Enquanto a volatilidade do petróleo no mercado internacional e as tensões no Oriente Médio voltam a mexer com preços e logística, o Brasil conta com um “colchão” estrutural que reduz a dependência da gasolina importada: a gasolina E30, com 30% de etanol anidro, e uma frota ampla de veículos flex, que permite ao consumidor alternar entre gasolina e etanol. O cenário, porém, também evidencia uma fragilidade: a maior dependência de importações de diesel, que motivou medidas anunciadas pelo governo federal em março.
A alta e a instabilidade do petróleo no mercado global voltaram ao centro das atenções em março, com o Brent superando a marca de US$ 105 em meio à escalada de tensões e riscos logísticos na região do Estreito de Ormuz, segundo a Agência Brasil. A pressão se espalha por combustíveis e cadeias de transporte em diversos países.
Gasolina E30 e frota flex ampliam a margem de manobra
No Brasil, uma das principais diferenças em relação a economias mais dependentes de gasolina pura é a presença consolidada do etanol na matriz de combustíveis do ciclo Otto. Em junho de 2025, o governo federal anunciou o aumento do teor de etanol anidro na gasolina para 30% (E30), medida divulgada pela Agência Brasil com base em informações do Ministério de Minas e Energia.
Na prática, a mudança amplia o espaço do biocombustível na bomba e reforça a possibilidade de substituição parcial da gasolina por etanol, especialmente em um país com grande frota de veículos flex. Em um ambiente de choques externos, essa combinação funciona como reserva de segurança no abastecimento de veículos leves.
Dados técnicos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a produção brasileira de etanol (cana e milho) alcançou 37,3 bilhões de litros em 2024, evidenciando a escala do setor e sua relevância para o abastecimento nacional. O mesmo documento aponta a expansão do etanol de milho nos últimos anos, com impacto na oferta ao longo do ano, inclusive em períodos de entressafra da cana.
Diesel segue como principal vulnerabilidade em choques externos
Apesar do “colchão” no ciclo Otto, o diesel permanece como o principal ponto de vulnerabilidade do país em momentos de turbulência internacional. Em 12 de março de 2026, o Ministério da Fazenda informou um conjunto de medidas para reduzir o impacto da oscilação do petróleo sobre o preço do diesel no Brasil, incluindo decreto que zera alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, com o objetivo de evitar repasses ao consumidor final.
Entidades do setor também têm alertado para o risco de desabastecimento e para a dependência de importações no caso do diesel. Em nota publicada em 26 de março de 2026, a Fecombustíveis repercutiu avaliação da Abicom de que o Brasil depende da importação de cerca de 30% do diesel consumido internamente, o que amplia a exposição do país a turbulências internacionais — mesmo com a vantagem relativa trazida pelo etanol na gasolina.
O contraste reforça um diagnóstico: enquanto o etanol e a gasolina E30 ampliam a capacidade de reação do Brasil no abastecimento de veículos leves, o diesel — essencial para o transporte de cargas e para a logística do agronegócio e da indústria — continua sendo o combustível mais sensível a choques externos e às oscilações do petróleo.