Como a CSN levou sua siderurgia ao colapso

Denúncia do MPF em Volta Redonda pede R$ 430 milhões por danos ambientais e à saúde pública; empresa também foi multada pelo Cade e, apesar da perda de competitividade, recebeu crédito superior a R$ 1 bilhão do BNDES.

31/01/2026 às 08:30 por Redação Plox

Segundo fontes do mercado, a crise da siderurgia da CSN deixou de ser pontual e passou a ser tratada como resultado direto de decisões estratégicas acumuladas ao longo dos últimos anos. O grupo enfrenta hoje um cenário marcado por endividamento elevado, passivos ambientais e sinais crescentes de enfraquecimento operacional, a ponto de interlocutores próximos à companhia relatarem a possibilidade de redução ou até saída do negócio do aço.

Moradores reclamam dos altos índices de poluição da usina em Volta Redonda, no Rio de Janeiro

Moradores reclamam dos altos índices de poluição da usina em Volta Redonda, no Rio de Janeiro

Foto: Redes Sociais



De acordo com avaliações técnicas acompanhadas por órgãos ambientais e por agentes do setor, o desgaste da operação está associado à falta de modernização das plantas industriais, à redução dos investimentos e ao descumprimento de exigências ambientais. Em Volta Redonda, a situação ganhou contornos judiciais após o Ministério Público Federal apresentar denúncia criminal com pedido de indenização de R$ 430 milhões por danos à saúde pública e ao meio ambiente, episódio que ampliou a pressão institucional sobre a companhia, segundo o próprio MPF.

Multa por não cumprir obrigações relacionadas à Usiminas


Para analistas do setor siderúrgico, a perda de competitividade tornou-se um dos sinais mais evidentes da deterioração industrial. Incapaz de produzir aço a custos compatíveis com o mercado, a CSN passou a recorrer ao mercado externo. Dados de comércio exterior indicam que, apenas em 2025, cerca de 300 mil toneladas foram importadas, movimento que é interpretado por fontes do mercado como sinal de fragilidade da produção própria.

No campo regulatório, a empresa também acumula reveses. Segundo decisões do Cade, a CSN recebeu multa de R$ 128 milhões após mais de uma década de descumprimento de obrigações relacionadas à sua participação acionária na Usiminas. O Ministério Público defendeu a aplicação da penalidade como medida de interesse público. O valor, ainda não executado pela União, segue registrado como passivo judicial, conforme consta nos autos do processo.


BNDES aprova R$ 1 bilhão em crédito


Mesmo nesse contexto, a companhia conseguiu, em dezembro, a aprovação de mais de R$ 1 bilhão em crédito junto ao BNDES. A operação foi confirmada pelo próprio banco de fomento e chamou atenção no setor, já que o histórico recente do BNDES aponta critérios rigorosos na área ambiental, justamente um dos principais pontos de fragilidade da operação da CSN em Volta Redonda.

Incertezas

No campo da governança, segundo fontes próximas à companhia, a ausência de um plano claro de sucessão familiar e a recente mudança de residência de Benjamin Steinbruch para o Uruguai ampliaram as incertezas sobre o futuro do conglomerado. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas bilionárias no Supremo Tribunal Federal, conforme registros públicos do STF, cenário que analistas interpretam como mais um fator de pressão financeira, institucional e reputacional sobre o grupo.

Compartilhar a notícia

V e j a A g o r a