Lula critica Trump por ignorar tentativas de diálogo com o Brasil
Presidente relata frustração com silêncio da Casa Branca após tentativas de negociação sobre tarifas
Por Plox
30/07/2025 08h28 - Atualizado há cerca de 1 mês
A aproximação do início da vigência das novas tarifas impostas por Donald Trump sobre produtos brasileiros reacendeu o mal-estar diplomático entre Brasil e Estados Unidos. Em entrevista ao jornal norte-americano

Segundo Lula, foram feitas diversas iniciativas formais para tentar reverter o chamado 'tarifaço', mas nenhuma resultou em uma conversa direta. Ele explicou que designou o vice-presidente, o ministro da Agricultura e o ministro da Economia para buscar contato com seus equivalentes norte-americanos. No total, ocorreram dez encontros com o Departamento de Comércio dos EUA, incluindo o envio de uma carta oficial em 16 de maio.
A única resposta, no entanto, veio de forma indireta.
\"A resposta veio pelo site do presidente Trump, anunciando as tarifas ao Brasil\"
, declarou Lula, visivelmente crítico à condução diplomática dos EUA. Para ele, a ausência de retorno mostra a falta de disposição política por parte do governo norte-americano. \"O que está impedindo é que ninguém quer conversar\", lamentou.
Lula acredita que a imposição das tarifas está ligada a interesses políticos e considera que a medida pode ser uma forma de retaliação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentativa de golpe após a derrota nas eleições de 2022. Donald Trump, aliado de Bolsonaro, já classificou o processo como uma “caça às bruxas”. Ainda assim, Lula reforçou:
\"O Brasil tem uma Constituição, e o ex-presidente está sendo julgado com pleno direito à defesa\"
.
O presidente brasileiro também destacou as possíveis consequências da medida americana. Segundo ele, a população dos dois países pode ser diretamente prejudicada, com aumento de preços em diversos produtos. \"O povo brasileiro vai pagar mais caro por alguns produtos, e o povo americano vai pagar mais caro por outros produtos. E eu acho que essa causa não justifica isso.\"
Em tom assertivo, Lula declarou que o Brasil não irá se curvar nas negociações.
\"Em nenhum momento o Brasil vai negociar como se fosse um país pequeno diante de um país grande\"
, afirmou, defendendo que o caminho para um entendimento não passa por posturas extremas. “Não se conquista nada estufando o peito e gritando coisas que você não pode cumprir, nem baixando a cabeça e dizendo ‘amém’ pra tudo o que os Estados Unidos quiserem.”
Questionado sobre a possibilidade de conflito diplomático mais direto com Trump, Lula minimizou a hipótese e reforçou seu perfil conciliador. “Não há motivo para ter medo. Eu aprendi política negociando. Nem meu pior inimigo pode dizer que o Lula não gosta de negociar.”
Mesmo com a tensão crescente, Lula deixou claro que manterá o pragmatismo. Caso as tarifas entrem em vigor, o Brasil buscará novos parceiros comerciais. “Não vou chorar pelo leite derramado. Se os Estados Unidos não quiserem comprar algo nosso, vamos procurar quem queira.” E lembrou da parceria já consolidada com a China. “Se os Estados Unidos e a China quiserem fazer uma Guerra Fria, nós não vamos aceitar.”
Em tom irônico, Lula criticou a mistura entre interesses comerciais e posicionamentos políticos de Trump: “Eu não posso simplesmente mandar uma carta pro Trump dizendo: ‘Olha, Trump, o Brasil não vai fazer tal coisa se você não fizer tal coisa com Cuba’. Não posso fazer isso - por respeito aos Estados Unidos, à diplomacia e à soberania de cada nação.”
Finalizando a entrevista, Lula deixou uma alfinetada direta ao ex-presidente norte-americano:
“Sinceramente, não sei o que Trump ouviu sobre mim. Mas se ele me conhecesse, saberia que sou 20 vezes melhor que Bolsonaro”
.
O pacote de tarifas imposto por Trump deverá entrar em vigor no dia 1º de agosto, conforme prometido pela Casa Branca. Até lá, o governo brasileiro continua tentando reabrir os canais de negociação.