociais contrastam com os lucros do setor de apostas on-line, que no primeiro semestre de 2025 teria lucrado R$ 17,4 bilhões. A arrecadação aumentou após a tributação: passou de R$ 38 milhões entre janeiro e setembro de 2024 para R$ 6,8 bilhões no mesmo período de 2025, alta de 180 vezes.
Apesar disso, o texto aponta que apenas 1% do valor arrecadado sobre a receita é destinado ao Ministério da Saúde. Até 25 de agosto de 2025, o repasse somava pouco mais de R$ 32 milhões, segundo informações do Ministério da Fazenda em resposta a um requerimento de informação enviado pelas organizações responsáveis pelo estudo. O material também afirma que o país ainda não possui uma vinculação orçamentária específica para financiar ações de cuidado no âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), o que impediria verificar a equivalência ou discrepância entre os recursos obtidos com a tributação e os custos arcados pelo SUS.