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    'Minha mãe só grita o nome do Ryan', diz irmã de jovem morto por PM em BH

    Caso foi registrado no aglomerado da Serra e, segundo a corporação, homem, que teria envolvimento com o tráfico de drogas, tentou pegar arma de sargento

    Por Plox

    01/07/2021 14h07 - Atualizado há 4 meses

    A família de Ryan Pablo da Silva Martins Ribeiro, de 18 anos, busca explicações para a ação da Polícia Militar que terminou com o jovem baleado e morto por um sargento no aglomerado da Serra, região Centro-Sul de Belo Horizonte. Em conversa com a reportagem de O TEMPO, nesta quarta-feira (30), a irmã do homem classificou o caso como "covardia". Por outro lado, a corporação alega que os disparos foram efetuados após o morador tentar pegar a arma do militar em uma área conhecida pelo comércio de drogas.

    A ocorrência foi registrada na última segunda-feira (28) em um dos becos do aglomerado. Conforme consta no boletim de ocorrência, Ryan e outros quatro homens estavam na área com rádios comunicadores e sacolas. A equipe policial ordenou que eles ficassem parados para abordagem. No entanto, na versão da corporação, Ryan teria agredido o militar para pegar a arma. Teria sido realizado um primeiro disparo, mas, como as agressões contra o sargento não cessaram, um segundo tiro foi disparado.

    Ryan foi baleado perto de casa no aglomerado da Serra Foto Foto: Alex de Jesus / O TEMPO
    Ryan foi baleado perto de casa no aglomerado da SerraFoto: Alex de Jesus / O TEMPO

    Segundo a família, Ryan foi baleado nas costas e, já caído, atingido na cabeça. Ele chegou a ser encaminhado ao Hospital de Pronto Socorro João XXIII, mas não resistiu aos ferimentos. "Estamos indignados com a forma covarde que mataram meu irmão. Como eles me falam que um menino de 18 anos, que não pesava nem 50 kg, entrou em luta com um policial? Não é força, é treinamento. Policial teve treinamento e não teve a ação de render o Ryan, levar ele preso, dar um tiro na perna. Ryan virou de costas e falou 'perdi'. Deu um tiro nas costas (o policial), esperou ele cair e deu um tiro na cabeça", explicou a estudante de direito Ana Lívia da Silva, de 22 anos.

    Ryan morava com os irmãos, os avós e o tio. A mãe dele mora em outra casa próxima. Todos foram criados desde pequenos no aglomerado da Serra, Desde a morte do filho, a mulher precisa de ajuda dos familiares para tomar banho e se alimentar. "Minha mãe só grita o nome do Ryan. Ela chama por ele a todo momento, está sem forças. Minha avó só chora. A dor está insuportável", detalhou a irmã.  

    "Policial no aglomerado da Serra tem sede de sangue", diz irmã de Ryan   

    Ainda conforme a irmã de Ryan, outros casos de violência envolvendo militares já aconteceram no aglomerado. "A gente sabe que policial no aglomerado da Serra tem sede de sangue, 'joga' o menino na parte de trás do carro e faz hora para dar tempo dele morrer. É só covardia por ser povo preto, favelado, de periferia. Eles acham que podem fazer o que quiserem. Não vou passar a mão na cabeça dele não, meu irmão vendia drogas sim, mas não fazia mal a ninguém", afirmou. 

    Ana é prima de Jefferson que, em fevereiro de 2011, foi assassinado junto com o tio com tiros de fuzil por policiais militares no mesmo aglomerado. À época, o jovem tinha 17 anos e o tio, o enfermeiro Renilson Veriano da Silva, 39. Os policiais alegaram que tinham sido recebidos a tiros pelas vítimas. Na versão dos militares, a dupla estaria usando fardas. Em 2014, os ex-militares foram condenados. 

    "Quando eles mataram o Jefferson alegaram que ele estava fardado, que houve troca de tiros. E no final era mentira.É sempre assim: chega, faz a covardia, mata e depois fala que teve troca de tiros (no caso de 2011), que teve luta. Pra mim, um policial desse não pode estar trabalhando, tem que ser afastado", finalizou. 

    Comandante diz que ação foi legítima

    Também em conversa com a reportagem de O TEMPO, nesta quarta, o comandante do 22° Batalhão, tenente-coronel Gilbran Maciel, explicou a ação dos militares no caso de Ryan. 

    "Na segunda-feira, uma guarnição do 22° Batalhão fez uma incursão em um local conhecido como boca de fumo e com um tráfico intenso de drogas. Durante essa operação, dois indivíduos foram detidos, e outros três que estavam com eles tentaram arrematar o preso. Houve tentativa de retirada da arma do militar. Durante essa tentativa de retirada da arma, o policial teve que se defender e efetuou um disparo, que atingiu o Ryan na altura da cabeça. Ele foi socorrido pela guarnição, mas, infelizmente, veio a óbito", explicou. 

    Ainda conforme o militar, mesmo com apenas 18 anos, Ryan já tinha envolvimento com o mundo do crime. "Apesar da pouca idade, ele tinha passagem por tráfico de drogas, ostentava nas redes sociais apologia à droga, fumando maconha, com rádio comunicador, mostrava a contabilidade de tráfico", detalhou. 

    Nesta terça-feira (29), moradores da região tentaram colocar fogo em um ônibus como protesto contra a morte do jovem. Militares conseguiram controlar o fogo antes que as chamas tomassem conta do veículo. Devido à ação, a Polícia Militar iniciou uma operação para "restabelecimento da ordem".

    Ryan foi baleado perto de casa no aglomerado da Serra Foto Foto: Alex de Jesus / O TEMPO
    Ryan foi baleado perto de casa no aglomerado da SerraFoto: Alex de Jesus / O TEMPO

    "Nós reforçamos o patrulhamento no aglomerado Serra. Estamos com 55 policiais militares na Serra, diversas viaturas do 22° Batalhão, unidades do CPC, Choque, Gepar, BPTran, Bope. Vamos ocupar o aglomerado até que a ordem seja restabelecida. A comunidade de bem é a grande maioria. Estamos realizando incursões em pontos escolhidos, realizando abordagens. Denúncias podem ser feitas pelos telefones 190 e 181, e o denunciante não precisa de identificar", afirmou.

    Segundo ele, foi realizado o procedimento padrão da corporação e o sargento que atirou foi preso e autuado em flagrante. "Ele vai responder perante a Justiça Militar. O flagrante foi confeccionado no mesmo dia e ele está à disposição da Justiça. É importante dizer que a ação foi considerada pelo comandante da unidade, que sou eu, uma ação legítima, uma vez que houve tentativa de retirada de sua arma. O procedimento padrão foi feito", finalizou. 

    Por meio de nota, a Polícia Civil informou que "instaurou inquérito policial e as investigações estão em andamento pelo Departamento Estadual de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa, em Belo Horizonte. Mais informações serão repassadas em momento oportuno".

    A reportagem solicitou à Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) o número de homicídios consumados e tentados no aglomerado da Serra. No entanto, a pasta informou que "não faz estratificação de crimes por regiões específicas". Os dados disponíveis são de todo o município.

    Aglomerado da Serra é o maior de Belo Horizonte

    O aglomerado da Serra é o maior de Belo Horizonte, conforme dados da Prefeitura de Belo Horizonte. A área conta com oito vilas e totaliza 38.405 habitantes em 10.913 domicílios. Veja os números:

    Vila Marçola - 6556 habitantes; 1841 domicílios
    Vila Nossa Senhora da Conceição - 6225 habitantes; 1857 domicílios
    Vila Nossa Senhora de Fátima - 9640 habitantes; 2641 domicílios
    Vila Santana do Cafezal - 4078 habitantes; 1112 domicílios
    Vila Nossa Senhora Aparecida - 4341 habitantes; 1240 domicílios
    Vila Fazendinha - 3715 habitantes; 1147 domicílios
    Vila Nossa Senhora do Rosário  -  173 habitantes; 45 domicílios 
    Vila Novo São Lucas - 3677 habitantes; 1030 domicílios

    Fonte: https://www.otempo.com.br/cidades/minha-mae-so-grita-o-nome-do-ryan-diz-irma-de-jovem-morto-por-pm-em-bh-1.2506288
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