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    Ex-detentos encontram emprego nos shoppings populares e chance de vida nova

    No Oiapoque, o mais antigo de BH, cerca de 30% dos funcionários têm antecedentes criminais

    Por Plox

    03/12/2020 11h17 - Atualizado há 11 meses

    “Posso ajudar a senhora hoje?”, pergunta o vendedor de roupas César Augusto, no shopping popular Oiapoque, no centro de Belo Horizonte. “O que vamos levar, freguesa?”, questiona o vendedor Luís Henrique Freire Silvano do outro lado do corredor, enquanto Thiago Santos Souza, outro funcionário, exibe as mercadorias: “Está procurando algo especial?”. Os três, além de terem a mesma profissão, dividem um passado semelhante: já foram presos por cometerem crimes. Eles estão entre as dezenas de trabalhadores que conseguiram uma oportunidade de ressocialização nos shoppings populares da capital, muitas vezes a única chance de renda honesta que eles encontram. 

    No shopping Oiapoque, o maior e mais antigo – aberto em 2003 –, dos quase 3.000 funcionários, cerca de 30% têm antecedentes criminais, segundo o dono do estabelecimento, Mário Valadares. “As pessoas que estão trabalhando aqui querem uma vida normal, uma vida melhor, e onde mais elas teriam essa chance? A diferença entre o shopping popular e os outros shoppings é que aqui tem cidadãos com antecedentes criminais que não têm outra opção de trabalho”, afirmou Valadares.

    Thiago Souza diz que é julgado por seu passado e também por ser negro e ter tatuagem
    Thiago Souza diz que é julgado por seu passado e também por ser negro e ter tatuagem
     

     

    Recomeço
    Depois de ser preso por crime de receptação, Thiago Santos Souza está trabalhando há três anos no Oiapoque como vendedor de roupas. “Minha vida mudou. Se a gente está aqui trabalhando hoje é porque quer mudar de vida. A mente vazia é oficina do diabo, mas, aqui, a gente trabalha e corre atrás. Hoje, o Oiapoque é o meio de sobrevivência para cada um de nós”, declarou Souza.

    Ele conta que veio da Bahia para BH sem a família e que se sustenta sozinho. Mas, além do preconceito pela ficha criminal, ele enfrenta outras barreiras. “Muitas vezes as pessoas me julgam pela aparência, por eu se negro e ter tatuagem, mas as pessoas precisam entender que esse é o meu ganha-pão”, comentou Thiago. 

    Já o vendedor César Augusto depende do trabalho no shopping popular para o seu sustento e também o da esposa, que está grávida, e do filho pequeno. “Já fui preso por tentativa de homicídio e, agora, dependo disso aqui. Se fechar, eu estou perdido”, declarou ele, que paga aluguel de R$ 600.

    Sem revelar o delito que já cometeu no passado, Luís Henrique Freire Silvano está há um ano e meio no Oiapoque. “As minhas condutas eram certas, mas eu estava com as pessoas erradas. Aqui, estamos no propósito: contrariar as estatísticas (de reincidência no crime)”, disse.

    Contratação reduz violência
    Mais do que um programa social, a contratação de ex-presidiários nos shoppings populares é vista, inclusive, como opção para reduzir a violência em Belo Horizonte. Na última segunda-feira, o prefeito Alexandre Kalil (PSD) disse em entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, que priorizou a abertura desses centros comerciais durante a pandemia para evitar “o caos na cidade”, uma vez que esses espaços “empregam muita gente com “tornozeleira eletrônica”. 

    Para o especialista em segurança pública Jorge Tassi, a redução da marginalização se dá por meio do trabalho e da educação, que são os dois pilares da ressocialização de ex-presidiários. “Tem muito preconceito e discriminação na sociedade para empregar essas pessoas, é como se elas tivessem uma marca para sempre”, ressaltou. 

    Segundo ele, o preconceito muitas vezes é velado. “Mas sempre se pede antecedentes criminais na hora da entrevista de emprego, o que reduz as oportunidades. Já nesses espaços populares, as chances de ter um emprego são ampliadas”, finaliza Tassi.

    Programa do Governo
    O Estado informou que tem um programa de inclusão social que auxilia os egressos do sistema prisional na busca de emprego e dá apoio jurídico e psicológico.

    Confira a resposta na íntegra:
    O Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), oferece aos egressos do sistema prisional, desde 2004, o Programa de Inclusão Social de Egressos do Sistema Prisional (PrEsp) que faz parte das Políticas de Prevenção Social à Criminalidade.

    De janeiro a outubro deste ano, o PrEsp já realizou mais de 10 mil atendimentos a homens e mulheres. Em 2019 foram 20.603 atendimentos. Da criação do programa até o momento, contabiliza-se mais de 211 mil.

    O PrEsp tem como objetivo principal propiciar o acesso a direitos e promover condições para a inclusão social de homens e mulheres egressos do sistema prisional. Para isso, busca identificar e intervir nas vulnerabilidades e riscos sociais que perpassam a trajetória de vida daqueles que tiveram sua liberdade privada. O programa realiza um acompanhamento do público atendido, possibilitando o acesso a direitos sociais e aos direitos assegurados na Lei de Execução Penal, para contribuir, a partir disso, na diminuição da reincidência criminal. Ele não é um programa exclusivamente voltado para a inclusão no mercado de trabalho, mas também orienta os egressos nessa reinserção.

    A equipe técnica do PrEsp é composta por analistas sociais com formação em Direito, Psicologia e Serviço Social, que realizam atendimentos individuais e grupos reflexivos com o público alvo do programa - pessoas em liberdade definitiva, pessoas em regime aberto, pessoas em livramento condicional, pessoas em prisão domiciliar e os familiares de pessoas egressas do sistema prisional.

    O público comparece ao PrEsp voluntariamente, por meio de encaminhamentos, indicações ou pela coleta de assinaturas referentes ao livramento condicional. Importante ressaltar que o programa também realiza ações nas unidades prisionais com as pessoas que estão a aproximadamente seis meses de alcançarem a liberdade.

    Dessa forma, o PrEsp é apresentado e, tendo conhecimento acerca da existência do programa, ao deixar a unidade prisional o público já sabe que tem um serviço público que pode acessar e que auxiliará na retomada da vida em liberdade.

    Os empresários que se disponham a contratar egressos do sistema prisional podem procurar a Subsecretaria de Prevenção à Criminalidade, da Sejusp, que é a responsável pelo funcionamento do PrEsp.

    Fonte: https://www.otempo.com.br/cidades/ex-detentos-encontram-emprego-nos-shoppings-populares-e-chance-de-vida-nova-1.2420556
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